11.12.18

A construção de si

Dou aulas há 12 anos. Não costumo falar disso aqui. É como se essa parte da minha vida — que enche grande parte dos meus dias — não fizesse parte da minha história aqui. A razão é simples: pudor.

Se já tenho algum em revelar aqui os meus filhos — que tenho dado a conhecer ao longo dos anos através da sua relação com os livros —, esse pudor aumenta imensamente quando se trata dos filhos dos outros. Os meus alunos são filhos de outras pessoas e os seus trabalhos ou o que dizem, por mais interessante que seja, não é para aqui chamado. Acho eu.
Por isso, aqui passo ao lado dessa existência, dessa relação, desse trabalho, dessa dedicação, desse combate.

Escolho a palavra combate. Ensinar é uma batalha. Não ensino só a desenhar. Não é só isso que acontece, quando passam por mim 130 adolescentes por semana. No meio da confusão, ensinar a desenhar parece ser às vezes o que acontece por acaso: há que os convencer a experimentar, a trabalhar, a insistir, a ficar sentados, a quererem fazer melhor.

Quem me conhece sabe deste gosto pelos livros e de como gostaria de me centrar apenas nisto.
Além do cansaço que é manter tantos trabalhos ao mesmo tempo, tentando garantir que tudo corre bem, custa-me cada vez mais a burocracia e os entraves que todos os dias se levantam ao ofício — vocação, quiçá — de ensinar.

Por outro lado tenho a certeza de que sou muito melhor professora hoje que ontem, este ano que há 12 anos, quando comecei, com o T na barriga, a ensinar a desenhar.
Nos dias em que corre bem, em que um miúdo finalmente acaba um projeto em que se envolveu durante várias semanas e olha para o que conseguiu com orgulho, nem reparo na estafa que tenho em cima. Da luta de não desistir de lhes dizer sempre: "está a ficar bem, mas experimenta fazer assim ou assado"; "já está melhor, mas sei que ainda dá para fazeres mais isto ou aquilo"; "não digas não consigo, o máximo que podes dizer é não estou a conseguir — se dizes não consigo, é meio caminho para não conseguires mesmo"..."

Do esforço que é tentar perceber o que funciona com um ou com outro.
Do desalento que é, às vezes, não chegar a alguns. Sei que dão a volta, mas muitas vezes mais tarde, quando já não são meus alunos.
Mesmo assim é bom saber que alguma coisa fica lá, nem que seja em apenas um dos 130.

Vem este postal a propósito deste melro artista e de como o achei parecido com os meus alunos adolescentes: está lá tudo, em potência, mas é preciso ajudá-los a focar e a procurar o melhor em si. O melro ganhou confiança para ser quem é e sentir-se bem com isso.

Não sem no entretanto sofrer bastante, tal e qual como um adolescente que sofre e vive tudo tão intensamente. Mesmo aqueles tocados pela aparente brutal indiferença!

Como este melro artista, sofrem com o seu corpo, com os seus pares, com os adultos, com as suas escolhas, com a construção de si próprios. Mas depois vibram, também intensamente, perante a obtenção de um sucesso e disso é mesmo bom de fazer parte.

Por exemplo, receber uma carta de um aluno de quem nunca sonharia receber nada, em que me diz, passados anos, que eu ter sempre acreditado nele (mesmo quando ele não acreditava em si próprio) foi um marco fundamental na sua vida, dá forças para mais 12 anos disto.
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O melro artista
Bizâncio, 2018
Marion Deuchars
isbn 9789725306178

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23.11.18

Blacklist (na Blackfriday)

No verão conheci o instagram da Claúdia Mestre, uma beachcomber, e em agosto, além das costumeiras conchas e búzios, andei à procura de plástico na praia.

Na minha ingenuidade, fiquei feliz de não conseguir fazer nenhuma coleção em 15 dias: encontrei 3 ou 4 peças, nada mais.

Fiquei feliz porque achei que tinha o privilégio de poder ir a uma praia limpa (e sim, tenho esse privilégio), mas não sabia que no verão há menos lixo na praia porque a limpam com maior frequência e porque o vento predominante no verão não traz tanto lixo do mar para terra.
Aprendi isso agora que acabei de ler este Plasticus Maritimus, uma espécie invasora.

Há uns tempos que ando com o plástico na minha blacklist: há muito que deixei de comprar filme plástico para guardar alimentos, papel de prata também já não uso e, mais recentemente, arranjei uns sacos de pano fininhos para poder comprar fruta e legumes sem mais plástico. Ainda pensei fazê-los, mas estava a demorar tanto a concretizar isso que resolvi o assunto no supermercado.
Também comecei por embrulhar o pão do lanche dos miúdos em sacos de pano, mas como eles os perdiam, passei a embrulhá-lo em papel e a pô-los em caixas com a fruta e o leite. E ninguém se queixa de que está duro.

Há uns anos que me perturba não apenas a quantidade de embalagens, mas a quantidade de plástico que existe em cada embalagem. Quem vai às compras sabe que o consumo mais rápido e mais barato implica mais plástico — as frutas embaladas (em plástico, claro) são mais baratas que as outras e é muito mais rápido pegar num saco já feito do que enchê-lo.

Enfim, é pouco. E há quem esteja muitíssimo mais atento a isto e, melhor, muitíssimo mais envolvido nesta luta, que tem de ser global.

As crianças são o alvo perfeito para este tipo de mudança: para elas o óbvio é mesmo óbvio e ainda não têm os "mas-na-prática-não-dá" que os adultos tanto usam para se desculparem da sua preguiça de mudar.

No verão sou muitas vezes intimada pelos meus miúdos a desligar o ar condicionado no carro. E, se de facto dá para abrir janelas, desligo mesmo. Fica quente, mas bem, é verão, é suposto estar quente. E no inverno a chauffage está muito bem.

Confesso que fiquei bastante assustada com os números que li. Nem as ilustrações lindíssimas do Bernardo nos conseguem distrair da gravidade do problema. E fiquei um pouco desolada, também: porque é mesmo muito difícil fugir ao plástico. Ao descartável, digo, porque o plástico em si é objetivamente um material interessantíssimo.

Mas o livro não é uma profecia da desgraça. É antes um alerta, um guia, uma ajuda. Contra factos, dá pistas, sugestões, brincadeira, esperança, revolução. É meio esquizofrénico, porque ao mesmo tempo que explica o perigo desta espécie invasora, trata-a depois como objeto precioso — artístico, até!

O T, que fez 12 há uns dias, repete muitas vezes os 3 R's. Hoje vou entregar-lhe o livro e mostrar-lhe que neste Plasticus maritimus, falam de mais uns e somam sete: repensar, recusar, reduzir, reparar, reutilizar, reciclar, revolucionar! E sei que ele fará por isso e com ele todos os que se deixarem contagiar por esta urgente revolução.
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Plasticus maritimus, uma espécie invasora
Planeta Tangerina, 2018
Ana Pêgo, Bernardo P. Carvalho, Isabel Minhós Martins
isbn 9789898145901






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12.11.18

Chamar os bois pelos nomes

Ontem, 11.11.18, celebrou-se o centenário do armistício da I Grande Guerra.

A propósito das eleições brasileiras, andou por aqui o O que é a ditadura. A certa altura, entrei na cozinha, onde se passava a seguinte cena, ao lanche: R, 7, apontava para a cara de cada um dos ditadores à espera de explicação para cada uma das suas histórias. E há histórias incríveis de recambolescas, principalmente as (que se repetem) de libertadores que se transformam em ditadores.

Este A guerra é um poema negro que diz as coisas como elas são. Não é por ser um livro de poucas palavras que é menos explicativo. Não. Os vazios que deixa, no texto e na imagem, deixam só espaço para as sensações de desconforto, solidão, tristeza, vazio e medo.  Sabemos (por experiência alheia e não própria — o que é uma verdadeira bênção) que isto é a guerra.

Estive um dia em Verdun. A floresta-cemitério correria o risco de ser bonita demais, não fossem as baionetas espetadas de dentro para fora, em montes de terra.

Tenho sempre a ideia de que a guerra é uma coisa que acontece lá longe, mas não é preciso caminhar muito — no tempo ou no espaço — para concluir que essa é uma ideia totalmente ingénua.

Sei que quando o meu irmão nasceu, em 69, a minha mãe ficou aflita por ser rapaz ,porque temeu que tivesse de ir para a guerra. Sei que o papão da Guerra Fria que senti na infância está a aquecer. Sei que a história é cíclica.

Mas também sei que é possível mudar, ir mudando, e que os livros são grandes armas, passe a expressão. Armas porque poderosos, porque potencialmente perigosos na luta contra a ignorância.

Este não é um livro manso. Quase politicamente incorreto, não fosse tão infelizmente certeiro no seu timing, passa a ser um livro fundamental na guerra contra a guerra. Porque é para a infância, porque chama os bois pelos nomes e é bom não ter papas na língua quando queremos dizer NÃO mesmo.

Os miúdos têm festas de laser e paintball e deixo-os ir. Já nos pediram festas dessas e dissemos que não. E sabem o que achamos de jogos de guerra.

Ajudei o R a construir umas armas com ramos que fomos apanhar depois das chuvadas, mas as Nerf estão em casa dos avós para poderem brincar no pinhal.

Os psicólogos defendem que é importante brincar às guerras e verdade que todos brincámos às guerras. Mas tenho cá para mim que isso é um pouco como ver televisão ou comer carne: se não houver disso em casa, ainda assim vão ter sempre mais que suficiente.
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A guerra
Pato Lógico, 2018
José Jorge Letria texto, André Letria ilustração
isbn 9789899965881





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22.10.18

Pensar é preciso

Tardava, este postal. Porque há muito que não punha aqui um livro e porque é urgente falar sobre o que se passa no mundo.

O Museu do Pensamento foi connosco de férias e, embora na verdade tenha sido uma das peças do Teatro das Compras em 2014, mais parece uma aula de introdução ao pensamento filosófico.

Parte da interrogação sobre o que terão pensado todas as pessoas que durante 128 anos entraram na velhinha Chapelaria Azevedo, lá em baixo, no Rossio e na ideia de que o chapéu protege pensamentos e sonhos.
E foi exatamente por isso que emparelhei este livro com o do Chapeleiro lá no Lu.Ca, no Ciclo Catarina Sobral.

Já pus aqui na prateleira alguns livros de filosofia (mais ou menos explicitamente) para crianças e há uma outra coleção que os mais velhos já devoraram e à qual voltam com frequência. Este Museu é um livro para aprender a pensar, para fazer perguntas, uma espécie de chapéu pensador do professor Pardal.

Não me parece o livro mais certeiro para o R, 7, mas foi um dos que restou fora dos caixotes durante algum tempo (em que se aproximavam de mim com ar sofredor a perguntar se já não havia mais nada para ler). De modo que acabou por o ler mesmo.

Um dia, antes de lhe ir apagar a luz, perguntei-lhe o que estava a achar. E é o diálogo que se deu depois dessa pergunta que aqui vos deixo hoje:
Disse-me que era um bocado estranho: "Pensar em nada... Como é que se pensa em nada? Está-se sempre a pensar em alguma coisa... E o que é que é o nada?..."
T, 11, na cama ao lado, atira: "O nada é o vazio, é o mundo sem Deus."
Encolhendo os ombros e rebolando os olhos responde R: "Ó, isso é impossível..."
"Exato," respondeu T, "é por isso que é o vazio!"

Encostada à ombreira da porta, assisti àquele diálogo socrático entre os dois miúdos. No fim perguntei ao T onde tinha lido ou ouvido aquilo e respondeu-me que tinha pensado só naquela altura, para ajudar o R a tentar perceber.

Assisto também, deste lado do oceano, à luta política de tantos amigos brasileiros. A história repete-se como sabemos, mas nem por isso deixa de causar estranheza e choque.

E é por isso que hoje lhes dedico este postal, na certeza de que vale a pena atirar o chapéu ao chão em sinal de protesto e na esperança de que o possam atirar ao ar em sinal de festejo. E que, depois, possam começar juntos a reconstrução de um país pensado para todos.
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O Museu do Pensamento
Editorial Caminho, 2017
isbn 9789722128476
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21.9.18

Introdução à ficção científica

Voltar à cidade é muito difícil. Voltar a pôr sapatos nos pés é do pior e a minha ligeira claustrofobia ganha alguma expressão por estar muito mais tempo dentro de casa. Os miúdos adiaram até ao primeiro dia de escola tirar as havaianas dos pés — e eu também.

Não fui criada no campo, mas talvez por em criança passar o mês de agosto numa praia a norte e os primeiros quinze dias de setembro acampada no Algarve, tenha este sentimento de clausura em relação ao fim do verão dentro de quatro paredes.

Sobre um dos livros que escolhi para o espetáculo agora em cena no LUCA, falava da cidade como "um animal assustador, com muitas coisas estranhas escondidas na sua juba emaranhada. A natureza torna-se tímida ao pé da cidade". Pudera.

A cidade dos animais é uma história em que uma menina visita um grupo de amigos animais, num lugar secreto e lhes conta histórias. A história que os animais mais gostam de ouvir é aquela em que são protagonistas, como os meninos pequeninos.

Ao mesmo tempo que tem uma sinopse simples, esta é uma história intrigante, meio de ficção científica, porque retrata um possível futuro, em que uma cidade foi abandonada à natureza ou, melhor ainda, em que a natureza a engoliu.

As ilustrações são selváticas, com cores vibrantes e sobrepostas como é a natureza. Mas da mesma matéria são as cores dos despojos humanos, ali deixados para Nina e os seus amigos explorarem, como novos brinquedos. Os dois mundos são agora um grande parque de diversões para Nina&cia.

A história não chega a ser assustadora — porque é que a cidade foi engolida pela vegetação?, onde vivem agora os homens? — porque vemos uma representante da espécie humana, Nina, a tal menina contadora de histórias. Que belíssima característica humana, esta, a de contar histórias!
 
Ainda estamos na nossa velha casa, este miradouro da cidade, numa selva de caixotes, onde restam poucos livros de fora para ler. Haveremos de ter parte da casa nova a céu aberto e isso faz-nos aguentar melhor este aperto em que estamos, agora mais que nunca.

No entretanto, delicio-me a olhar lá para fora, para os caixotes de Lisboa, tão bonitos, para as pessoas que passam apressadas ou gritam em São Domingos e divirto-me a imaginá-los engolidos por lianas

e transformados em tigres e flamingos.
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A cidade dos animais
Orfeu Mini, 2017
Joan Negrescolor
isbn 9789898327994
 




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