O livro que escolhi para hoje vem festejar o nascimento de mais uma sobrinha. E de mais uma grande mulher no mundo.
Uma das primeiras fotografias que vi dela, mostra a força de um leão. Depois, quando a peguei ao colo, com apenas umas horas, senti-lhe a leveza, o frémito e a fragilidade própria dos começos.
Embora trema ao som da palavra "empoderamento", ando sempre em modo peneira fina, atenta aos pormenores intrincados na nossa maneira de viver e de pensar o quotidiano, entre sexos. Na nossa, na minha família de rapazes, em particular; enquanto professora, em geral.
Com os rapazes procuramos ensinar o cavalheirismo, ao mesmo tempo que repudiamos o paternalismo. É uma educação da sensibilidade: a mais bonita e a mais difícil. Mas com as raparigas tudo parece ainda mais complexo.
Foi porque tenho essa antena ligada que, quando comecei a ler este lindíssimo Viagens de comboio em primeira classe, me indignei:
o que estaria por trás da publicação de um livro, em 2026, cuja personagem feminina gasta todas as suas poupanças numa roupa e num bilhete para uma viagem de comboio durante um ano, sem fazer mais nada do que procurar marido?? Avancei.
É um álbum imensamente requintado, apesar da guerra. As ilustrações levam-nos para trás no tempo, a composição faz-nos entrar num filme: trágico, triste, romântico, frame a frame.
A narração começa lânguida, instala-se, sofre um supetão e depois acompanha o deslizar nos carris, ora mais lento ora mais rápido, num movimento que acompanha o passar do ano em viagem e as suas paragens.
A história desenrola-se durante a guerra, uma guerra. Clementina tem uma vida protegida, confortável e com o futuro garantido. Num ápice, tudo resvala para um lugar de miséria, solidão e ausência de futuro.
Mas há, nesta forte personagem feminina, uma determinação que vem da inabalável força vital, que vai muito para além do instinto de sobrevivência, que temos inscrito no nosso DNA.
Numa decisão drástica, esta heroína de vestido cor (e cheiro) de hortelã e capelina parte à aventura em busca de uma nova vida: escolhida por si, mas muito diferente do que a que julgou ir à procura no início da viagem.
Tal como Clementina, as meninas-mulheres deste mundo têm muito caminho a percorrer. Muitas vezes o percurso é o mesmo de há gerações, no mesmo comboio da feminilidade, da maternidade, da intuição, da delicadeza, da complexidade.
A chave do árduo caminho para a equidade, talvez esteja em trocar um elegante vestido de seda cor de hortelã, pela sarja azul da farda de maquinista e percorrer o mesmo caminho de há milénios, mas reinventado por cada uma, à sua maneira. Com a elegância e leveza da seda verde e a força e resistência da sarja azul.
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Orfeu Negro, 2025
Dani Torrent
isbn 9789899225244















































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