3.4.19

vivíssima flatline

Tenho um fraquinho especial pelos silent books, os livros sem texto, os só imagem, aqui na prateleira.

Quando penso neste Horizonte julgo sempre que é um deles. Acho até que funcionaria sem o texto que dá de facto leituras mais precisas e, mais importante, a leitura única e particular de quem criou este Horizonte.

Aprender (e ensinar...) perspetiva tem o que se lhe diga, mas quando se percebe a lição do horizonte, tudo parece alinhar-se e encaixar.

E o ponto de fuga — que primeiro é só um ponto de interrogação — transforma-se rapidamente num ponto de exclamação.

Não sei se é defeito de formação, mas este livro parece-me muitíssimo arquitetónico pelas perspetivas em que vai mostrando o mundo.

Ao longo de todo o livro corre uma linha (que vem da capa, das guardas), uma espécie de linha da vida que acompanha o horizonte mais ou menos discretamente, mais ou menos ininterruptamente:

pavimento, ponte, sopé, moldura, cintura, caixilho, beira-mar, beira-rio, texto(!), muro, guarda, carril, rede, caminho, cumeeira, azulejo.

Parece-me uma espécie de linha da vida que, embora seja a direito, nada tem de flatline dos monitores cardíacos. Ao contrário: é vivíssima!

Na última página um abraço interrompe — ou faz abrir? — a linha. E fica a pergunta.

Temos ideia de horizontes vastíssimos na natureza.

Mas, sim, Carolina, também acho que o horizonte mais vasto, especial, espacial e único é aquele que temos dentro de cada um de nós.
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Horizonte
Orfeu Mini, 2018
Carolina Celas
isbn 9789898868190



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