28.7.17

gente nua

Já por aqui andamos — não nus!, mas descalços e maltrapilhos, no meio do verde do chão, do cinza da pedra e do azul do céu. E de livros, sempre.
Durante o dia há leituras deliciosas que variam entre o minorca R a ler ao ainda mais minorca E, ou ambos a ouvirem a tia N a ler uma história, enquanto o E aprende a tirar as fraldas.
Os mais velhos lêem tudo o que encontram no caos do que há-de-vir-a-ser-a-biblioteca e à noite, depois do Mysterium que durou toda a semana, divido um livro com o R, entre bocejos.

Também se fala muito sobre livros: os que já lemos ou que estamos a ler, os que encontrámos na arrumação da biblioteca e dos que vamos ler. Já nos rimos muito à mesa a falar do Leonardo e ainda mais quando o T e o B opinaram, com ar entendido, sobre para que idade consideravam aconselhável O livro sem bonecos!... As saudades foram tantas que o R o foi buscar e o veio ler para a mesa, onde os adultos se demoram sempre à conversa, ao fresco.

Quando, ainda em Lisboa, o R regressava da praia exausto, passámos algum tempo no tapete a ler e a aprender com este livro. Passávamos as páginas, para a frente e para trás até que ele dizia que já estava cansado e, no dia seguinte continuávamos mais um pouco.

Veio no saco para lhe voltarmos a pegar, mas a azáfama de primos tem sido tanta que este livro de estudo tem ficado para o lado.

Nele se abordam questões tão diferentes como a existência ou não de moldura nas pinturas, se há um lado certo para observar um quadro, porque é que há pinturas desfocadas, porque é que há tanta gente nua, o porquê das paisagens e do silêncio nos museus e até a velha mas sempre atual deixa do até-a-minha-irmãzinha-era-capaz-de-fazer-aquilo!

Para a semana estaremos mais sozinhos e regressaremos às perguntas&respostas deste livro divertido e bem documentado, que procura mostrar e fazer pensar: introduz conceitos e mostra obras fundamentais, à medida que torna tudo leve como um jogo, onde somos convidados a saltitar de página em página, para a frente e para trás, para aprender coisas novas, para repensarmos o modo como vemos as coisas ou até concluir coisas opostas àquilo que tínhamos como certo.

As férias são boas para isto mesmo. E é por isso que estes postais cessam agora e até setembro.

O verão é mesmo um tempo para se andar nu, despidos de tralhas que vamos acumulando. E desligar o computador deixa espaço para para aprender coisas novas, para repensarmos o modo como vemos as coisas ou até concluir coisas opostas àquilo que tínhamos como certo.

Certo será o pacote™ de outono que, a pedido de várias famílias que também desligaram computadores, volta a abrir inscrições entre 1 e 8 de setembro, quando regressa a vontade de voltar a preparar o ninho.

Depois lá seguirão livros entre setembro e novembro, para quem os quiser apanhar.
Até já e bom verão!
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Porque tem a arte tanta gente nua?
Bizâncio, 2017
Susie Hodge texto, Claire Goble ilustrações
isbn 9789725305911

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18.7.17

Sport Billy avant la lettre

Há livros que ficam connosco toda a vida. Há livros que queremos um dia reler. Há livros que temos medo de reler, por terem sido tão importantes e a segunda leitura poder fazer esmorecer o impacto que tiveram em nós.

Uns destes, ando a guardar para a velhice; outros vou guardando para o verão, que é também um tempo que passa mais devagar e mais depressa ao mesmo tempo.
Tenho vários assim. O som e a fúria, de William Faulkner é um destes livros.
E foi por isso que fiquei encantada quando percebi que existia um conto infantil deste autor e que, ainda por cima, estava traduzido e editado por cá.

Já está na pilha dos livros para levar de férias para eles. Os mais velhos vão lê-lo sozinhos; ao R e ao primo S  (e tenho a certeza que haverá mais primos a colarem-se), vou propor ler-lhes todos os dias um bocadinho, à noite, na praia.

A praia tem destas coisas: à noite o cansaço é tanto que a leitura noturna fica quase impossível, pelo que, no estágio de junho, adotámos a hora da leitura depois do almoço para os que já não fazem sesta. Isto dá não só sossego à casa para os que ainda — e sempre! — precisam de sesta, ao mesmo tempo que oferece um tempo de leitura aos que à noite têm todo o peso das ondas e da areia sobre as pálpebras.

A aventura dA Árvore dos desejos tem uma história por trás da história que é bonita de se saber;

a história propriamente dita é a aventura duma menina que acorda no seu dia de anos e dá de caras com uma personagem tipo Sport Billy avant la lettre, que tira objetos dum saco e as transforma em seres com vida e/ou objetos de tamanho real, que não caberiam à partida no saco.

 A busca pela verdadeira árvore dos desejos, as aventuras e desventuras fantásticas do grupo de miúdos e da criada (conjunto bem sulista e faulkenariano), o desenlace da história, o S.Francisco que aponta o que é realmente importante, são os ingredientes duma história que anda agora colada a mim, desde que tive a sorte de a ler.

Sem dúvida que irá nalguns pacotes™ de setembro — já se inscreveram?
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A árvore dos desejos
Ponto de fuga, 2017 (história escrita em 1927, 1ª edição 1964)
William Faulkner texto, Don Bolognese ilustrações
isbn 9789899975934
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6.7.17

Cá estamos, cá somos

Ao contrário do Lá fora, este li-o duma assentada só. E confesso que o vou reler, logo que saia de férias.

O B leu o capítulo sobre a adolescência — eu aconselhei-o — para tentar(mos) perceber a lógica das várias reações ilógicas que por aqui aparecem.

O T pegou nele ao serão (conquista de férias dos mais velhos, onde lemos os quatro enquanto o R lê os seus próprios sonhos) e tornou-se impossível ler, tantos eram os hiii, ohhh e os a sério?? que soltava enquanto lia. Pedia máquinas de calcular para tentar visualizar os números impossíveis dos nossos neurónios, fingia que chorava por não ter o cérebro totalmente "crescido"...

Sempre pensei que aparecesse um Cá dentro, claro, mas que fosse sobre o corpo ou sobre a casa, com sugestões de atividades. Ser sobre o cérebro é uma boa surpresa, de facto, porque o cérebro é de facto surpreendente. E também precisa de sugestões de atividades.

Um livro de peso, o Cá dentro é ao mesmo tempo muito solto e leve. Sem deixar de procurar ser científico e exato, o texto é duma sensibilidade imensa. O que os antigos achavam que comandava a vida era o coração; hoje sabemos que o motor máximo é afinal o cérebro, por isso não é de estranhar que no meio de tanta informação, o que fique do livro seja uma enorme sensação de beleza, porque se tratar afinal da história da vida, das emoções, das relações, do órgão que nos comanda a todos de maneiras tão ricas e diferentes.

Como mãe e educadora, encontrar algumas repostas científicas para coisas que tenho comprovado, é à vez reconfortante e surpreendente; como leitora — como eles são — ler o livro é absolutamente fascinante.

As ilustrações da Madalena, que economiza nas cores mas esbanja no arrojo e simplicidade, fazem brilhar o texto da Isabel/Mª Manuel e vice-versa.

A imensa delicadeza do livro é construída pela interligação do texto e da imagem e é muito bonito perceber como se pode ensinar transmitindo conhecimentos e educando sentimentos. Afinal o cérebro é mesmo o Coração, e há aqui vários lindíssimos.

Ao ler este interessante artigo, lembro-me outra vez de como ainda é parco o universo da não-ficção em português para miúdos e de como o livro certo na hora certa pode fazer (finalmente) nascer um leitor.

E de como tenho a certeza de que este livro vai apaixonar tantos miúdos — e graúdos.

Espero sinceramente que a Planeta Tangerina esteja agora a trabalhar num Em cima ou num Em baixo, sobre as estrelas ou sobre o subsolo! A vida não é a mesma depois de termos estes Guias de exploração que nos fazem entrar em nós e no mundo, de frente e de olhos bem abertos.

Estão abertas as inscrições para o pacote™ de outono e as primeiras 50 ficam automaticamente habilitadas a ganhar um exemplar deste livro. Vamos a isso?
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Cá dentro — guia para descobrir o cérebro
Planeta Tangerina, 2017
Isabel Minhós Martins, Maria Manuel Pedrosa texto, Madalena Matoso ilustrações
isbn 9789898145819

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30.6.17

A lupa de vidro vermelho

Inevitavelmente levo muitos livros aos meus alunos e inventamos trabalhos de desenho a partir deles. 
Há anos que repetimos o animalário em grande formato, todo feito a caneta de ponta fina preta, onde entre o hiper-realismo e o as brincadeiras de grafismo mais decorativo, dezenas de adolescentes passam semanas a fazer risquinhos e pontinhos em folhas enormes, chegando ao fim com um imenso orgulho do seu trabalho.

 E eu também.

Já fizemos Isto ou aquilo(s) muitíssimo engraçados e, este ano, resolvemos experimentar a técnica do papel translúcido vermelho, que apareceu nos últimos tempos em muitos livros, para camuflar o "nome do meio" de cada um: um sucesso.

Um desses livros é estA grande travessia dum pássaro até ao Outro Lado. Não, não é sobre a morte; é mesmo uma travessia, como a de tantos animais, todos os anos. Acompanhamos a sua viagem com uma lupa de vidro vermelho sobre os desenhos também (aparentemente) todos vermelhos, finíssimos.

Perante os nossos olhos, surgem novos mundos, novas histórias, grandes segredos — os desenhos azuis.
 
No final da viagem, Bico Vermelho, o pássaro, conta a história da sua grande aventura às outras aves, renitentes em acreditar no que ele viu.

O livro é uma espécie de poema ilustrado, com uma leitura daquilo que vemos e outra daquilo que não vemos, sem a lupa.

Às vezes é preciso olhar com mais atenção para àquilo que está à nossa volta, mesmo ali debaixo dos nossos olhos, para vermos que sim — estavam mesmo lá coisas magníficas.

A questão é saber o que terá de ser, para nós, a lupa de vidro vermelho.
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A grande travessia
Edicare, 2015
Agathe Demois&Vincent Godeau
isbn 9789896793449

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23.6.17

Caderno de desenho

Miúdos quase todos em férias merecidas e tempo de balanço de mais um ano a ensinar (imaginem um risco em cima desta palavra) a desenhar.
A maioria das vezes sinto mesmo um traço em cima desta ação, mas há sempre momentos ou miúdos durante o ano que fazem valer a pena todos os traços por cima de tantas alturas difíceis neste ofício de ensinar.



Costumo tentar explicar-lhes — aos filhos e aos alunos — que toda a gente pode aprender a desenhar, que é como fazer o pino: uns fazem à primeira, outros precisam de alguém a segurar as pernas durante muito tempo, mas todos lá chegam.



Há muitas estratégias para ensinar a desenhar, mas todas acabam como acaba este livro, ou seja, no final o aluno tem que estar independente do professor: no fim têm de ser mesmo eles a continuar, a fazer, a desenhar, a querer.



Cá por casa desenhamos juntos, às vezes os 5, e é uma coisa que faz parte das nossas vidas com naturalidade porque foi sendo construída. Dos 3, só o R tem o prazer inato do desenho, que ultrapassa a característica de determinadas idades; o B e o T tiveram várias fases em que gostavam, mas nunca como o R e sempre com alguma hesitação, deceção, até. Hoje são confiantes e independentes no que fazem; usam a mão e a cabeça, que é tão importante no desenho como a mão. no outro dia nas dunas o T reconheceu um pintassilgo que tinha desenhado, reconhecendo também que só o tinha reconhecido porque o tinha desenhado. Desenhar é mesmo uma forma de aprender o mundo.


Outras lições engraçadas que o livro — e a vida — dá, é que os nossos desenhos muitas vezes ganham vida própria, que muitas vezes não são aquilo que inicialmente pensávamos e que até os métodos mais infalíveis falham.



Convencê-los de que são capazes, de que vale a pena tentar e que aquilo que fazem é bom, nem sempre é fácil: ou porque são perfeccionistas, ou porque são muito exigentes com eles próprios, ou porque nunca se ligam àquilo que constroem, ou porque por e simplesmente não querem tentar. Mais de metade do trabalho de ensinar desenho a adolescentes, é chegar a eles. E chegar a eles todos, que são muitos e muito diferentes e em tão pouco tempo.



Com os alunos temos de fazer um bocadinho como com os filhos e esperar. Ou ter esperança, porque, no caso dos alunos, muitas vezes não chegamos de facto a ver os frutos do nosso trabalho, e temos só de acreditar que eles acabam por nascer, ainda que longe da nossa vista.



E não desesperar porque de facto não é possível chegar a todos. Guardo cartas de antigos alunos e conversas com pais às quais regresso de vez em quando e que funcionam como choques de energia para aguentar a exaustão de muitos dias, de muitas lutas difíceis de travar, num terreno que tem ainda tantas faltas, que está ainda tão mal desenhado, mas onde temos de ir trabalhando o melhor que podemos.



Trabalhar com crianças tem este lado de cansaço físico (e não só) como não encontro em mais nenhum dos ofícios que tenho ou já tive, mas que se junta a esta responsabilidade e beleza de estar a trabalhar com a matéria-prima do futuro.
Este livro é muito branco e até as páginas da esquerda estão em branco, mesmo a pedi-las.



Não sei se lhe chame livro ou caderno de desenho. Não garanto que vá permanecer por aqui assim durante muito mais tempo...
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Como desenhar animais uma galinha
Bizâncio, 2017
Jean-Vincent Sénac
isbn 9789725305935


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