Passamos o tempo apressados e à espera.
0
Parece um contra-senso, mas o que é certo é que andamos sempre a correr atrás do tempo, ao mesmo tempo que parece que estamos sempre à espera de alguma coisa.
Há muitos livros muito bons sobre o receio que temos do desconhecido, do outro, do diferente.
Os pequenos têm muitas vezes medo do escuro e dos maus. E esperam vezes demais pelos adultos, que têm o seu tempo sempre muito mal amanhado.
No livro que hoje trago à prateleira, não há um muro no meio do livro, como aqui ou aqui. Não há disputas ou competição, como aqui ou aqui.
Nesta adaptação do poema de Konstantinos Kaváfis, de 1904, percebemos que o mundo não mudou muito.
Acompanhamos um líder de uma nação valente e imortal que aguarda a chegada de um bando de bárbaros.
Nunca ninguém os viu, mas são isto, aquilo e aqueloutro.
A cidade é murada, bem protegida, não vá o diabo tecê-las, porque nunca ninguém os viu, pero que las hay, las hay.
A cidade é linda, os céus estão cor de rosa, as montanhas com neve azul, as bandeiras amarelas. Mas ninguém parece ver isso: ninguém pensa em mais nada, faz mais nada senão desesperar e esperar pelo ataque iminente.
Uma trabalheira, uma canseira, uma chateação.
Grandes canhões, pequenas espadas. Muita espera, pouca esperança.
Há guerras no mundo e muitos dias parece não haver muito mais do que isso.
Mas o que fazer com isso?
Após um momento de pânico com o vazio de inimigos, com a falta de combate, a intuição da comunidade é certeira: parar e saborear. Não menos do que um perfeito dejeuner sur l'herbe, porque não?
Não sabemos por quanto tempo, mas sabemos que temos tempo. E que aquilo porque devemos mesmo esperar — como quem tem esperança — talvez seja outra coisa.
......................................................
Olivier Tallec
Nuvem de letras, 2026
isbn 9789895895946
























































