18.4.18

livro-gargalhada

Adoro um bom livro-gargalhada, até porque é muitas vezes a rir que resolvemos os monstros que nos atormentam. O humor — e especialmente a auto-ironia — é uma coisa que se aprende e que ajuda a dissolver problemas muitas vezes construídos por nós próprios.

"Rir é o melhor remédio" é uma máxima bem disposta e, mais que isso, eficiente.

Andamos rodeados de janelas virtuais, por isso o livro é hoje, mais do que nunca, uma janela de carne e osso.
Através das histórias, encontramos sentido para aquilo que é difícil perceber em nós ou no mundo. E para um miúdo, isto é ainda mais verdade, porque um dedo em riste ou uma palavrosa explicação serve de pouco quando comparado com o poder de uma história.

Os medos assaltam os miúdos em várias fases do crescimento. Depois trespassam-nos também enquanto adultos, mas espera-se que aí tenhamos já ferramentas para lidar com eles.
Nas crianças os medos vão-se alterando e, por aqui têm sido muito poucos. Mas ainda assim, se muitas vezes nos surpreendem pelo seu timing, outras vezes sabemos exatamente porque apareceram.

Só quando cheguei da viagem a Madrid é que li o Colossus livro à luz desta perspetiva. Quando o comprei achei-o delicioso, simples, certeiro — e de gargalhada!

Colossus  é um livro-gargalhada. Um daqueles livro em que vamos passando as páginas suspensos à espera do desfecho. E a gargalhada é o desfecho! Gargalhadas — ou pelo menos sorrisos no cantinho da boca — foi o que tive de cada vez que li o livro a miúdos e graúdos na nossa viagem por terras de nuestros hermanos.

Colossus é um gigante, poderosíssimo, fortíssimo, indestrutível. Como os monstros, como os medos. Mas — grande lição — até os monstros, até os medos colossais, têm o seu ponto fraco, têm uma maneira de lhes darmos a volta. O livro vai enumerando e ilustrando as capacidades sobre-humanas deste ser alaranjado, sem rosto. Não tem um ar particularmente assustador, mas potencialmente os seus poderes são colossais!

A gargalhada que damos no fim dum livro, pode ser o caminho para ridicularizar um problema gigante, um medo paralisante, um monstro que não sabemos dominar.

E a verdade é que a mini-menina que adormece Colossus no final do livro, pode ser qualquer um de nós a dar cabo do que nos atormenta, apenas com um toque cirúrgico no sítio certo.

E é mesmo bom quando temos um bom livro para nos ajudar a descobrir esse toque de magia!

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Colossus
Tres Tigres Tristes, 2018
Raúl Nieto Guridi
isbn 9788494730450



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31.3.18

Está tão crescida

Já deixei dentes abandonados debaixo das almofadas, aqui confesso, sem que o magnífico Raton Perez os viesse buscar durante a noite, para grande espanto de matinais bocas escancaradas, desdentadas e desoladas. Mas nunca tinha deixado passar o aniversário desta prateleira!...

A prateleira fez 9 anos dia 22 e está muito crescida!

Tenho estado a desenhar mil planos que nascem todos desta ideia de pensar os livros, de os ligar à vida, de os escolher a dedo e de fazer miúdos apaixonarem-se por ler.

Pode ser que seja este ano que algum deles ganha vida, como há nove anos nasceu um blog, como há um ano o pacote™ começou a correr mundo — as inscrições para o trimestre da primavera estão a decorrer!

Os livros que tenho para aqui mostrar são cada vez mais e melhores. As editoras e autores portugueses são um orgulho — e ainda não foi este ano que fui passar férias a Bolonha, mas quem sabe um dia!...
 
Nada melhor para comemorar o aniversário da prateleira-de-baixo do que uma novidade 100% portuguesa e, como não podia deixar de ser, há um livro perfeito para o fazer.

Estás tão crescida é o último da Pato Lógico, criado por António Jorge Gonçalves, que nos dá mais uma lição de simplicidade no desenho em 46 páginas, incluindo guardas. A menina, a que tinha perdido a cabeça, cresceu cresceu, cresceu!

Bem, quem me conhece sabe que sou MESMO pequena, mas há dias em que me sinto esta menina mais crescida do mundo! É que, tal como ela trouxe a lua para a terra para que não mais fizesse escuro cá em baixo, tenho o privilégio de poder levar livros lindos a casa de miúdos especiais. Os relatos que recebo da alegria que é receber o pacote™ ou o sucesso que certo livro fez naquela casa, naquela altura, naquela família, enchem-me as medidas.

Gosto cada vez mais desta ligação dos livros à vida. E não faz mal que os miúdos cá de casa estejam a crescer, crescer, crescer. Continuam grandes leitores e lêem com gosto tudo o que entra para a prateleira-de-baixo cá de casa, seja ou não (grande questão) para a sua idade.

Esta menina, qual Ícaro, meteu-se com o sol e a coisa ficou preta — literalmente.
"Mas tudo está bem quando acaba bem" e lá se deu a volta ao problema.

Chamem-me sentimental ou pirosa, mas hoje vou mesmo por as minhas mãos sobre as mãos da menina mais crescida do mundo e imaginar estes ramos a crescerem, crescerem, crescerem, transportando livros, imagens e histórias maravilhosas para as prateleiras-de-baixo deste mundo.

Obrigada por estarem aí!
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Estás tão crescida
Pato Lógico, 2018
António Jorge Gonçalves
isbn 9789899965898


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28.3.18

O grande concerto do quotidiano

Quando era muito pequeno, o R aprendeu o nome de todos os instrumentos duma orquestra, porque a minha mãe tinha um poster com imagens e todos os dias lhe ensinava mais um.

Quem já teve mais do que um filho sabe que há esta idade em que decoram tudo, mesmo o que parece impossível para um bebé que mal fala: instrumentos musicais, jogadores do Benfica, marcas de carros, bandeiras, enfim, há gostos e cabeça que chegue para tudo.

Mas não foi com ele, o mais novo, que vi primeiro esta Orquestra.

Tento organizar os livros por faixa etária aqui no site e quando os envio nos pacotes tenho em atenção a idade da criança inscrita. Mas muitas vezes apetece-me provocar com um livro supostamente mais avançado para o que a idade pede ou, ainda mais difícil, um livro supostamente mais infantil do que a criança.

Num dos dias em que chega tarde dos treinos para jantar e os irmãos já dormem, joguei com o B à Orquestra como se tivéssemos os dois 5 anos. E funciona, garanto: fuçangas, ambos, lá fomos descobrindo cada um dos músicos furagidos em férias, como estamos nós agora neste campo magnífico.

Em família, um dos jogos que fazemos à mesa (pois, pois, não se brinca à mesa), é tentarmos adivinhar o cantor da música que está a dar.

Agora temos finalmente o vinil a funcionar e gozamos novamente o prazer daquele som quente que sobe pelas paredes, mas ao jantar a música da mini-coluna chega-nos em modo aleatório e isso sim é um desafio.

Desafio é também para os mais pequenos localizar estes músicos-Wally pelas cidades do mundo. (E que orgulho termos o Porto entre as escolhidas!) Alguns deles dão pistas no postal que escrevem ao maestro que os procura pelo mundo e uns estão bem escondidos, outros só bem disfarçados!

E depois de os conseguirmos localizar, podemos divertir-nos a ler os comentários do passarinho e encontrar "cenas macacas" nestas ilustrações carregadas de pormenores e humor.

Tal como os músicos iremos aproveitar bem estes dias para ler, jogar, ouvir música e passear para depois regressar em grande para o grande concerto do quotidiano que — lutamos por isso —

é a maior obra de arte!
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A orquestra
Planeta tangerina, 2018
Chloé Perarnau
isbn 9789898145857



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14.3.18

Dança entre poeira cósmica

Miúda, estranhei ver sempre o mesmo livro, durante largos meses, na mesa de cabeceira do meu pai. O meu pai lê à velocidade da luz e não percebia como era possível que demorasse tanto tempo com aquele livro. Era o Em busca do tempo perdido, de Proust, e portanto não um livro mas sete, nove milhões de caracteres, cerca de milhão e meio de palavras, segundo o Guiness. O maior livro alguma vez escrito. Só muito mais velha decifrei o enigma.

Outro livro que me lembro muito bem de estar ali por cima da mesa nos famosos anos 80, é o Uma breve história do tempo de Stephen Hawking. Lembro-me de perguntar ao meu pai quem era aquele homem na fotografia do livro de capa escura e lembro-me que a explicação me deixou inquieta. Não era para menos.

E hoje não podia deixar de fazer a minha homenagem a Stephen Hawking, à lição de vida que nos deixa, talvez até maior que a lição de ciências. E faço-o com um livro, claro.

Por aqui vão entrando livros para a prateleira-um-bocadinho-menos-de-baixo de que não falo tanto. Este já foi várias vezes relido pelo mais velho e é perfeito para tirar hoje da prateleira.

A história é fascinante e real: tudo começa pela inquietação de dois homens sobre um ruído na antena que tinham construído e de que não conseguiam explicar a origem.

Bem, na verdade não é aqui que começa: começa com o Génesis e passa rapidamente para 1939, quando um desses homens, então menino de 6 anos, judeu, é posto num comboio na Alemanha, sozinho com o irmão, a caminho de Inglaterra.

Um ano depois a família reuniu-se em Nova Iorque. E então, sim, há novamente possibilidade da história poder continuar. O livro conta como a resposta à grande pergunta da humanidade foi sendo dada ao longo de tantos anos por tantos homens que foram encontrando pequenas partes dela. Uma pequena história do mundo.

Cosmicomix é uma novela gráfica onde a propósito desta inquietação dos dois radioastrónomos, Arno Penzias (o tal menino de 6 anos) e Robert Wilson, se conta a história de como se chegou a uma primeira resposta à grande questão humana

— como e quando nasceu o Universo? — na teoria do Big Bang. Mas a grande questão humana também é porquê — porque é que nasceu o Universo?



Bem, Hawking era ateu e não acreditava nem em Deus, nem na possibilidade de vida depois da morte.

Mas acima desta chuva toda, tenho a certeza de que anda por ali a viajar no espaço-tempo, entre poeira cósmica, com o corpo finalmente livre para dançar à velocidade da sua cabeça.
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Cosmicomix — A descoberta do Big Bang
Gradiva, 2015
Amadeo Balbi texto, Rossano Piccioni ilustrações
isbn 9789896166595
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7.3.18

A Montanha-Russa de Teodoro

Um destes dias reli o Quando Teodoro encolheu, que tinha desenterrado da prateleira para obrigar o R alternar com os Ásterix — está um verdadeiro fanático e repete "Por Júpiter!" sempre que pode — e percebi que nunca o tinha posto nesta prateleira.

Cá por casa já todos leram o Teodoro mais do que uma vez.
Às vezes fico doida com a mania que têm de reler livros, quando podem pegar num que nunca leram. Mas, do mais novo ao mais velho, todos gostam de reler os favoritos.
Acalmei quanto a isso quando, num artigo recente, li que "se para os adultos reler é uma indulgência, para as crianças é uma necessidade". E lembrei-me do tempo em que tínhamos de reler o mesmo livro vezes sem conta e de como isso ajuda mesmo a crescer.

Desta vez, a história de Teodoro pareceu-me ser sobre a adolescência. Provavelmente estava já influenciada pelo evento do fim-de-semana: vou ao D. Maria II com o mais velho ver a Montanha-Russa, de Inês Barahona&Miguel Fragata.

Sou totalmente fã desta dupla e não espero menos que excelente do espetáculo sobre a adolescência que andam há tanto tempo a desenhar. "Do bosque para o mundo" e "A caminhada dos elefantes" são espetáculos que (de vez em quando repõem e) se não viram, não devem mesmo voltar a perder.

A inquietação pelas transformações por que passa o corpo do pequeno Teodoro, a dificuldade de comunicação entre ele e os pais, o desajuste das preocupações dos adultos — mais centrados nas convenções do que no drama que o miúdo atravessa, sem tempo para realmente olhar para ele, a passagem dos 0 aos 100 km/h da preocupação sensata à total indiferença, o esforço na relação com alguns pares, tudo me parece ser um belíssimo retrato dum adolescente no mundo.

As ilustrações magníficas e requintadas de Edward Gorey, o "Tim Burton do seu tempo", como o chamou Maria Popova, sublinham a áurea negra desta história insólita em que, num belo dia, Teodoro acordou mais pequeno e durante vários dias continuou a encolher perante a preocupação indiferente dos pais.

(A cara verde na contracapa não é um erro de impressão, e mais não digo sobre o final desta história insólita.)

Se fazer coisas de qualidade para crianças tem o que se lhe diga, para adolescentes a questão cresce exponencialmente. Afinal, eles são as criaturas mais críticas à face do planeta.

Veremos o que diz aquele que anda na Montanha-Russa cá em casa da soirée de sexta. É que ele está tudo menos a encolher!
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Quando Teodoro encolheu
Livros Horizonte, 2011 (1ª edição 1971)
Florence Parry Heide texto, Edward Gorey ilustrações
isbn 9789722417525
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