10.7.19

Pequenos concertos

É comum trazer para aqui livros sem palavras: são os meus favoritos porque são mesmo desafiantes.
Não são os meus favoritos para contar, confesso. Desde logo porque gosto de ler em voz alta e nunca fui de inventar histórias aos meus miúdos.

A minha mãe contava-me uma história inventada por ela, sem livro, e eu pedia sempre essa mesma, claro. Adorava a história e o facto da minha mãe a ter inventado para mim.
A minha avó contava-nos histórias de terror, a mim e aos meus primos, que nos faziam delirar — e morrer daquele medo bom! — também sem livro.

Eu sou dos livros. E das palavras nos livros. Mas o que acho mesmo fascinante como objeto são os livros só de imagem.

Já falei aqui mil vezes sobre isso, mas esta coleção da Pato Lógico vem provar a exigência de que falo nesses textos sob a etiqueta só imagem e que está contida nestes livros.
Experimentei mostrá-los ao R, 8, e depois ao B, 14. E a conclusão é que este livros, embora não tenham texto e sejam (aparentemente) de fácil leitura por qualquer pessoa, mesmo um não-leitor, são muito mais adequados ao universo do B do que o R. E não tem a ver com feitios ou interesses, mas com maturidade.

Chamam-se Desconcertinas porque são uma comprida página em fole e são mesmo desconcertantes. Grande nome para estes pequenos concertos.
Ainda bem que há vários leitores adultos que não têm vergonha de ler livros sem palavras. Eu não passo sem um bom romance ou livros de contos, acreditem. E não sou de todo dada a BD, embora goste muito de uma boa novela gráfica. Mas estes pequenos grandes livros enchem-me as medidas.

Espalhem-nos por aí!
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Impulso
Pato Lógico, 2019
André Letria
isbn 9799895434442
Degelo
Pato Lógico, 2019
André Letria
isbn 9799895434435
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2.7.19

A arte de emoldurar

Mudámos de casa há uns meses, para o bairro ao lado.
Voltamos muitas vezes ao "lugar onde fomos felizes", contrariando os conselhos do sábios.

Num desses passeios, T, 12, comentava como a paisagem do bairro tinha mudado em tão pouco tempo — a paisagem do bairro cá em baixo, à altura do chão; não a que víamos do alto do nosso 5º andar sobre a cidade.

A perceção do tempo e do espaço traduzida neste comentário pareceu-me estranha na idade dele. A primeira experiência deste tipo que costumamos ter é a de regressar à escola onde andámos, poucos anos depois, e descobrir como o recreio encolheu.

Mas, em poucos meses, e sendo que regressa ao antigo bairro semanalmente, T apercebeu-se de uma enorme alteração. E não é só ele: todos nos apercebemos disso porque, de facto, a alteração da paisagem urbana tem acelerado exponencialmente.

Nos últimos dois meses tenho pensado muito sobre património e paisagem. Pelo que tenho conversado, pelo que tenho lido. Descobri-me quase totalmente analfabeta em ambos e gostei muitíssimo de ler sobre estes dois assuntos tão presentes na minha vida, mas aos quais nunca tinha, verdadeiramente, dedicado um tempo para pensar.

Já trabalhei várias vezes a paisagem sonora e gosto de mostrar este documentário aos meus alunos, mas só fiquei com uma ideia mais completa do que pode ser a paisagem depois de ler este livro.

Gosto do modo como algumas páginas têm espaço em branco "a mais". Dá ideia que, mais que um livro, é um bloco de notas, um diário gráfico, que havemos de completar.

Chama-se "guia", tem um formato portátil e mistura factos, curiosidades, perguntas e desafios na dose certa. Maria Manuel Pedrosa, que conhecemos do Cá dentro, junta-se a Joana Estrela, que conhecemos do Mana e dA rainha do norte, constroem as páginas deste livro analógico que dá cara o museu digital coordenado por João Gomes de Abreu, que conhecemos dA ilha e dOs figos são para quem passa. Só podia correr bem.

Embora costume dizer que sou mais literária que científica, gosto de ter os assuntos arrumados e gosto que isso seja feito através de um caminho de descoberta.

Uso essa técnica em casa, com os miúdos, quando proponho que se altere algum modus operandi, mas também na escola, com os meus alunos, onde só ajudo a sistematizar depois de terem chegado eles a algum lugar. Todos sabem que só me aproximo quando já está qualquer coisa na folha para, a partir daí, sim, os ajudar a construir o próprio caminho.

Pegar neste guia dá vontade de sair. E não é preciso ser para longe. Se há livros que nos dão cócegas na barriga e nos põem a sonhar alto, este põe-nos a sonhar baixinho e a organizar saídas, aqui mesmo, no próprio bairro, já amanhã, a caminho da escola. Põe-nos de sentidos alerta para uma descoberta, sem precisarmos de muito. Uma espécie de "vá para fora, cá dentro" acessível a todos, mesmo àqueles que não têm a sorte de poder viajar para longe.

A paisagem é o que fazemos com os nossos olhos, nariz, ouvidos, cabeça. Paisagem é pegar numa moldura e agarrar o que lá está.

O que há neste lugar é um guia para criaturas inquietas ou para desinquietar criaturas. É um daqueles livros que hei-de aqui etiquetar em todas as idades: porque pode ser lido para, com ou a. Ou então lido mesmo só por um adulto, que contaminará o próximo passeio com uma criatura pequena, ensinando-a a desinquietar-se!
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O que há neste lugar?
Museu da Paisagem, 2019
Maria Manuel Pedrosa texto, Joana Estrela ilustrações
isbn 9789892092614
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28.6.19

Tela de projeção

Ontem, antes de um exame, uma miúda dizia: o verão começa hoje às onze e meia!

O verão começou dia 21, mas só começa realmente quando acontece na nossa cabeça.

O maior dia do ano já aconteceu, mas parece que a partir de agora é que os dias começam a crescer, não a ficar mais pequenos.

Nas férias, a linha do horizonte fica mais comprida e o tempo e espaço que delimita tem também muito mais potencial. Serve de charneira para decisões de mudança, serve para assentar mil sonhos, projetos e projeções. E levanta interrogações.

Ainda não me habituei a que o pôr-do-sol do verão não seja sobre o mar. Até aos 12 anos, a hora de sair da praia era definida pelo desaparecimento do grande astro. Há muito que tínhamos camisolas vestidas.

Agora temos de virar a cabeça para ver onde anda o sol, mas, em contrapartida, tomamos banho de lua. Camisolas, para quê?

Neste Para lá do oceano, o grande Taro Gomi transforma o céu numa tela de possibilidades, num cinema ao ar livre em que o realizador é a menina do lado de cá da margem. Ou então somos nós mesmos.

A narrativa que Taro Gomi constrói para acompanhar estes quadros, onde alterna a interrogação e a possibilidade de uma resposta, é o caminho para o nascimento de um desejo. O desejo da menina (e o nosso) de querermos sempre mais: saber mais, de conhecer mais, de experimentar mais. De saborear a vida.
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 Para lá do oceano
Orfeu Negro, 2019
Taro Gomi
isbn 9789898868480

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21.6.19

Dormir de olhos abertos

O B tem um urso de pano à flores chamado Floriano; o T um urso polar chamado Rope, um nome quase premonitório em relação ao irmão que viria a ter anos depois; o R tem um urso branco a que se agarrou numas férias na quinta e que tinha sido um presente de Natal esquecido pela prima.

Ainda hoje se agarra a ele para dormir, embora nunca o leve para dormir fora. Chama-se Ôié.

Jimmy Liao pega nos animais de pano com que alguns miúdos dormem e constrói este sono-sonho-aventura-poema.

Muito raramente os miúdos contam um sonho. Mas é um assunto de que gostam mesmo.

Eu, mais graúda que eles, escrevia os sonhos, mal acordava, no quadro de giz que tinha sobre a minha cama e que tinha herdado da minha avó. É um exercício: se nos fizermos por lembrar, lembramo-nos mesmo; e, se os escrevermos, eles ficam para sempre.

Já falei aos miúdos dos surrealistas e do uso que faziam dos sonhos e gosto especialmente que, em italiano, se diga "fazer" um sonho em vez de "ter" sonhado. Ambas as expressões são verdadeiras, mas só quando ouvi o meu amigo a falar portugaliano é que percebi que também era verdade que temos alguma responsabilidade por aquilo que sonhamos.

Neste conto, uma menina mistura sonho e realidade, a preto e branco, como se diz que sonhamos. Os seus companheiros de pano ganham asas (literalmente) e levam-nos com eles nesta viagem-poema.

O meu cunhado mais novo, muito pequeno, quando o conheci, dizia que dormia de olhos abertos. Senão, perguntava ele, como é que eu vejo tantas coisas?

Sonhar, acordado ou a dormir, é um dos afazeres mais importantes da vida. Hoje começa o verão e o tempo ideal para nos dedicarmos a fazer sonhos. Vamos a isso?

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Segredos na floresta
Kalandraka, 2015
Jimmy Liao
isbn 9789897490446


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19.6.19

Vaguear o verão

É hoje comummente aceite, em Educação, afirmar que os miúdos precisam de regras para se estruturarem e serem felizes.

E, embora haja esta perceção geral, ainda assistimos, diariamente e em diferentes circunstâncias, a cenas macacas, para dizer o mínimo.

Dá ideia que há muita gente com medo de educar, sem grande rumo. E a questão não está nas crianças, que são crianças, mas nos adultos que (supostamente) estão a liderar, mas que, na verdade, andam à deriva. Para lhes podermos dar espaço para que vagueiem (como só se vagueia no verão) temos primeiro lhe lhes dar o rumo. E, depois, sim, é deixá-los vaguear.

EstAs regras de verão são outras, ou talvez não.

Shaun Tan desenha um mundo reconhecível, terráqueo, palpável, mas onde os lugares, as coisas e as pessoas ganham contornos irreais e surreais.

Atrevo-me a chamar este livro de Manual Para a Interpretação de Pesadelos.

Todo o livro se constrói à volta de quadros em que, percebemos no fim,

dois irmãos vagueiam, como só se vagueia no verão.

Podia ser um livro silencioso, mas é um livro de poucas palavras. E, de facto, não é nada silencioso. Tem barulhos assustadores, música, vento. Tem calor e frio, sabor a pipocas e a sangue na boca. É como se, de repente, uma espécie de Grande Jogo de um-outro-Xadrez ganhasse vida pela mão dos seus prórpios criadores.

Um livro que é uma ode à liberdade que vem (ou espera-se que venha) com as férias, com a mudança de rotinas, com a alteração das regras que desenham os dia e às imensas possibilidades que nascem disso mesmo. (A propósito disto, vejam com eles esta curta do autor.)

O verão está a chegar. Dêem as regras aos miúdos e depois deixem-nos construir o seu próprio verão.
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As regras do verão
Kalandraka, 2014
Shaun Tan
isbn 9789897490217
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11.6.19

O tipo que veio para o chá

A prateleira-de-baixo é mesmo a prateleira de baixo cá de casa, mas, de repente, passou a ser mais que isso. Tenho por isso desculpa (como se alguma vez tivesse precisado de uma...) para trazer para casa um livro totalmente fora da idade dos miúdos aqui de casa. Será?

A propósito da recente notícia de mais um serviço de subscrição de livros infantis em Portugal (que não é o primeiro e pouco terá a ver com o que preparo, mas, ainda assim, não gostei do modo como foi apresentado como pioneiro) alguém falava sobre a pertinência de agrupar os livros por faixa etária.

Tenho organizado os livros no site por vários tipos de etiqueta e a da faixa etária ajuda pouco, porque acabo por pôr o mesmo livro em várias idades. É que, quando são mesmo bons, funcionam muito bem para diferentes idades — até à adulta! E foi por isto que trouxe O Tigre Que Veio para o Chá para a prateleira.

Por isto,  porque é um ícon da literatura anglófona (e, por isso, universal) e também porque a tradução é da Carla Maia de Almeida. Além de ser uma magnífica tradutora (que nos tem trazido muitos Sendaks pela mão da Kalandraka), é a autora do Irmão Lobo.

A primeira vez que o Tigre veio para o chá foi em 1968 e, em Portugal, apareceu pela primeira vez pela mão da Kalandraka, em 2010.

"Esta é a história de uma menina chamada Sofia,
que estava a lanchar com a mãe na cozinha.
De repente, ouviram tocar a campainha."

As ilustrações de Kerr, uma dama da literatura infantil inglesa, que morreu recentemente, fazem lembrar as da nossa também grande dama, Maria Keil. E a história, em que o Tigre é acolhido em casa e acaba por comer toda a comida que havia, obrigando o pai de família a resolver as coisas indo  todos (menos o Tigre) jantar fora, é absolutamente deliciosa.

Entre o nonsense e o surreal, a história funciona como uma enorme loucura no meio de um quotidiano estável e muito "normal". E é por isso que é tão boa. Pondo-a no contexto, claro.

É que este episódio da vida doméstica em que tudo está no seu sítio e um Tigre esfomeado acaba com as provisões familiares pode ser lido, na sua cadência ritmada, como uma história da vida doméstica dos anos 50/60. Só que não!

E esse clique — bem, e o final, — é que fazem deste livro um objeto obrigatório a ter na nossa prateleira-de-baixo-e-de-cima.
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O Tigre Que Veio para o Chá
Judith Kerr
Booksmile, 2018 (1ª edição 1968)
isbn 9789897074585


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