7.2.18

Ceci n'est pas une boîte ou Think out of the box

Pareço uma adolescente a pôr títulos em francês ou em inglês, para soar melhor, dizem eles.

Não é verdade, pois, mas aqui dá-me mesmo jeito invocar o mestre Magritte (já o fiz outras vezes) para sublinhar que

1. uma caixa não é mesmo (só) uma caixa;

2. pensar "fora da caixa" pode começar exatamente por pensar a partir duma caixa.

Naves espaciais, elmos para cavaleiros, espadas e escudos, vários robots — é o que me lembro de termos transformado caixas aqui por casa.

O brilho nos olhos deles quando depois dumas tesouradas, umas pinceladas e um bocado de cola, termos ficado com o brinquedo mais giro de sempre, tem um valor inversamente proporcional ao valor da caixa de cartão, que normalmente trago da rua, por alturas do Carnaval.

As possibilidades de máscara são infinitas.

Que o diga este coelhinho que pode ser pirata, marajá, robot, bombeiro ou alpinista só porque tem a sua não-caixa.

Um bom exercício de criatividade, diria eu: o que farás tu com esta caixa?

Claro que também serve como uma metáfora para a vida: cada um recebe uma caixa; e o que faz com ela?

É certo que as caixas não são todas iguais, mas há quem ponha mãos-à-obra e há quem fique a ver passar navios. Ou foguetões.

Então vamos ao trabalho, que, como dizia a sábia empregada de casa dos meus pais, "Esta vida são dois dias, e o Carnaval são três"!
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Não é uma caixa
Editorial Presença, 2010
Antoinette Portis
isbn 9789722343701
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24.1.18

Furar a greve

Às vezes ando às voltas aqui no site à procura de um livro para mandar o link a alguém que me pediu ajuda e não quero acreditar que nunca escrevi sobre aquele livro.

É inacreditável que a Greve tenha feito greve na prateleira-de-baixo.

E não passa de hoje que este livro brilhante, que já tem 7 anos, chegue a esta prateleira.

Catarina Sobral começou com Greve, o que é dizer muito. Começar logo com uma greve é querer marcar um ponto. E a Catarina marcou logo — e muitos!

Desde já porque o livro trata exatamente duma greve dos pontos. Sim, dos pontos: dos pontos que usamos na escrita, do ponto de fuga, dos pontos que levamos no médico quando partimos a cabeça, do ponto no teatro e do teleponto na televisão,
dos pontos de bordar, enfim, de tantos pontos que até os quadros pontilhistas deixam de figurar nas paredes dos museus (pelo menos como pontilhistas, porque podemos sempre passar a encará-los como suprematistas!...).

E o livro é isto: como seria o mundo sem pontos?

Um livro que não é de todo para os mais pequenos — quando o li aqui por casa foi nitidamente fora de tempo, porque estive a cada página a explicar o que era cada ponto e lá se ia todo o ritmo, lá se perdia todo o ponto (perdoem-me o anglicanismo) —, mas que é um gag muitíssimo inteligente, divertido, bem pensado, escrito e ilustrado. Ponto final.

Só que não; não é um ponto final, nem no livro, nem nos livros que e Catarina nos deu a seguir.

No livro, a última página desvela que, depois da greve dos pontos, as linhas estão a ponderar sair da linha. Bem, e tudo recomeça, potencialmente, desta vez com o papel principal atribuído à linha.

Nos livros, veio logo depois o Achimpa (mais outros sobre os quais escrevi e não escrevi, ainda, e aguardo com água na boca a animação). E mas mais não digo porque me palpita que ainda hei-de escrever sobre eles. Nem que seja daqui a 7 anos...
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Greve
Orfeu Mini, 2011
Catarina Sobral
isbn 9789898327123

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18.1.18

Reacionário ou revolucionário?

Por todo o lado há listas de resoluções de inicio de ano. Há muitos este-ano-é-que-vai-ser no ar, como é próprio da época e do modo circular em que a humanidade tende a funcionar.

No início do ano, todas as possibilidades estão em cima da mesa, tomam-se resoluções, fazem-se revoluções —?

Aqui, este amigo, olha para o seu quarto de sempre e percebe que se aborrece que tudo esteja sempre no mesmo sítio: a cama, o armário e a mesa. Decide mudar, porque é inconformista. As alterações têm consequências afinal não muito positivas e ele decide alterar a situação novamente. Desta vez de forma vanguardista. Mas isso também não funciona, porque o Homem é um animal de hábitos e tudo volta ao mesmo.

É nesta altura do livro que vem uma frase bombástica, que nos faz — ou devia fazer — tremer na cadeira: "Se, dentro de um determinado enquadramento, nenhuma mudança é possível, é necessário evitar completamente esse enquadramento." O português tem obviamente um ditado para isto: "Quem está mal, muda-se."

É então que decide fazer uma revolução. De aborrecido passa a inconformista, torna-se vanguardista e rapidamente se transforma num revolucionário.

Quando li este livro de pé na livraria, ri sozinha, como alguns maluquinhos. Achei-o divertidíssimo e incómodo. Depois achei-o triste. Depois resolvi trazê-lo para o sapatinho do R porque me pareceu um livro valioso. (E depois contactei a Alfaguara para se juntar aos parceiros do pacote™!)

Ontem dei-o a ler e sentei-me ao lado do R, a fazer de dicionário; o livro tem muitas palavras difíceis. Depois leu o T e logo a seguir o B.
O R ficou tão  fascinado com a ideia de dormir no armário, como com o desenho do esqueleto dentro do armário.

O T achou que a história iria seguir assim: ele dorme no armário, põe a roupa na mesa e come na cama.

O B achou muito divertido e não ficou nada incomodado, como eu, que tudo regressasse à estaca zero. Porque na verdade, nada ficou como antes. Porque agora ele sabe, por experiência própria, que afinal está tudo bem, mas que foi mesmo preciso passar por tudo aquilo antes.

Podemos ler esta história como o nascimento de um revolucionário ou a construção de um reacionário. A escolha é de cada um, como sempre. Se queremos ser revolucionários ou reacionários, se queremos tomar resoluções ou fazer revoluções.

Vamos a isso?
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A revolução
Alfaguara, 2017
texto Slawomir Mrozek, ilustrações Tiago Galo
isbn 9789896653354





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11.1.18

O meu bairro é o mundo

Ora aqui está um livro sem idade. Simples, direto, conciso, incisivo, certeiro e que põe o dedo na ferida — e mesmo bonito!

O Carlos Alberto é insatisfeito. E é certo que o mundo só progride com um certo grau de insatisfação. Ou desacomodação, se preferirem. É imperativo que passemos isso às gerações futuras, às crianças;

que é preciso querer mais e melhor, que devemos querer ver o mundo para o transformar (para melhor), que o trio dos pês — pouco, pequeno, possível — é muito útil para começar, que sim, cada um pode mudar uma pedra à sua escala e que juntos, podemos mover montanhas.

É um livro bom para abrir o ano: não esquecer de nos mantermos sempre inquietos, mas ao mesmo tempo lembrarmo-nos de ser agradecidos pelo que está à nossa volta e o que nos acontece. É que a galinha do vizinho é sempre melhor do que a minha, claro, mas a minha é maravilhosa.

E que este ano não estejamos distraídos a ponto de deixar a vida passar por nós e pelos nossos miúdos. A vida é uma aventura. Não sejamos Carlos Albertos.

Como diz na dedicatória no início do livro: ele é uma seca.
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Nunca se passa nada no meu bairro
Bruaá, 2017
Ellen Raskin
isbn 9789898166357
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29.12.17

contagem decrescente

Não vou fazer balanços do ano, ainda temos uns dias para isso.

Além disso, os vírus e a chuva não nos largam aqui no verde minho e só temos vontade de livros, jogos e filmes em loop.

Por isso hoje venho só mostrar mais uma novidade com barbas, perfeita para a contagem decrescente na entrada em 2018, para depois desligar as redes uns dias e saltar para o novo ano.

João gosta de sossego — e de ler! —, mas é interrompido por 1, 2, 3... 10 (chamemos-lhes) problemas, que lhe enfernizam o juízo. 

Mas João bate o pé e arranja solução. Os problemas não desaparecem sozinhos,

ah pois não,

mas às vezes a solução não é assim tão complicada, basta apenas decidirmos resolver o problema.

Uma boa máxima para o novo ano!

Que bom virem-nos parar às mãos, finalmente em português, pérolas como esta, com mais de meio século. Recheio magnífico para os pacotes™ que estou desejosa de recomeçar a preparar já em janeiro (subscrições até dia 07.01, agora com possibilidade de assinatura mensal, trimestral ou anual).

É que a magia das lengalengas é intemporal e borboleteia nas nossas cabeças de adultos como borbeletava quando éramos crianças.
 
E é tão bom.

Um belíssimo ano de 2018 para todos os que gostam da prateleira-de-baixo.

Continuem por aí, que eu também estarei por aqui!
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João e mais oito — um livro para contar
Maurice Sendak
Kalandralka, 2017 (1ª edição 1962)
isbn 9789897490828







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