Muitas vezes, depois da perplexidade, somos assaltados pela fúria ou pela neura, pela raiva ou pelo tédio, pela impaciência ou pela desistência. E há tanto com que ficar perplexo à nossa volta, que, com toda a certeza, havemos de cair numa ou noutra coisa.
De qualquer maneira, há que saber dar a volta ao assunto, pelo que o os livros que juntei hoje, são pequenas histórias de quase nada, mas que abordam precisamente e com precisão estas questões.
Em O grande Grrrrr, a irritação sobe ao somar a chuva à espera. Ninguém gosta de esperar — e quem é que ainda aguenta esta chuva?? Por isso ninguém estranha que o Grrrrr se passe, em proporções épicas.
Grrrrr é expressivo, esquemático e sem grandes nuances, cinzentão. Nesta história, o nome "rosa-choque" ganha todo o seu significado, no confronto entre o monocromático Grrrrr e a chocante velhinha rosa.
Em O dia mais chato, o mundo começa por pintar, construído por uma frágil e fina linha preta.
Neste mundo, "Eu" veste-se de cores frias e, por baixo do seu capuz, duvidamos se é rapaz ou rapariga. Parece andar na infantil, ao mesmo tempo que se comporta como um adolescente. Há muitos nomes à sua volta, mas não sabemos como se chama. É"Eu" para poder ser cada um de nós.
Eu está entediado, desanimado, letárgico, neurótico. Nada parece interessá-lo, entusiasmá-lo, movê-lo. Eu arrasta-se.
Em ambos os livros a personagem passa mal durante umas boas páginas até que alguma coisa provoca a mudança. Uma pequena coisa.
Em O grande Grrrrr, o mundo é cor-de-rosa e choca com os seus graus de cinza. Nunca se misturam, mas a fúria cinzenta desvanece com a chegada da desarmante velhinha.
Em O dia mais chato, a cor vai aparecendo apenas naquilo que é minimamente interessante. Até que, um quase-nada, um pequeno movimento sem grande intenção, provoca mudança — do mundo a preto-e-branco-areia para o mundo a cores, do tédio para a descoberta, da solidão para a comunidade. Do estar vivo para o viver.
Seja com um vibrante rosa-choque ou com uma paleta de cores mais suaves, o mundo é um livro de colorir pronto para ser pintado (dentro ou fora das bordas), mas sempre para construir, ao gosto de cada um.
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Orfeu Negro, 2025
Marie-Sabine Roger texto, Marjolaine Leray ilustração
isbn 9789899225114
Planeta Tangerina, 2025
Maria Nogueira Nössing
isbn 9789899061309
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