14.3.19

Mestre do politicamente incorreto

Maurice Sendak não é um caso fácil. O Onde vivem os monstros é dos livros mais conhecidos por esse mundo da literatura infantil contemporânea, mas dêem lá as voltas por onde derem, não é um livro fácil.

A birra é uma coisa difícil de gerir em qualquer idade, porque por mais que tentemos travá-la a partir do exterior, a coisa tem de se resolver no interior da criança — ou do bebé, ou do adolescente, ou do adulto, já agora. A ajuda exterior é importante, às vezes necessária, claro, mas o certo é que a maioria das vezes, a intervenção só adensa o problema, se não for no tempo certo. O tempo certo normalmente é a chave. De tanta coisa.

Dei de caras com uma história engraçada no NYT e pus as mãos na massa: afinal tenho dois adolescentes em casa e uns oitocentos e tal na escola. Vai ser útil, de certeza. Uma amiga passou-me uma versão mais a meu gosto que o pote de purpurinas e, com o R, fiz o nosso "Frasco da Fúria".

Os rapazes cá de casa arranjaram, de maneiras diferentes, mecanismos próprios para serenarem, é certo, e ainda não usei o Frasco. Mas já falei bem alto da ideia, do método e do tempo que o "Frasco da Fúria" traz dentro dele. Prefiro "Frasco da Fúria" a "Frasco da Calma": parece-me mais certeiro. E, sobre ainda não o ter usado, acredito que se falarmos de algumas coisas en passant antes delas acontecerem, há fortes hipóteses de que não cheguem a acontecer.

Nestes outros dois livros menos conhecidos da trilogia onírica do mestre Sendak, cada história é autónoma, mas ambas abordam as diferentes maneiras que temos de lidar com os sentimentos na infância e os medos que vamos processando nessa fase da vida.

O que está lá fora, de 1981, com ilustrações influenciadas pela viagem de Sendak à Alemanha, com o objetivo de estudar os contos dos irmãos Grimm, mostra uma espécie de sonho-pesadelo influenciado por duas experiências da infância de Sendak: a sua relação com a irmã mais velha e o rapto do bebé Lindbergh, que abalou a América, nos anos 30.
Na cozinha da noite, de 1970, tem as ilustrações organizadas à maneira de uma BD e mostram um menino (que até nu aparece — obviamente censurado à época da publicação) numa aventura noturna pela cidade.
É um sonho divertido que nasce também de várias experiências de Sendak enquanto menino, desde a descoberta de que a vida continua de noite, onde, por exemplo, os padeiros e pasteleiros trabalham enquanto as crianças dormem e surgem enquanto personagens que homenageiam Oliver Hardy do Bucha e Estica.

Nos três livros, a paleta de cores não difere muito; já as ilustrações, experimentam coisas muito  diferentes.
A grandeza de um ilustrador também se vê na sua capacidade de experimentar e de surpreender. É muito bom sinal poder reconhecer a autoria das ilustrações pelo estilo, mas é igualmente valioso, acho, ser totalmente surpreendido pela sua diversidade.

E foi por tudo isto — porque ninguém disse que a vida era fácil, porque as histórias ajudam à vida, porque enfrentar os medos, os sonhos e os pesadelos nos ajudam mesmo a crescer e porque o politicamente incorreto está fora de moda —, que desenhei um pacote™ especial Sendak que podem subscrever até ao final desta sexta-feira.
Não percam!
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Onde vivem os monstros
Kalandraka, 2009 (1ª edição 1963)
Maurice Sendak
isbn 9789898205315





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Na cozinha da noite
Kalandraka, 2014 (1ª edição 1970)
Maurice Sendak
isbn 9789897490149






 
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O que está lá fora
Kalandraka, 2015 (1ª edição 1981)
Maurice Sendak
isbn 9789897490255

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6.3.19

Lobo em pele de cordeiro

Depois de pôr as máscaras, chegou o tempo de as despirmos: do que nos prende, do que nos mata, do que nos faz medo.

Este é o lobo mau. Este é o lobo, a primeira encarnação do medo. Este é o lobo, pronto para nos vir devorar.

Chega rodeado de vermelho. Chega de olhos amarelos, enorme, a fitar-nos.

Na frase que surge depois de cada personagem, pressentimos qual foi o destino de cada uma delas.

A cada página, o lobo vai ficando mais pequeno. O que é estranho, já que — julgamos — anda a comer à fartazana todas as personagens das nossas histórias de encantar.

O meu sobrinho E diz que são os irmãos mais novos do lobo — que delícia. Na verdade o lobo vai ficando cada vez mais longe, cada vez menos ameaçador, como se fosse o seu próprio irmãozinho mais novo.

A primeira vez que o leu, o R disse que não o tinha percebido. Apareceu mesmo desconcertando na cozinha, o que não é normal, já que não gosta de mostrar parte fraca.

Fui lê-lo eu, para me desconcertar também. Que beleza: um livro para ler com muita atenção e que tem, aparentemente, tão poucas frases para ler.

Vemos os pormenores de cada personagem — algumas delas têm também parte de pele de lobo, reparem — e procuramos a história ou as histórias que lá andam escondidas.
Pena o livro não ser cosido... suponho que vá ser aberto uma e outra vez.

Um falso politicamente incorreto, este livro. Porque de facto é uma surpresa: este lobo mau afinal é só um lobo só. Todos passaram por ele com indiferença e não com medo. Passou de "este" para "aquele", com toda a distância que isso implica.

Só o menino, que aparece de pijama, como quem vai já-já sonhar, o chama para brincar. E que feliz fica este velho lobo solitário.

Uma belíssima história para começar este tempo de caminhada, para deitarmos fora as máscaras que usamos, mas também as que vestimos nos outros.
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Este é o lobo
The Poets and Dragons Society, 2019
Alexandre Rampazo
isbn 9789895405145
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27.2.19

Ela está mesmo aí

Não terá sido perfeito, nem tão pouco acabou, mas é verdade que o inverno já vai alto.

Hoje ponho aqui um livro que chega em cheio sobre esta primavera prematura e nos faz olhar com mais atenção para as árvores em flor, para os dias maiores, para o tempo que já passou.

E, consequentemente, nos faz pensar como deveria ter sido passado esse tempo.
Para uma hiperativa-criativa, (carapuça que enfio), os projetos são sempre demasiados, mas há sempre mais um a nascer.

À minha volta há outros animais, perdão, pessoas, que sabem viver a vida, sabiamente,  noutro compasso.

Há os que precisam de hibernar e os que imaginam mil projetos para montar. Como o texugo.

Esta fábula contemporânea, ao jeito das mais antigas, com protagonistas animais, é mais uma belíssima lição que nos dá a autora de uma outra de que aqui já falei: Estranhas criaturas.

O texugo projeta mil programas, mas os amigos estão todos a dormir, desligados, ferrados, offline. Procura em vão companhia para as aventuras e, no processo, descobre também o prazer da solidão.

Acaba por encontrar companheiros inusitados para o que acaba por ser um inverno magnífico. Só que na hora em que os amigos saem do seu sono reparador e estão prontos para começar a vida —...

As histórias com animais ajudam-nos a olhar mais facilmente para o nosso umbigo. E se eu, como disse, enfio a carapuça do texugo, parece-me que esta história pode ajudar muitos meninos a aceitarem ir dormir, o que — sabemos — não é fácil.

O sono da hibernação, o saber parar, descansar, estar sozinho, prepara-nos para a vida que anda aí à espera de ser agarrada. E ela está mesmo aí, ao virar da esquina, como a primavera.
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Um inverno perfeito
Orfeu mini, 2019
Cristina Sitja Rubio
isbn 9789898868411

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14.2.19

dalim-dalão

Dia de São Valentim, love is in the air.

Gosto de tradições. Tanto, que não sou nada contra a aquisição de novas. Festa é festa e todas as desculpas são boas para festejar, celebrar, assinalar. Talvez seja o pior dia do ano para ir jantar fora, mas não para escolher um livro — ou dois! — a propósito.

Para rimar com o espírito da época, ponho hoje aqui O pior aniversário da minha vida.
Não, não me enganei e também não faço anos.

A história de Benjamim Chaud, que nos traz novamente este miúdo cru, sem grandes papas na língua — como são as crianças —, está apaixonado, de beicinho, totalmente caído. É o mesmo miúdo dono do Peúgas, um coelho de estimação; outra história que ainda aqui não trouxe, mas onde a amizade e o modo como muitas vezes lidamos com ela em crianças(?) é tratada também sem grandes falinhas mansas.

Chaud tem o condão de se aproximar cheio de mestria dos sentimentos dos miúdos: com a crueza e delicadeza nas proporções exatas. As ilustrações estão à vista: uma espécie de Gorey a cores!

Júlia é a amada e faz anos.

O miúdo antecipa tudo, esforça-se ao máximo para que tudo seja esplêndido.
Cairá de muito alto, pensamos. É tão verdade, que até sobe a uma árvore.

Mas é também lá que encontra o seu amor — ou que o seu amor o encontra.

Este é um dos livros que escolhi para o Ciclo Do amor e do Frágil, lá no LUCA. Para miúdos, escrevi sobre ele que "nem sempre as coisas correm como esperamos. Principalmente, quando estivemos muito tempo a desejar alguma coisa. Principalmente, quando estamos apaixonados. E sentimo-nos ridículos, infelizes e muito sozinhos, com o coração destrambelhado, aos saltos, como um baloiço descontrolado.
Mas, quando voltamos a sentir o “coração, como um baloiço no peito” — dalim-dalão, dalim-dalão — até parece que ouvimos sinos e é tão bom!"

E não é mesmo?
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O pior aniversário da minha vida
Orfeu Mini, 2018
Benjamin Chaud
isbn  9789898868220
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8.2.19

Carne para canhão

As notícias desta semana a propósito da Venezuela e do maior prémio de literatura australiano entregue a um refugiado preso, trouxeram para as nossas conversas a palavra guerra, outra vez.
E, para cima da mesa, o livro A guerra.
Não é um livro fácil; como poderia ser?
É um livro bonito e duro. Triste. Cru e certeiro. Como as cores escolhidas para as suas páginas.

Nele, a maldade nunca tem um rosto. Aparece em forma de animais difíceis, botas que reconhecemos pelas piores razões, ombros largos e levantados — que são a imagem da prepotência.

Quando surge sob a forma de cabeça humana, o rosto também não aparece, sempre escondido atrás de um elmo ou de uma mancha, que torna todos iguais, carne para canhão.

Não é um livro só de imagens (um silent book daqueles que a Pato Lógico já nos habituou), mas até podia. Porque, com imagens destas, palavras para quê?

Palavras, sim, talvez para dar os nomes às coisas, para pôr nos ouvidos e nas bocas dos miúdos as palavras que não queremos deixar que aconteçam. Para que as decorem, para que as saibam recusar.

E também para que a frase final do livro, possa, enfim, deixar-nos respirar e que o silêncio se torne naquilo de que é sinal quando tudo está bem: paz.

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A guerra
Pato Lógico, 2018
José Jorge Letria texto, André Letria ilustrações
isbn 9789899965881

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