2.6.16

Os irmãos

Há livros que já não compraria ao R, os que os irmãos têm são mais do que suficientes. E também não compraria para mim, (porque alguns são mesmo para mim, como toda a gente já percebeu...). Mas não resisto a uma boa pechincha!

Falava com uma amiga sobre a capacidade de resistência e sobre o "ter olho" em feiras. Estas minhas capacidades são muito semelhantes às que revelo num museu: adoro ir, encontro coisas magníficas, mas não aguento muito tempo. Fico exausta, em feiras e em museus.
Na Feira do Livro explicaram-me que os primeiros dias são mais a distribuir catálogos do que a vender: há pessoas que vão primeiro ver o que há e que depois, com calma, escolhem o quê e o quando, para aproveitarem tudo o que podem, até os Livros do Dia.

Eu não sei quem inventou o mês de maio, que é absolutamente ridículo na quantidade de eventos, por isso uma ida à Feira é tudo o que espero. Mais é utopia.
Dei conta quando cá apareceram os Nicos, (o Oliver Jeffers é o Oliver Jeffers), mas este Os Nicos veio connosco da Feira porque era uma pechincha irresistível. Agora queremos mais.
E, porque sei que o Oliver foi pai há pouco tempo, depreendo que a história dos Nicos venha mais da sua experiência como irmão do que como pai. Porque os irmãos, como os Nicos, até são parecidos e em geral dão-se bem, só que às vezes há confusão.

O meu irmão tem mais seis anos que eu por isso não me lembro nem de discussões nem brigas. Era, é, o meu mano velho. Enquanto mãe, assisto a uma esquizofrenia coletiva, bastante calma, ainda assim, em que a risota à mesa pode acontecer imediatamente após uma discussão em que ninguém tem paciência para aturar ninguém. Dum extremo ao outro, em menos de um segundo.

É uma riqueza imensa, essa, a de se poderem zangar a sério, para no minuto seguinte estarem a contar ao outro a jogada do jogo de futebol da Playmobil, com pormenores requintados de relato e câmara lenta incluídos, e ele mostrar um interesse genuíno do tamanho do mundo. Porque afinal o que é que interessa a zanga? Aliás, porque é que aconteceu a zanga?

No seu livro Longe não sabia, o Tolentino tem um verso muito bonito em que diz
por isso vos digo
não deixeis o vosso grande amor
refém dos mal-entendidos
do mundo 

Os mal-entendidos do mundo rebentam com muitas amizades e muitos amores, mas não vejo grande perigo disso acontecer entre irmãos.

Há qualquer coisa que é maior do que tudo (chamem-lhe sangue, se quiserem, embora haja irmãos à séria que não são de sangue) que faz com que tudo regresse sempre a um lugar fortíssimo, de confiança absoluta, mesmo quando são (somos) tão diferentes e vêem (vemos) as coisas de maneiras diferentes.
A Discussão dos Nicos não é totalmente clara, parece ser sobre um tipo de animal alado, talvez;

mas o interesse sobre uma mosca morta, partilhado em igual medida, no final do livro, explica bem o grau de gravidade da Discussão

e o grau de interesse que os irmãos partilham por coisas por vezes aparentemente insignificantes e por vezes estranhas para todas as outras pessoas. Uma espécie de private world — como em private joke — que os faz um por todos e todos por um.

Enquanto esperavam na banca das Paulinas na Feira do Livro, durante uma hora, que acabasse o nosso "expediente de autógrafos" (foi expediente e não enchente!...), os três irmãos leram o que entretanto escolheram e o que puderam entretanto por ali apanhar.
O R, à falta de quem lhe (re)lesse a história, virou-se para trás e perguntou, com ar entendido, segurando este enorme Nicos nas mãos: Aqui diz "calma"?

E não é que dizia mesmo?
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Os Nicos em Não Fui Eu
Orfeu Mini, 2015
Oliver Jeffers
isbn 9789898327505

2 comentários :

  1. Se eu soubesse... não vi na agenda da Feira, e só fomos lá ao final da tarde de Domingo!

    Entre outros, levamos O dia em que os lápis desistiram - que era livro do dia e já foi lido duas vezes - e o Hoje Sinto-me, que também estava no tal cantinho das pechinchas irresistíveis, despertou grande interesse e resultou em muitas listas. Depois, fomos ouvir uma conversa sobre cozinha vegetariana e saudável; mal acabou, a C. pediu farturas...

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    1. Olá Paola, belíssimas escolhas! E aqui funcionamos com cozinha vegetariana e saudável e a comer uma fartura na Feira; é a combinação perfeita!
      Encontrei mais duas pechinchas na Palmo a Palmo, mesmo cá em baixo à direita de quem sobe: Leonardo, o monstro terrível e Um milhão de borboletas.

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