21.2.18

"É por estas e por outras que os lobos estão em extinção."

Quantas versões do Capuchinho vermelho terão sido escritas e reescritas? Há histórias assim imortais que permitem revisitações infinitas. Também porque há pessoas assim especiais que conseguem ter sempre um olhar novo sobre aquilo que tomamos por adquirido.
E, nesse processo, criar objetos assim geniais.

Um capuchinho vermelho é um desses pequenos-grandes livros que se lê dum trago e põe uma sala inteira a rir, dos 7 aos 67.
Já experimentei.

Interessante também foi a análise do B, 13, já tão consciente da "malícia de toda a mulher". É que achou a capuchinho-cara-de-pau (a miúda é mesmo só um pauzinho a sair do capuz!) tão esperta, que foi ao título encontrar uma justificação para defender a tese de que este capuchinho é afinal um capuchinho e não uma capuchinho. Perante as minhas apreciações mais literárias de que seria uma maneira de dizer que esta é apenas mais uma versão da eterna história, atalhou que, "Na verdade, só mesmo uma mulher para ter guardado um rebuçado envenenado".
Ele lá sabe.

E passou de imediato para o lado do lobo, com o apoio dos irmãos — "É que eu até gosto do lobo", "Eu também", "Coitado do lobo". E, num contra-ataque rematou: "É por estas e por outras que os lobos estão em extinção."
E pronto, a o mal voltou para o lado feminino.

Os mais novos acharam que o lobo só se tinha engasgado. É o que parece, de facto. Mas aquele "ingénuo" matador, na última página, escrito a vermelho, dito de frente para nós pela capuchinho, não deixa margem para dúvidas.
O lobo já era.

Ainda dei um raspanete ao T, 11, porque me disse que as ilustrações eram "assim-assim": miúdo, para fazer estes rabiscos é preciso saber desenhar muito!
Que talento.
 
A autora usa dois lápis: um de grafite e um vermelho para dar corpo e voz às duas personagens da história. O diálogo é o famoso para-que-tens-uns-olhos-tão-grandes e desde logo, pelo indignado "ei!" da miúda quando é apanhada, percebemos que este não é um capuchinho qualquer.
Que tremenda cara-de-pau.

Arriscaria a dizer que a sua estratégia está já perfeitamente delineada na página em que tem os braços atrás das costas. Como é que dois tracinhos podem dizer tanto?
Estás comido, lobo. Foste.

Um dia ouvi um académico desconstruir a história do Capuchinho Vermelho que vem lá do século XIV e foi imortalizada pelos suspeitos do costume, Perraut e Grimm: falou das interpretações que a lêem como uma história sobre a iniciação sexual ou sobre a puberdade ou sobre o desenvolvimento da mulher desde a meninice até à idade adulta.
A sério, há coisas que preferia não saber.

Por isso que bom reconciliar-me agora com ela, nesta versão minimal, feminista, sacudida, inteligente e tão, tão, tão cómica. O cérebro vence os músculos, sempre.
Viva.
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Um capuchinho vermelho
Orfeu Mini, 2018
Marjolaine Leray
isbn 9789898868145 
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7.2.18

Ceci n'est pas une boîte ou Think out of the box

Pareço uma adolescente a pôr títulos em francês ou em inglês, para soar melhor, dizem eles.

Não é verdade, pois, mas aqui dá-me mesmo jeito invocar o mestre Magritte (já o fiz outras vezes) para sublinhar que

1. uma caixa não é mesmo (só) uma caixa;

2. pensar "fora da caixa" pode começar exatamente por pensar a partir duma caixa.

Naves espaciais, elmos para cavaleiros, espadas e escudos, vários robots — é o que me lembro de termos transformado caixas aqui por casa.

O brilho nos olhos deles quando depois dumas tesouradas, umas pinceladas e um bocado de cola, termos ficado com o brinquedo mais giro de sempre, tem um valor inversamente proporcional ao valor da caixa de cartão, que normalmente trago da rua, por alturas do Carnaval.

As possibilidades de máscara são infinitas.

Que o diga este coelhinho que pode ser pirata, marajá, robot, bombeiro ou alpinista só porque tem a sua não-caixa.

Um bom exercício de criatividade, diria eu: o que farás tu com esta caixa?

Claro que também serve como uma metáfora para a vida: cada um recebe uma caixa; e o que faz com ela?

É certo que as caixas não são todas iguais, mas há quem ponha mãos-à-obra e há quem fique a ver passar navios. Ou foguetões.

Então vamos ao trabalho, que, como dizia a sábia empregada de casa dos meus pais, "Esta vida são dois dias, e o Carnaval são três"!
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Não é uma caixa
Editorial Presença, 2010
Antoinette Portis
isbn 9789722343701
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24.1.18

Furar a greve

Às vezes ando às voltas aqui no site à procura de um livro para mandar o link a alguém que me pediu ajuda e não quero acreditar que nunca escrevi sobre aquele livro.

É inacreditável que a Greve tenha feito greve na prateleira-de-baixo.

E não passa de hoje que este livro brilhante, que já tem 7 anos, chegue a esta prateleira.

Catarina Sobral começou com Greve, o que é dizer muito. Começar logo com uma greve é querer marcar um ponto. E a Catarina marcou logo — e muitos!

Desde já porque o livro trata exatamente duma greve dos pontos. Sim, dos pontos: dos pontos que usamos na escrita, do ponto de fuga, dos pontos que levamos no médico quando partimos a cabeça, do ponto no teatro e do teleponto na televisão,
dos pontos de bordar, enfim, de tantos pontos que até os quadros pontilhistas deixam de figurar nas paredes dos museus (pelo menos como pontilhistas, porque podemos sempre passar a encará-los como suprematistas!...).

E o livro é isto: como seria o mundo sem pontos?

Um livro que não é de todo para os mais pequenos — quando o li aqui por casa foi nitidamente fora de tempo, porque estive a cada página a explicar o que era cada ponto e lá se ia todo o ritmo, lá se perdia todo o ponto (perdoem-me o anglicanismo) —, mas que é um gag muitíssimo inteligente, divertido, bem pensado, escrito e ilustrado. Ponto final.

Só que não; não é um ponto final, nem no livro, nem nos livros que e Catarina nos deu a seguir.

No livro, a última página desvela que, depois da greve dos pontos, as linhas estão a ponderar sair da linha. Bem, e tudo recomeça, potencialmente, desta vez com o papel principal atribuído à linha.

Nos livros, veio logo depois o Achimpa (mais outros sobre os quais escrevi e não escrevi, ainda, e aguardo com água na boca a animação). E mas mais não digo porque me palpita que ainda hei-de escrever sobre eles. Nem que seja daqui a 7 anos...
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Greve
Orfeu Mini, 2011
Catarina Sobral
isbn 9789898327123

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18.1.18

Reacionário ou revolucionário?

Por todo o lado há listas de resoluções de inicio de ano. Há muitos este-ano-é-que-vai-ser no ar, como é próprio da época e do modo circular em que a humanidade tende a funcionar.

No início do ano, todas as possibilidades estão em cima da mesa, tomam-se resoluções, fazem-se revoluções —?

Aqui, este amigo, olha para o seu quarto de sempre e percebe que se aborrece que tudo esteja sempre no mesmo sítio: a cama, o armário e a mesa. Decide mudar, porque é inconformista. As alterações têm consequências afinal não muito positivas e ele decide alterar a situação novamente. Desta vez de forma vanguardista. Mas isso também não funciona, porque o Homem é um animal de hábitos e tudo volta ao mesmo.

É nesta altura do livro que vem uma frase bombástica, que nos faz — ou devia fazer — tremer na cadeira: "Se, dentro de um determinado enquadramento, nenhuma mudança é possível, é necessário evitar completamente esse enquadramento." O português tem obviamente um ditado para isto: "Quem está mal, muda-se."

É então que decide fazer uma revolução. De aborrecido passa a inconformista, torna-se vanguardista e rapidamente se transforma num revolucionário.

Quando li este livro de pé na livraria, ri sozinha, como alguns maluquinhos. Achei-o divertidíssimo e incómodo. Depois achei-o triste. Depois resolvi trazê-lo para o sapatinho do R porque me pareceu um livro valioso. (E depois contactei a Alfaguara para se juntar aos parceiros do pacote™!)

Ontem dei-o a ler e sentei-me ao lado do R, a fazer de dicionário; o livro tem muitas palavras difíceis. Depois leu o T e logo a seguir o B.
O R ficou tão  fascinado com a ideia de dormir no armário, como com o desenho do esqueleto dentro do armário.

O T achou que a história iria seguir assim: ele dorme no armário, põe a roupa na mesa e come na cama.

O B achou muito divertido e não ficou nada incomodado, como eu, que tudo regressasse à estaca zero. Porque na verdade, nada ficou como antes. Porque agora ele sabe, por experiência própria, que afinal está tudo bem, mas que foi mesmo preciso passar por tudo aquilo antes.

Podemos ler esta história como o nascimento de um revolucionário ou a construção de um reacionário. A escolha é de cada um, como sempre. Se queremos ser revolucionários ou reacionários, se queremos tomar resoluções ou fazer revoluções.

Vamos a isso?
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A revolução
Alfaguara, 2017
texto Slawomir Mrozek, ilustrações Tiago Galo
isbn 9789896653354





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11.1.18

O meu bairro é o mundo

Ora aqui está um livro sem idade. Simples, direto, conciso, incisivo, certeiro e que põe o dedo na ferida — e mesmo bonito!

O Carlos Alberto é insatisfeito. E é certo que o mundo só progride com um certo grau de insatisfação. Ou desacomodação, se preferirem. É imperativo que passemos isso às gerações futuras, às crianças;

que é preciso querer mais e melhor, que devemos querer ver o mundo para o transformar (para melhor), que o trio dos pês — pouco, pequeno, possível — é muito útil para começar, que sim, cada um pode mudar uma pedra à sua escala e que juntos, podemos mover montanhas.

É um livro bom para abrir o ano: não esquecer de nos mantermos sempre inquietos, mas ao mesmo tempo lembrarmo-nos de ser agradecidos pelo que está à nossa volta e o que nos acontece. É que a galinha do vizinho é sempre melhor do que a minha, claro, mas a minha é maravilhosa.

E que este ano não estejamos distraídos a ponto de deixar a vida passar por nós e pelos nossos miúdos. A vida é uma aventura. Não sejamos Carlos Albertos.

Como diz na dedicatória no início do livro: ele é uma seca.
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Nunca se passa nada no meu bairro
Bruaá, 2017
Ellen Raskin
isbn 9789898166357
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