14.2.19

dalim-dalão

Dia de São Valentim, love is in the air.

Gosto de tradições. Tanto, que não sou nada contra a aquisição de novas. Festa é festa e todas as desculpas são boas para festejar, celebrar, assinalar. Talvez seja o pior dia do ano para ir jantar fora, mas não para escolher um livro — ou dois! — a propósito.

Para rimar com o espírito da época, ponho hoje aqui O pior aniversário da minha vida.
Não, não me enganei e também não faço anos.

A história de Benjamim Chaud, que nos traz novamente este miúdo cru, sem grandes papas na língua — como são as crianças —, está apaixonado, de beicinho, totalmente caído. É o mesmo miúdo dono do Peúgas, um coelho de estimação; outra história que ainda aqui não trouxe, mas onde a amizade e o modo como muitas vezes lidamos com ela em crianças(?) é tratada também sem grandes falinhas mansas.

Chaud tem o condão de se aproximar cheio de mestria dos sentimentos dos miúdos: com a crueza e delicadeza nas proporções exatas. As ilustrações estão à vista: uma espécie de Gorey a cores!

Júlia é a amada e faz anos.

O miúdo antecipa tudo, esforça-se ao máximo para que tudo seja esplêndido.
Cairá de muito alto, pensamos. É tão verdade, que até sobe a uma árvore.

Mas é também lá que encontra o seu amor — ou que o seu amor o encontra.

Este é um dos livros que escolhi para o Ciclo Do amor e do Frágil, lá no LUCA. Para miúdos, escrevi sobre ele que "nem sempre as coisas correm como esperamos. Principalmente, quando estivemos muito tempo a desejar alguma coisa. Principalmente, quando estamos apaixonados. E sentimo-nos ridículos, infelizes e muito sozinhos, com o coração destrambelhado, aos saltos, como um baloiço descontrolado.
Mas, quando voltamos a sentir o “coração, como um baloiço no peito” — dalim-dalão, dalim-dalão — até parece que ouvimos sinos e é tão bom!"

E não é mesmo?
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O pior aniversário da minha vida
Orfeu Mini, 2018
Benjamin Chaud
isbn  9789898868220
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8.2.19

Carne para canhão

As notícias desta semana a propósito da Venezuela e do maior prémio de literatura australiano entregue a um refugiado preso, trouxeram para as nossas conversas a palavra guerra, outra vez.
E, para cima da mesa, o livro A guerra.
Não é um livro fácil; como poderia ser?
É um livro bonito e duro. Triste. Cru e certeiro. Como as cores escolhidas para as suas páginas.

Nele, a maldade nunca tem um rosto. Aparece em forma de animais difíceis, botas que reconhecemos pelas piores razões, ombros largos e levantados — que são a imagem da prepotência.

Quando surge sob a forma de cabeça humana, o rosto também não aparece, sempre escondido atrás de um elmo ou de uma mancha, que torna todos iguais, carne para canhão.

Não é um livro só de imagens (um silent book daqueles que a Pato Lógico já nos habituou), mas até podia. Porque, com imagens destas, palavras para quê?

Palavras, sim, talvez para dar os nomes às coisas, para pôr nos ouvidos e nas bocas dos miúdos as palavras que não queremos deixar que aconteçam. Para que as decorem, para que as saibam recusar.

E também para que a frase final do livro, possa, enfim, deixar-nos respirar e que o silêncio se torne naquilo de que é sinal quando tudo está bem: paz.

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A guerra
Pato Lógico, 2018
José Jorge Letria texto, André Letria ilustrações
isbn 9789899965881

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30.1.19

Só uns papéis rasgados

Por vezes não quero acreditar que livros óbvios não estão ainda nesta prateleira virtual. Vou à procura dos postais onde supostamente falei sobre eles e não existem, embora tenham sido lidos e relidos cá em casa.

Têm-me pedido para mostrar livros para mais pequenos. É verdade que à medida que os miúdos aqui de casa crescem, a minha tendência natural é também mostrar livros mais crescidos.

(A idade aconselhada para os livros é toda uma grande questão. Embora ponha o mesmo livro em várias idades, no site encontram etiquetas por idade, o que pode ajudar a encontrar pequenas obras-primas que fizeram as delícias dos meus miúdos.)

O que hoje aqui deixo é um clássico de sempre, que contei em loop vezes sem conta, das três alturas em que houve fraldas por aqui.

Também é um livro que uso muitas vezes com os meus alunos para mostrar como a nossa cabeça-cultura-coração-imaginação consegue tão facilmente completar uma história que, de imagens, tem uns papéis rasgados.


Recentemente escolhi-o para a prateleira Biblioteca do Público do LuCa, a propósito do ciclo sobre o Racismo. E na semana passada, numa belíssima sessão organizada pela Baobá sobre A representação da deficiência no livro infantil, voltei a lembrar-me dele.

Leo Leonni é um mestre. Uma espécie de Matisse dos álbuns ilustrados, dado ter sido pioneiro na utilização da colagem na ilustração para a infância.

Lembro-me de ter tido um trabalho de casa, em 1981, que era fazer o recorte de um gato de um papel de jornal. A minha mãe, que fazia os cadernos de escola mais invejados do bairro — sim, cortava as folhas, cosia-as e ilustrava a capa, o que fazia as delícias das minhas amigas (que acabavam por também receber  um!) — sugeriu-me que o recortasse à mão, sem tesoura.

Dizia que, assim, o papel do jornal rasgado ia parecer o pelo do gato. No alto dos meus seis anos achei um terror: ia ficar mal recortado!? A menina-eu de seis anos queria fazer direitinho, como as meninas querem normalmente. Mas, após alguma resistência, lá não-recortei o gato, que ficou, claro, muito engraçado.


Os papéis rasgados de Leonni são de uma enorme abstração e abertura: por serem formas coloridas não figurativas, representam só o suficiente para que a nossa imaginação faça o resto.

Ao mesmo tempo, se a personagem é um bocado de amarelo ou azul em vez de ser a imagem de um menino, azul ou amarelo, as possibilidades de história aumentam imensamente: há personagens que se desfazem (mesmo) a chorar, que mudam (mesmo) de cor,  cuja amizade é de tal maneira forte que um abraço as transforma. Mesmo.

Leo Leonni nasceu na Holanda (no meu dia de anos!), viveu nos EUA, em Itália e novamente nos EUA. Regressou a Itália aos 50 anos e foi nessa altura que começou a fazer livros infantis.
Diz-se que que ia desenhando à medida que contava histórias aos netos e que, um dia, numa longa viagem de comboio em que não tinha levado materiais de desenho, pegou numa revista e recortou um círculo amarelo e outro azul para o ajudar a contar a história que estava a imaginar.


Pequeno Azul e o Pequeno Amarelo é uma história de uma simplicidade acutilante e de uma beleza desarmante. Como são as crianças. É talvez por isso que nunca encontrei nenhuma que não se apaixonasse imediatamente por esta história mágica, sem princesas lilases, nem dragões feiosos.
É, ainda hoje, uma lição de ilustração, contenção e imaginação e a prova de que não é preciso muita palhaçada para chegar — chegar mesmo — aos miúdos.
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Pequeno Azul e Pequeno Amarelo
Kalandraka, 2010 [1ª edição 1959]
Leo Leonni
isbn 978972878153
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16.1.19

Neve escura

Na semana passada saiu um artigo no NYT sobre a descoberta de um novo tipo de branco. O branco perfeito, dizem.
Também na semana passada vi um documentário da BBC sobre o Branco na História da Arte, parte de uma triologia em que entram também o Azul e o Dourado.
Nos meses que passaram, tivemos acaloradas discussões sobre a temperatura dos brancos e dos cinzas das paredes da nossa casa nova.

A cor é um assunto sensível. Sensível mesmo, no sentido em que, está ligado a um dos cinco sentidos. Mas também porque, tal como nem toda a gente tem a mesma sensibilidade aos cheiros, por exemplo, também nem toda a gente consegue ver tonalidades de cinza, azul, violeta, creme, amarelo, num aparente só-branco.

Já esta semana, falava com o B sobre como mais facilmente usaremos a cor para descrever alguém de pele escura do que alguém que seja mais ou menos moreno ou mais ou menos loiro. É claro que as cores são característica distintivas, como as alturas, a gordura ou a cor dos olhos, mas fiquei a pensar se nesse primeiro instinto de referir a cor da pele negra mais rapidamente do que outros tons de pele (chamando por isso a raça à questão), poderiam existir laivos de reminiscência racistas.

A cor é um assunto sensível, dizia. E a cor de pele é um não-assunto que é um grande assunto, ainda. E o politicamente correto é muitas vezes tão inimigo de uma normalidade como o politicamente incorreto — no pior sentido do termo.

A propósito de uma recente curadoria no LU.CA para acompanhar o espetáculo Bianca e o Ciclo sobre o Racismo, um dos livros que escolhi foi o que hoje ponho aqui na prateleira.

Paralelamente procurei em vão um exemplar dO menino de cor e acabei por escolher para o acompanhar (além do Popville e do Bianca — que tinham diretamente a ver com o espetáculo) O Estranho, As mulheres e os Homens, Pequeno Azul e o Pequeno Amarelo, Elmer e O Homem de água. [Inacreditável ainda não ter escrito sobre os livros que estão sem link...]


"A neve é branca e Pedro é negro. Claro que não é negro-negro, como a neve não é branca-branca. Mas este é o primeiro menino de raça negra a aparecer num livro para crianças e foi publicado pela primeira vez há 56 anos, nos Estados Unidos da América. Se pensares bem, é mesmo estranho que, até aí, nenhuma criança de raça negra se tenha revisto num livro. É verdade que a cor da pele não é mesmo nada importante, mas também é verdade que, se todos somos diferentes, é muito estranho que os livros não tenham aventuras com personagens como todos nós."

Foi isto que escrevi para acompanhar o livro. Mas, antes de escrever, pensei no estranho que é este livro ter sido editado pela primeira vez em Portugal em 2018. Pensei se faria sentido ser tão importante historicamente, ainda, apenas pela cor de pele da personagem principal. Pensei na fama que esta personagem terá dado ao seu autor. Li sobre o assunto e hesitei ainda sobre o valor artístico da história e ilustrações, no contexto da época, fora a questão da cor da pele.

Depois pensei que mesmo mau era inventar problemas, pensar demais, pôr politicamente correto sobre politicamente correto e não dar a conhecer um livro realmente pioneiro e no qual tantos meninos — de tantas cores —se hão de rever e sonhar com a neve, que rareia por estas bandas.

Para além da sua importância sociológica, Um dia de neve é também, mesmo, um álbum graficamente vanguardista, cuja história infantil (no melhor dos sentidos) nos é contada como se viesse diretamente da boca de uma criança, com onomatopeias e tudo!

Não sei se uma criança, ao ler este livro, dará hoje conta da pele de Pedro. Cá em casa não deu para fazer a experiência porque lhes falei do contexto do livro. Mas acredito, quero creditar, que, com tantas personagens de tantas cores que por aí andam, a cor deste menino não seja para onde as crianças vão olhar.
Mesmo na última página, Pedro atravessa a rua para chamar um amigo e ir brincar com ele. Os dois estão de costas. Mas gosto de imaginar que, por de trás do recorte que desenha o fato de neve, o amigo tem a pele verde às pintinhas cor de laranja. Porque — o que é que isso interessa?
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Um dia de neve
Orfeu mini, 2018 (1ª edição de 1962)
Ezra Jack Keats
isbn 9789898868152
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9.1.19

Pousar um livro nas mãos

Comecemos o ano com um livro sobre livros. Porque já estamos no futuro e ler, que vem lá dos tempos antigos, ainda é uma belíssima coisa para fazer.
Estou plenamente convencida que as crianças que não gostam de ler, nunca tiveram nas mãos o livro certo para elas. Dislexias à parte (ou outras perturbações que causem cansaço), acredito mesmo que um livro certo pode ser o clique que falta para agarrar um miúdo à leitura. E tenho cá para mim que ler é um ótimo vício.

Com os meus miúdos continuo a usar a regra da BD durante o dia e ao fim-de-semana. Mas a verdade é que, à medida que vou lendo sobre o assunto e ouvindo várias opiniões, estou bastante mais flexível nas minha convicções sobre este assunto: embora continue a achar que uma boa BD não é o mesmo que um bom álbum ilustrado ou um romance, a verdade é que ler é ler.
E também é verdade que as coisas se contagiam, uma coisa leva a outra e, acho, o ato solitário de alguém que pega num livro, é em si um valor. Daí até outros voos é só uma questão de timing. Ou do livro certo.

Os meus rapazes lêem patinhas e Mafaldinha, Lucky Luke e Corto Maltese, Calvin e Charlie Brown. Mas também lêem do resto. Têm gostos diferentes, os três, e o R está ainda a descobrir o prazer de ler um livro grande com menos ilustrações.
Quando vejo que está mais cansado, em vez do pequeno romance com poucas ilustrações, levo-lhe um conjunto de álbuns ilustrados, mais pequenos, que lê de seguida. Ele, talvez mais que os outros, gosta e precisa (ainda?) muito da imagem.

Lucas, a personagem do livro que aqui ponho hoje, não quer ler BD, quer é voar, como já todos quisemos (ou queremos!) um dia. As asas que vai pedindo e recebendo são a fingir e Lucas não quer voar a fingir. Quer mesmo voar. Até que um dia a mãe "pousou-lhe um livro nas mãos".

Que frase magnífica.

Num tempo em que se apregoa com algum facilitismo a liberdade das crianças, em que os pais têm medo de estabelecer regras por quererem ser acima de tudo pais "fixes", esquecemos muitas vezes a beleza que pode ser educar. O apontar caminhos. O estabelecer regras, sim, porque é certo e sabido que dão segurança aos miúdos e, a seu tempo, os irão ajudar a serem responsáveis, fortes e autónomos. Felizes.

É a mãe que pousa o livro nas mãos de Lucas. É a mãe que lhe dá a conhecer o poder da leitura. É a mãe que lhe dá as asas para poder voar. E, reparem, não é por acaso que vemos a mãe a ler no jardim, distraída do pequeno Lucas que já acordou da sesta.

Depois de apanhar o bichinho da leitura, a aventura de Lucas segue para cima, numa montanha de livros em direção ao céu onde, inevitavelmente, acaba por voar. Voar mesmo.
Mas o poder do voo, esse veio pelas mãos da mãe, que lhe pousou o livro nas mãos. O livro certo. Depois outro, depois outro e depois outro.

Por tudo isto, não tenham medo de não ser "fixes" e de lhes dizerem que agora é o tempo de ler e não de TV ou de consolas ou de qualquer outra coisa que inventem para fazer naquela altura. Acreditem que a aventura de ler um livro leva a outras aventuras magníficas. Pousem-lhes um livro na mão. E depois outro e depois outro e depois outro.

Este será com certeza um dos livros que irei enviar nos pacotes deste ano. O trimestre de inverno já está online! Que me dizem de, como resolução de ano novo, em vez de perderem, ganharem um vício? Um bom vício!

Um bom ano!
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A montanha de livros mais alta do mundo
Jacarandá Editora, 2018
Rocio Bonilla
isbn 9789898895196

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