Para o dia de reflexão e domingo de eleição, junto hoje dois livros: do sim e do não.
Porque quando dizemos sim a alguma coisa, estamos a dizer não a outra, e vice-versa. São como duas faces da mesma moeda e não dois polos distantes.
Uma eleição não é um referendo, mas, em certa medida, estamos também, com o voto, a dizer sim a muitas coisas e não a outras tantas.
O sim e o não fizeram e fazem revoluções. Dão força a ideias e mudam o mundo. Tal como o voto.
Ilustrado pelo mestre Serge Bloch, este A história do não é uma pesquisa e reflexão histórica exatamente sobre o não, a sua importância e o seu reverso.
O não a Luís XVI — que foi o sim à liberdade, à fraternidade e à igualdade, o não de Rosa Parks — que foi o sim ao fim da segregação. O não à escravatura, o não à guerra.
Daqui, Levi, autora, passa para o sistémico não que ouvimos enquanto crianças (e também da sua necessidade), para chegar à ideia de que também as crianças podem dizer não. Sem moralismos, nem "deseducações".
Malko e o papá é também um livro sobre o o não (e o sim).
Uma crua carta de amor de um pai para um filho, este álbum é o escancarar franco de um coração humano, com todas as suas fragilidades e forças, sem um pingo de lamechice. De um pai que passa de um não, redondo e fechado para um sim, feliz e aberto.
Na verdade não é carta nenhuma, mas uma espécie de diário à posteriori, um álbum de família a que tivemos a sorte de ter acesso e que Gusti, pai e ilustrador, teve a coragem de fazer e partilhar. Gusti teve a coragem de dizer sim, com muito não no reverso.
Hesito em dizer que não é um livro para crianças, porque é um manual riquíssimo plasticamente. Uma lição, também a este nível. A quantidade de experiências gráficas, diferentes técnicas e abordagens à composição, deve ser proporcional ao número de pensamentos e sentimentos caóticos e contraditórios que teve no tempo de que fala neste diário gráfico. Soberbo.
Quando sabemos que estamos ainda tão longe de tantos sins fundamentais e em que óbvios nãos estão mesmo aqui à nossa porta, façamos uma cruz: não para riscar o que não interessa, mas para dizer sim às ideias que valem a pena desenhar.
A nossa história é imperfeita, mas é construída pelas linhas que cada um decide traçar; não por uma decisão de cara-ou-coroa, de uma moeda que, displicentemente, atiramos ao ar.
É que pode calhar sim — ou não — a coisas mesmo importantes.
................................................................................................
Orfeu mini, 2025
Elena Levi texto, Serge Bloch ilustração
isbn 9789899225343
Orfeu mini, 2025
Gusti
isbn 9789899225237














Sem comentários :
Enviar um comentário