13.7.18

Much ado about nothing

Os portugueses têm a mania de falar sobre o tempo. É uma espécie de quebra-gelo, passo a expressão, para iniciar cada conversa.
Ou que já não se pode com o frio, ou que o calor já não se aguenta, que parece que o verão não chega, que até no tempo somos agora oh tão europeus. Enfim.

Falava com uma amiga estrangeira que vive cá e que me dizia que na terra dela o tempo não era um pura e simplesmente um assunto. Este fenómeno meteorológico, digamos assim, é mesmo muito nosso.

É também por isso que acho tanta graça a esta A nuvem.

Vejo naquela populaça que admira a estranha nuvem (que se veio instalar sobre a região) como toda uma nação, Portugal inteiro, a vociferar contra o tempo.

Há os que desenvolvem teorias, os que analisam, os que desconfiam, os que imaginam, os que se zangam.

E a nuvem sempre lá.

A vida a desenrolar-se cá em baixo, e a nuvem por cima, imóvel, sempre lá.

Na minha falta de paciência, que vem com o cansaço nesta altura do ano, juro que me seguro para não dizer a cada pessoa que me fala do tempo que uma nuvem é só uma nuvem. Pronto. Até sou uma pessoa reivindicativa, mas contra o tempo valerá a pena falar? Gastar tanta energia?

Vejo este livro como um filme, uma curta-metragem, daquelas que nos faz sorrir no fim. Ou ficar desamparado, como aconteceu aos miúdos cá de casa.

Que aproveitem os dias, com ou sem nuvens, deste verão — é o que desejo a todos! — e que sejam cheios de histórias tão boas como esta,

feita de quase nada.
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A nuvem
Pato Lógico, 2018
Rita Canas Mendes texto, João Fazenda ilustração
isbn 9789899999855
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27.6.18

Ode aos reis dos mares

Chegou o verão.
Tinha aqui este livro guardado para o mostrar agora.

João é um livro de 1965. Eu ainda não tinha nascido em 1965 e não me lembro dos bois (que o meu pai e os meus tios ainda falam) a puxar as redes, mas lembro-me de ajudar (enfim, desajudar...) os pescadores a puxar as redes para a praia. Tinham ar de poucos amigos, ou assim achava eu, mas deixavam-nos meter entre eles enquanto trabalhavam e nem olhavam quando, felizes com os tesouros vindos do mar, enchíamos o balde com os peixes demasiado pequenos que vinham nas redes entre as sardinhas, os robalos, as douradas.
Isto era ali para os lados da Nazaré, onde se passa a história de João, escrita por um alemão que terá feito uma viagem a Portugal e que assim retratou estas gentes e os seus sonhos. A Kalandraka editou-a em português pela primeira vez no final do ano passado.

Lembro-me duma cena que fiz a propósito de uma sardinha mais que morta, mas que teimei com os meus primos que tínhamos de salvar e voltar a deitar ao mar. Chamaram-me de mariquinhas — e foi uma mariquice — a mim, a única miúda no meio de tanto rapaz. Chorei, pois, e lembro-me como se fosse hoje de sofrer pelo bicho de guelra ensanguentada. E a sardinha voltou ao mar, morta.
O barulho dos barcos, as cores dos barcos, o ranger dos remos, o cheiro a mar.

À noite comia a sardinha em cima da broa, claro, e nem me lembrava que poderia ter sido a mesma que tinha salvo. As crianças gerem assim estas coisas da morte. Junto ao muro que dividia a casa de praia que os meus pais alugavam da do vizinho, montava-se o banquete. A minha mãe, rainha do fogareiro, com o pano da loiça a fazer de coroa a embrulhar-lhe os caracóis e o meu pai e tios, ao desafio, a ver quem comia mais sardinhas. Nós, ali pelo andar de baixo mais rasteiros ao chão entre o fumo e as espinhas, aprendíamos a gostar de pimentos assados e a comer com as mãos.

Era à saída da praia depois do pôr-do-sol que iam buscar o peixe diretamente à mulher do pescador, já na lota, quando passou a ser proibido comprá-las logo ali no areal, como era dantes.
A morte da sardinha é parte deliciosa desta memória.

A parte difícil desta memória — e que ainda hoje me faz ter grande respeito (para não dizer medo) ao mar — é a lembrança das mulheres todas de preto no rebordo da praia a rezarem Avé Marias.
Já não passo férias nessa praia onde estávamos o dia inteiro. Onde comia tomates como fruta com um cheirinho de sal grosso e uma bolacha amaricana que saia da lata da menina loira de sol que a transportava ao ombro. Volto lá às vezes no inverno, quando o areal ainda se parece um pouco mais com o que era, para o mostrar aos miúdos. Entretanto mudámo-nos para terra mais quente e mar mais manso.

A história de João lembra-me um pouco aquela anedota que os economistas gostam de contar do pescador que está recostado na praia à sombra do seu barco. Alguém lhe pergunta se não vai pescar e ele responde que já foi, de manhã, e que agora esta a descansar. Então esse alguém pergunta-lhe porque é que não vai pescar também à tarde. E para quê?, pergunta o pescador. E Alguém discorre sobre a vantagem de poder pescar mais, vender mais. E para quê?, volta a perguntar o pescador. Alguém teoriza sobre o crescimento económico o aumento da frota de barcos e de trabalhadores que o poderão ajudar. E para quê? Depois da escalada megalómana de pobre pescador a empresário riquíssimo, Alguém explica ao pescador que, após este esforço, o pescador poderá ficar a descansar enquanto os outros trabalham para ele. E para quê? — volta a perguntar o pescador — se é isso que já estou a fazer agora?

As ilustrações, ou pinturas, de Jan Balet parece que cheiram a papel de livros antigos e são lindíssimas.
João cresce no sonho da história, mas fica sempre do mesmo tamanho, do tamanho da infância,  enquanto casa, sobe na vida, manda, tenta a revolução e viaja até à lua.
Não sei se os pescadores de então experimentaram o sonho de João. Gosto de pensar que poderão ao menos ter tentado.

Senão, resta-me a consolação de uma história que me escreveram a propósito deste livro, que enviei num pacote™ para o outro lado do mundo, em que uma menina pequenina explicou a um estrangeiro que esta praia é muito conhecida por causa das ondas recordistas, sim, mas mais do que o surf, a Nazaré e conhecida pelos seus pescadores: “os pescadores são os reis dos mares”, disse ela. Que maravilha!
[As subscrições para o pacote™de verão decorrem apenas durante esta semana!]
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João
Kalandraka, 2017 (1º editado em 1965)
Jan Balet
isbn 9789897490866

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20.6.18

Ser — eis a questão!

Este pequeno grande livro chegou mesmo a tempo de mais uma (re)estreia no Lu.Ca:

Eu sou Eu sei foi direitinho para a seleção que fiz para o espetáculo do Teatro Praga (em cena no domingo passado e no próximo fim-de-semana com bilhetes grátis para quem os marcar), Hamlet sou eu.

Hamlet é a peça das peças, o teatro dentro do teatro, a vida (e a morte) em palco. Mesmo quem nunca leu a peça (de 4 mil linhas!?) ou assistiu a uma encenação conhece de cor deixas famosas como Ser ou não ser, eis a questão e Palavras, palavras, palavras.

Então Eu sou Eu sei são só palavras, palavras, palavras ou não? Este livro (em que se brinca mesmo com as palavras), se lido com Hamlet na cabeça passa a ser sobre Hamlet. Ora vejam: "Eu sou, eu sei, eu dou, eu rei, eu com, eu sem, eu vou, eu nem, eu vim, eu vi, eu fiz, eu quis".

E pronto, zás-pás-trás, eis o resumo de 4 mil linhas shakespearianas!

Mas mesmo quem não ler este livro à luz de Hamlet encontrará também — de certeza — um livro sobre aprender a existir: a ser, a ver, a ler, a falar, a olhar, a viver, a conviver.

Eu sou Eu sei é composto por uma série de duplas, na escrita e na ilustração, num ritmo apenas interrompido por pequenas variações, que deixam respirar das rimas ou dos dípticos mais diretos.
Ler este livro é como cantar uma canção, folheá-lo é como ver um filme.

Um livro para bebés? Talvez sim, mas arriscaria a dizer que é o primeiro livro de filosofia para bebés.

Uma espécie de dicionário (daqueles feitos para os mais pequeninos reconhecerem os objetos do quotidiano) só que sobre a velha dupla ser/estar, que desde sempre inquieta o Homem. Sim, só sei que nada sei.

Por isso, atenção bebés, vamos a filosofar! — porque ser é que é a questão.
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Eu sou Eu sei
Planeta Tangerina, 2018
Ana Pessoa texto, Madalena Matoso ilustrações
isbn 978989814588
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11.6.18

Doce bárbaro

Este deu risada geral e em cada um em particular.

Todos o leram em alturas diferentes mas só o R ficou meio espantado antes de perceber quem era o gigante e o que se estava mesmo a passar nesta história de cavaleiros.

Digo leram mesmo sendo um livros sem palavras, nem uma. E, a avaliar pela experiência com 13, 11 e 7 anos, a leitura das não-palavras foi mesmo mais difícil para o mais novo. Desenganem-se pois os que pensam que os chamados silent books são para os mais pequeninos.

Ofereceu-mo uma Cigarra vinda do Brasil com quem conversei sobre livros e sobre como em geral as pessoas acham difícil ler um livro-sem-palavras. Porque é mesmo difícil, dá trabalho.

Eu sou admiradora confessa deste tipo de livros e, quando vou fora do país, são normalmente estes livros, só de imagem, que gosto de trazer. Este veio do Brasil por isso não precisaria de tradução mesmo que viesse com palavras!

Então este cavaleiro atravessa perigos incríveis, alcança proezas fantásticas, ultrapassa obstáculos inimagináveis. Até que faz uma birra das antigas: o cavaleiro era mesmo só um menino, no reino do faz de conta, às voltas e voltas na imaginação dum carrossel de onde o pai o tirou porque tinha chegado a hora.

A alteração da expressão do cavaleiro durante duas

ou três

páginas em que ainda não sabemos exatamente o que está acontecer é absolutamente deliciosa.

Eu também faria uma grandessíssima fita se "cortassem o meu barato" assim.

Obrigada, Daisy!
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Bárbaro
Companhia das Letrinhas, 2013
Renato Moriconi
isbn 9788574065748
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31.5.18

No tempo em que os animais falavam

Tive um desafio incrível: fazer uma curadoria de livros na órbita dos espetáculos do novíssimo (e velhinho Teatro Luís de Camões, mais conhecido como Belém Clube, ali na Calçada da Ajuda) Lu.Ca!
Este teatro municipal será um novo Lugar na cidade para as Crianças para os Jovens e para as Artes. Maravilha, não?

Irei escolher livros que ajudem a mostrar cada espetáculo de diferentes perspetivas. Livros que serão lidos por olhos a várias alturas: apontando pontes para outros lugares, abrindo espaço para descobertas, ampliando as leituras do espetáculo. Livros escolhidos a dedo: aqueles que fazem tocar campainhas, aqueles a que voltamos sempre, aqueles que nos põem a pensar.

O espetáculo de abertura, que é um dos acontecimentos destes Dias de inauguração, já neste primeiro fim-de-semana de junho, parte das Fábulas — de Esopo, de La Fontaine.
Peguei então nas fábulas e andei a ver de que eram feitas.
Fábula vem do latim (fabulare) como tantas outras palavras que estão na origem da nossa língua. Aprendi que Fabulare dá mesmo origem ao verbo falar.

Diz-se que uma história para ser uma fábula deve ter animais com características humanas como protagonistas e uma moral no fim. Depois há exceções a esta regra — ou não fosse uma regra — e é permitido que os protagonistas não sejam sempre animais. Mas a lição está sempre lá. La Fontaine (que resgatou as fábulas do esquecimento) dizia que a fábula é como uma pintura na qual vemos o nosso retrato.

Há muito muito tempo, quando um escravo na Grécia escreveu as primeiras fábulas do Ocidente, (porque na verdade elas apareceram primeiro lá mais para o Oriente), nem toda a gente podia dizer o que queria. E, sim, ainda há lugares assim.
A partir do momento em que foi possível pôr um animal a falar e a fazer outras coisas humanas, também foi possível dizer coisas proibidas. Porque não é o homem que as diz, é o bicho. E como bichos não falam, então nada do que dizem pode ser verdade ou proibido. Será?

Enquanto que nas fábulas antigas acontece sempre qualquer coisa de mau a um dos protagonistas como consequência das suas opções ou ações, na maior parte das fábulas contemporâneas acontece qualquer coisa de bom.

Outra diferença de que me apercebi é que as fábulas antigas são muito sintéticas enquanto as contemporâneas desenvolvem mais a narrativa. Talvez por isso possam ser mais positivas, pois permitem que haja tempo para que a personagem se redima e a história acabe bem.

Nas fábulas o timing é tudo: o sítio certo à hora certa, o momento perfeito, o sentido de oportunidade estão presentes em todas estas histórias.

É fácil encontrar um provérbio (também uma lição) que sirva de legenda a cada uma das fábulas. Foi o que fiz nesta primeira curadoria: escolhi 9 fábulas de hoje que viessem falar com as 9 de ontem que fazem este espetáculo — e 9 provérbios, claro!

Um dos livros que fez parte da pré-seleção deste campeonato (e que depois ficou de fora) foi o Histórias Assim, uma espécie de Livro de Fábulas de Rudyard Kipling — sim, o do Livro da Selva!

Temos também uma versão de capa mole com menos uma história (Relógio de Água, 1994), mas a tradução parece-me mais difícil. (Essa edição tem as ilustrações a preto e branco originais que o autor fez no original em 1902 e que é uma pena que não apareçam nesta...).
São histórias sobre o princípio do mundo — e a explicação de porque alguns animais são como são — que Kipling contava aos seu filhos.

A que explica porque é que o camelo tem uma bossa é deliciosa, duma modernidade incrível; podia ter sido escrita pelo Almada!

O tempo em que os animais falavam é o tempo da infância, o tempo de todas as possibilidades, o tempo em que até os animais podem falar e dizer coisas importantes.
Para saberem quais são as 9 fábulas que fazem o espetáculo de abertura — e quais foram os livros que escolhi para entrarem na dança com elas — apareçam no Lu.Ca; acreditem que vale a pena a visita, senão este fim-de-semana, num qualquer outro passeio pela cidade, ali para os lados de Belém.
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Histórias assim
Bertrand Editora/Círculo de Leitores, 2016 (texto original de 1902)
Rudyard Kipling texto, Sébastien Pelon ilustrações
isbn 9789722532600

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