Não há nada de metafórico na história da Páscoa nem no fulgor da Primavera. Tudo é explícito, cru, intenso, novo.
Ao mesmo tempo, Páscoa e Primavera são a essência da palavra metáfora, (que vem do grego metá+férein) no sentido em que são transferências, passagens de um lado para outro.
O meu sobrinho E (10) ensinou-me que o Domingo de Páscoa se marca sempre no primeiro domingo depois da primeira lua cheia após o equinócio da primavera. Tal como o Natal está sobre a festa da Luz, também a Páscoa segue os ciclos da natureza e assenta sobre a festa da Fertilidade, seguindo a terra, a lua, o movimento em que vivemos.
Tal como nos três dias da Páscoa, a força da vida e da morte entra-nos agora pelos olhos a dentro, especialmente no campo, onde as árvores, os pássaros e as flores, mostram o que valem, depois de um duro inverno.
No caminho, milhares de árvores ainda caídas, arrancadas pela raíz, galhos pendurados em fios elétricos, como inusitados mobiles.
À chegada, tudo é cheiro e cor, tudo é forte: frio e calor, sombra e luz, fogo e sol.
O vento que nos acrescenta flores à sopa, o pólen nos livros que deixamos sobre as pedras, as árvores que nos lembram o Japão.
Ter mais um bebé na família, nesta altura, é muito mais do que uma metáfora: é uma evidência da força do ciclo da vida. Aqui, na quinta, os seus sons e gestos confundem-se com os dos pássaros e dos gatos, no modo como arrulha e se espreguiça, na maneira como chora ou olha, cheia de espanto.
Para este fim‑de‑semana pascal trago Metáfora - 24 imágenes de la historia de la filosofía. Uma seleção de vinte e quatro filósofos, que, ao longo de muitos séculos e por toda a terra, fizeram perguntas, procuraram explicações e intuíram respostas. Sobre a vida e sobre a morte, sobre a nossa existência e o seu sentido. Sobre a maneira de nos relacionarmos connosco próprios, com os outros, com o mundo. Sobre o que sabemos, o que queremos saber, como aprendemos e porque erramos.
Muitos deles pegaram em imagens como forma de partilhar este conhecimento. E, porque aprendemos com todo o corpo, como os bebés, e porque aprendemos por imagens e com histórias, como as crianças, os filósofos apropriaram-se da metáfora e da alegoria.
Neste lindíssimo álbum, cada filósofo tem direito a uma página com o seu nome e um símbolo que sintetiza e representa a imagem que usou, uma explicação da metáfora, uma contextualização histórico-filosófica, uma citação. E uma pintura.
Parece estranho que um livro que funciona numa sucessão de fichas, organizadas cronologicamente, com pequenos símbolos gráficos para ajudar a organizar o pensamento, recorra ainda a uma outra camada gráfica tão diferente e tão poética: a pintura.
Mas, pensando bem, tem toda a lógica que assim seja. No lado esquerdo do livro, como num cérebro, organiza-se a investigação racional, a argumentação lógica, a análise crítica e o colocar de questões. Do lado direito, no outro hemisfério, espalha-se a tinta, a poesia, a pintura.
E é neste encontro das duas páginas que se dá o amor à sabedoria.
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Zahorí, 2024
Pedro Alcaide e Merlin Alcaide texto, Guim Tió pinturas
isbn 97884198891171











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