Tenho duas manchas na pele. Uma parece a ilha da Madeira. Desde miúda que gosto dela. Tenho outra que não vejo e de que não gosto. Não me lembro de a ter em miúda. Simplesmente apareceu, sem que tivesse dado conta. E os outros viram-na antes de mim, como parte de mim. Na verdade não lhe ligo nenhuma.
Um mancha é sempre um sinal. Pode ser de uma grande alegria ou de qualquer coisa trágica.
Cada pessoa carrega em si uma mancha de qualquer tipo. Seja na pele ou na alma, que é um outro tipo de pele.
Somos feitos de vazio e de cheio, de alegria e de tristeza, de esperança e de medo.
Somos contradições ambulantes. E as manchas são sinais de alerta.
Os livros que aqui trago hoje têm ambos manchas: uma mancha na cara de uma menina, de quem não sabemos o nome, mas cuja mancha tem o nome de Tita. Nunca sabemos o nome da menina, porque a mancha a determina — e por isso é ela quem tem direito a um nome.
A outra mancha é um enorme borrão de lodo que Beatrice Alemagna inventou para contracenar com a Yuki, uma outra menina com mau feitio e um irmão distante e silencioso.
A dona da Tita tem uma relação frágil com a sua mancha, porque, embora até goste dela (à sua volta sempre a ensinaram que era um coisa preciosa) agora vai para a escola e tem receio de que todos olhem para a sua mancha sem a verem realmente.

Yuki, como consequência de um gesto impetuoso, desce a um lugar onde impera Sua Alteza, a Princesa do Lodo. Neste lugar entre o fantástico e o grotesco, Yuki aprende que a fúria e a mesquinhez se alimentam facilmente.
Mas, na sua aventura, percebe também que todos já passámos por esse lugar subterrâneo e turvo que vem com a raiva que alimentamos e se entranha por entre os cabelos e debaixo das unhas, como lodo.

Numa reviravolta literal — porque fica de pernas para o ar nas barras do recreio, — a menina da mancha rosa chamada Tita, enfrenta a potencial deceção, o potencial nojo, o potencial medo do diferente da nova amiga. Mas em vez disso ganha uma nova vida, uma vida extra, como as dos gatos ou as dos jogos.
Yuki é resgatada pelo seu silencioso irmão, não sem antes abraçar a Princesa, que depois de ter crescido incomensuravelmente alimentada pela sua fúria, se encolhe agora até ser apenas um raminho no lodo. E a menina consegue, finalmente, ligar-se ao seu irmão que antes já lhe carregava a mochila, mas que, ao mesmo tempo, a fazia pesar toneladas.
As duas histórias acabam com a redentora água do banho: Yuki acaba o livro de banho tomado, calma e liberta das manchas pesadas que a arrastavam para o fundo.
A menina da mancha rosa não se livra dela, mas percebe que é exatamente por isso que é especial.
...........................................................................
Fábula, 2026
Hyewon Yum
isbn 9789895895465
Orfeu Negro, 2026
Beatrice Alemagna
isbn 9789899225404










Sem comentários :
Enviar um comentário