Fazer 51 anos é entrar numa espécie de "Ano 1": depois dos festejos do meio século, do inevitável balanço, do cómico assinalar do meio-da-vida (eu acho mesmo que vou durar até aos 100 e às vezes isso cansa-me muito), este ano cheira a recomeço.
É difícil, mas mesmo possível, mudarmos comportamentos recorrentes, alterarmos reações costumeiras, desviarmo-nos do impulso automático. E fazermos por segurar as rédeas da nossa história, depois de lhe tomarmos o pulso. Caímos, muitas vezes, mas a coisa vai lá.
Hoje trago aqui três livros, em vez de um ou de um par, como de costume. Perdoem-me o excesso, mas, por vezes, mais é mesmo melhor. E estes três livros são tão bonitos, tão bons, tão importantes e combinam tão bem, que compor hoje um trio foi irresistível.
Gosto particularmente de incluir neste grupo de exímia qualidade nas ilustrações, Pirilampo, do nosso mago Gonçalo Viana. O contraste da sua linguagem, paleta e composição com os outros dois livros é como o metal, num trio de jazz. Os outros dois são piano e contrabaixo.
Gosto de incluir um livro pouco falado da editora Bruaá, a nossa pequena e resistente editora, que faz coisas novíssimas e reinventa coisas antigas. Este Martim Miguel Benjamim Gentil é um destes últimos, resgatado aos anos 80 da minha infância.
E porque sou fã incondicional da Raquel Catalina e é sempre bonito homenagear a maioridade, o terceiro livro desta trilogia é o vencedor do ano passado do 18º Prémio Internacional Compostela, organizado pela Kalandraka. Chama-se Grande e pequena e lembra-me o futuro.
Poderia chamar a este trio Memória&Imaginação, mas já dei esse título a um outro postal. Por isso, para este balanço anual, optei por atribuir um instrumento a cada um destes livros, qual compositora.
Possa eu ser esta menina-mulher de óculos vermelhos, esta Dona Ju e esta Natália, grande e pequena, nova e velha, caseira e artista. Possa a imaginação valer-me, quando me falhar a memória. Possa ter uma criança por perto, quando precisar de me lembrar. Possa ser "uma vozinha feminina" que guie, proteja, inspire alguém.
À minha volta tenho grandes exemplos de como se envelhece com sabedoria. Só se estiver muito distraída é que não aprenderei bem com eles.
Em Pirilampo, numa espécie de livro-caleidoscópio, mergulhamos na história da vida de alguém que viveu com a intensidade das cores que inundam o livro. Esta mulher guardou a imaginação num frasco (eu guardo num as memórias e procuro dar asas à imaginação) e com um grão esquecido de fora do frasco desenhou a sua vida, até se começar a esquecer dela.
Martim Miguel Benjamim Gentil é uma criança feliz, porque faz feliz os outros e faz perguntas também. Com quatro nomes, a sua melhor amiga do lar vizinho que visita é, claro, a senhora que, como ele, quatro nomes tem. Tem muitos nomes e pouca memória, de modo que, depois de inquirir meio mundo sobre o que é tal coisa, Martim resgata a memória da Dona Ju, através da sua — dele e dela — imaginação.
Natália viveu uma vida plena, depois de se mudar do campo para a cidade. Mas há um momento na vida em que o campo parece rimar melhor com certos corpos, com certos ritmos, com certas escalas, com certas ambições, talvez. De modo que, na mesma medida em que a cidade cresceu, Natália encolheu. De regresso à casa da sua infância, no bosque, Natália descobre-se a diminuir cada vez mais. Até à invisibilidade, até ao esquecimento. Até que se perpetua pelas mãos de um desconhecido, de um protegido, de um renascido, de um estranho (mas merecedor) herdeiro.

Vejo (ainda que pequenos) sinais de esperança no modo como brotam do pântano-presente alguns nenúfares, numa procura de vagar, de atenção, de travão ao normal (mas exponencial) aceleramento, superficialidade e boçalidade dos nossos tempos. Vejo (ainda que ínfimos) sinais de regresso ao respeito pelos mais velhos, pela sua sabedoria, pelo valor da sua história.
Pode ser que estes nenúfares durem mais do que três dias e abram ao sol sem se fecharem ao entardecer.
Para eu poder ter a honra de envelhecer.
Desculpem a rima.
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Orfeu Negro, 2026
Gonçalo Viana
isbn 9789899225268
Bruaá, 2025
Mem Fox texto, Julie Vivas ilustração
isbn 9789898166562
Kalandraka, 2025
Arianna Squilloni texto, Raquel Catalina ilustração
isbn 9789897492037











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