Dois livros sobre o tempo. Ou talvez não exatamente sobre o tempo, mas sobre a disponibilidade. Um palavra não tão bonita e romântica quanto tempo, mas tão essencial quanto ele.
Numa das definições do dicionário, disponibilidade é sinónimo de tempo não ocupado. Diria mais que é tempo pronto a ser ocupado — ou desocupado.
Em Hoje não posso ninguém tem disponibilidade para dar a atenção mínima a uma amiga. Todos têm o tempo tomado. O titulo é curto e lacónico.
Quem é esta gente ocupada, com tudo e com nada, deixando passar o essencial. Para quem foi feito este livro?
Talvez estas personagens não sejam crianças, talvez este nem seja um livro infantil. Talvez sejam adultos disfarçados de crianças, ou vice-versa. Mas, talvez, nestes tempos de pós-verdade, os adultos aprendam subliminarmente enquanto lêem esta história aos mais novos, porque "dizem" que ler uma história é uma coisa importante "a fazer". Menos mau.
Em Nuvens sobre nossas cabeças, areia sob nossos pés, só dois irmãos restam na praia. As nuvens deixaram cair uns pingos, e todos se foram embora. Mais fica. O título perdeu os artigos na travessia do português do Brasil e é gigante, como as sombras compridas que se estendem na areia, nos dias em que nos esquecemos de ir para casa.
Com o espaço e o tempo todo para eles, a praia é um universo inteiro de possibilidades e de tesouros muito concretos. Um lugar onde convivem magia e biologia.
Rochas são pedras, pedras são pérolas, pérolas são nuvens. O mar levanta-se como um tapete, porque os miúdos na praia estão em casa. Uma nuvem aterra na areia como um Graf Zeppelin dos anos 2000: o luxo dos luxos é poder estar com a cabeça nas nuvens.
Quem é esta mãe que deixa os filhos brincarem na praia, ainda que chova? Para quem foi feito este livro?
Oliver Jeffers faz um livro-lição sobre a atenção que devemos dar aos outros e o ridículo em que tantas vezes caímos. Nós, os adultos. Um livro com cores de gomas, para adoçar o amargo de boca que pode ser enfiar a carapuça destes personagens de nomes raros, mas atitudes terrivelmente comuns.
Até um cão invisível, metáfora das "grandes" (pre)ocupações dos adultos, come de facto o bolo da festa. Ora pois.
Henrique Coser Moreira dispõe-se a usar apenas um lápis de carvão para nos mostrar as aventuras destas duas crianças. Talvez as cores não sejam necessárias: o dia está cinzento, é certo, mas as cores estão lá todas, nos olhos das crianças, no lugar encantado e encantador que é um areal vazio.
Ainda agora chegou a primavera, mas talvez seja este o tempo da praia, o tempo da cabeça nas nuvens, o tempo de olharmos para os outros — em vez de nos preocuparmos com o cão invisível que vai acabar por nos comer o bolo da festa.
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Orfeu Negro, 2025
Oliver Jeffers
isbn 9799899225299
Planeta Tangerina, 2026
Henrique Coser Moreira
isbn 9789899061347












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