A lua é uma bola mágica, encantadora e sedutora. É nova e muito antiga e, diz-se, mentirosa. É enigmática e, sendo inalcansável, tem essa característica magnética que nos faz querer tocá-la.
A vontade de chegar à lua está impressa na genética humana.
A lua é protagonista de histórias icónicas, como o Papá, apanha-me a lua, do Eric Carle ou A que sabe a lua?, do Michael Grejniec — e percebe-se porquê.
Hoje junto esse clássico das infâncias cá de casa a um livro acabadinho de sair do forno, agora que o outono finalmente começou.
Em A que sabe a lua? os animais empilham-se uns nos outros, quais Músicos de Bremen, com o “Objetivo: lua”, neste caso.
Não sei quantas vezes li esta fábula, em que se mistura a união faz a força, o papel de cada um é importante e a força da persistência, com a arte de não haver à vista qualquer intenção pedagógica. Lembro-me do tom com que acabava de a ler a frase que realmente fecha a história, imediatamente antes da coda cómica. E lembro-me das caras serenas dos três, no fim. Porque é uma aventura que, estranhamente, sossega e embala o sono.
Já o Hoje Sou Eu Que Apago a Lua carrega uma história (mais) realista; ao contrário dos animais, o menino nunca chega à lua, tem os pés bem assentes na terra.
É uma história que, partindo de um poema, nunca nos deixa levantar os pés do chão, sair da realidade. "Em casa de menino de rua, o último a dormir apaga a lua" é um verso de Giovani Baffô que a Manuela via grafitado num muro da estação de comboios de Santos, em Lisboa, e que deixou crescer até tomar corpo nesta história.
Ao lê-la lembrei-me também dos meninos perdidos do Peter Pan: os eternos meninos da rua. E são tantos. Olhar para números é sempre muito abstrato. Dizem que 150 milhões de crianças vivem na rua. Fui investigar e o número (que é uma estimativa) é o mesmo há décadas. Não melhora.
O Luka é um deles. Luka não tem o pai disponível para lhe ir buscar uma escada, como a Mónica do Papá, apanha-me a lua, nem faz parte de um fraterno grupo de animais que se interajudam para chegar à lua, como o ratinho do A que sabe a lua?.
Luka nem sequer sonha (não sabemos se o Luka sonha) chegar à lua, só precisa de a apagar para poder dormir. Não é propriamente um problema não ter casa, é só uma questão de iluminação. É só durante a tentativa de resolução dessa questão que surge um problema — ou antes, um passarinho.
É que Luka, não parece inquieto por não ter casa, não estranha o pai chegar tarde ou sair cedo, não fala da barriga a dar horas. Mas apoquenta-se com os problemas do passarinho: o problema da habitação, a falta dos pais, a fome.
Sendo uma história dura, tem um final feliz ou, espera-se, uma feliz continuação. Por entre os cartões em que dormem (que a Maria corta e cola) e os sprays dos grafites que os rodeiam na rua (que a Maria espalha como milhões de estrelas), pai e filho têm finalmente uma casa.
A Maria, que conta esta história, por imagens, de uma forma despretensiosa como uma criança e sábia como uma anciã, juntando a delicadeza e a sabedoria de ambas, usa a tesoura para, em vez de os trancar ou cortar as pernas, lhe dar asas.
É com certeza uma coisa prática, para ensinarem, por imitação, o passarinho a voar.
Mas tenho cá para mim que é agora, que tem o seu próprio poleiro, que o Luka vai ganhar asas e conquistar a lua.
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Kalandraka, 2003

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