É muito bonito que em Portugal, o dia do Livro seja mesmo antes do dia da Liberdade. Em Portugal o "una rosa y un libro" é quase um cravo e um livro. É sintomático que aconteçam bem no início da primavera, quando tudo começa a rebentar.
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Gosto que estejam juntos porque os livros representam, conquistam e inspiram liberdade.
Este O poder do povo conta 14 histórias de protestos que mudaram o mundo.
As imagens de Ximo Aabadia, o ilustrador, têm elas próprias o poder, o sangue e a força das revoluções. Têm as cores, a vibração e a energia que se vai acumulando e que um dia estoura.
As texturas, camadas e jogos de escala fazem jus aos diferentes lados que normalmente se confrontam num protesto. Dão-nos a ver as diferenças e as semelhanças, o passado e o futuro, as subtilezas que tantas vezes passam desapercebidas no calor do momento.
É um livro cheio de gente, cheio da força do coletivo, cheio de histórias do passado e de esperança no futuro.
Um livro de histórias e de história, para não deixar esquecer, para ensinar a ter atenção. Um livro de memórias.
Descendo a Avenida, cantando uma canção ou fazendo um brinde à Liberdade, amanhã é dia de lembrar, porque a memória é curta.
No dia 20 de maio de 1974, Sophia escreveu este poema, que aqui deixo hoje, para memória futura, para acompanhar este livro que deixo hoje de fora da prateleira, para não esquecer.
Nesta Hora
Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda
Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo
Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exílio
E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade
Meia verdade é como habitar meio quarto
Ganhar meio salário
Como só ter direito
A metade da vida
O demagogo diz da verdade a metade
E o resto joga com habilidade
Porque pensa que o povo só pensa metade
Porque pensa que o povo não percebe nem sabe
A verdade não é uma especialidade
Para especializados clérigos letrados
Não basta gritar povo é preciso expor
Partir do olhar da mão e da razão
Partir da limpidez do elementar
Como quem parte do sol do mar do ar
Como quem parte da terra onde os homens estão
Para construir o canto do terrestre
— Sob o ausente olhar silente de atenção —
Para construir a festa do terrestre
Na nudez de alegria que nos veste
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Lilliput, 2025
Rebecca June texto, Ximo Abadía ilustração
isbn 97989895896820





















































