10.1.17

Comecemos pelo princípio: A, B, C

Comecemos pelo princípio, pelo bê-á-bá, pelo abecedário. Foi direto para o sapatinho do R e confesso que nem o abri mais do que o suficiente para perceber que era o livro certo para ele agora. (E também para eu poder ter o prazer de o ler pela primeira vez com ele.)
Há livros assim: o autor e a editora são selos suficientes para que o possamos trazer sem abrir. E uma história para cada letra era obviamente certeira para o miúdo que lê sofregamente as tabuletas da rua e os papéis que os irmãos deixam na mesa logo de manhã.

Foi na mala para a quinta; fizemos as contas a quantas histórias teríamos de ler por noite para o conseguirmos acabar até ao final do ano e combinámos ler 4 histórias por noite, duas eu, duas ele. E assim foi.

Já não vale muito a pena voltar a falar aqui de Oliver Jeffers; é o nosso herói, pronto. Esteve aqui desde o início deste blogue  — O incrível rapaz que comia livros continua a estar no top 5. A ideia deste mestre pegar na empreitada do clássico abecedário ou dicionário (em que tantos outros mestres mais cedo ou mais tarde pegaram: Bruno Munari, Maurice Sendak, Quentin Blake, Edward Gorey) foi o suficiente para nos atirarmos a este livro cheios de expetativa.

As micro-histórias não são todas obras-primas, claro, mas a construção do livro — histórias independentes mas que criam uma espécie de microcosmos onde relações, private jokes e desenlaces viajam de umas para as outras — é desde logo garantia de que vamos ver diferentes episódios duma mesma série, e isso cria uma enorme cumplicidade entre o leitor e o livro e, neste caso, também entre a dupla de leitores!
 
Exemplo disso são as letras A e Z, cujo protagonista é o Astronauta Edmundo: o problema enunciado na página do A do seu medo das alturas arranja um princípio de solução na página do Z. Pelo meio, há histórias magníficas — minimais, desconcertantes ou politicamente incorretas — como a da letra Q de Questão oculta, ou a da T de A terrível tragédia do datilógrafo, ou da letra H de Habitação de Alto Risco, umas das minhas favoritas.
 
O R adorou a empreitada (e eu também): ler um livro enorme logo na abertura do ano, de A a Z, com palavras difíceis, deu-lhe um incrível sentido de poder.
Há uns dias, em casa da Avó, disse que queria ler sozinho, e ia-se afastando para o lado para que a Avó nem pudesse espreitar e ajudá-lo.

Esta coisa da leitura partilhada é uma nova fase engraçada. Umas vezes ponho-o a ler os diálogos e eu a ler a narração, outras vezes lemos página sim, página não. É uma forma divertida e suave de lhe passar a pasta. E como é incrível assistir, de dia para dia, à transformação da voz suave e hesitante numa mais forte e segura, cheia de chhs do 1º dente que lhe caiu!

Quem sabe, um dia, quando eu for uma velhinha desdentada e já não conseguir ver bem, possa ser ele a ler para mim.
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Era uma vez um alfabeto
Orfeu mini, 2016
Oliver Jeffers 
isbn 9789898327758 

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31.12.16

dicas e rituais

Neste final de ano, aqui fica um postal sobre dicas e rituais. Inventei um separador no site para isto, mas aqui fica hoje, em forma de postal de Ano Novo, na esperança de que ajude leitores e projetos-de-leitores!

Na educação dos filhos há coisas sobre as quais pensamos muito e tomamos decisões fundamentadas; outras há que correm duma forma mais casual, sem grande pensamento. Em ambos os casos, há umas que correm bem, outras nem tanto. Então reformula-se.
Não sou promotora da leitura, nem crítica; não sou jornalista, não sou sequer de Literatura ou de Ilustração. Mas gosto mesmo de livros e cá em casa, por acaso ou não, esta coisa da leitura correu, corre, muito bem.

Aqui ficam, por isso, os 10 rituais que me parecem, afinal de contas, construir este sucesso:

1. Nascer em berço de livros
Desde muito cedo (9 meses) deixávamos na cama de grades, antes de nos deitarmos, dois ou três livros. De manhã, os miúdos habituaram-se a lê-los antes de nos chamarem. Isso dava-nos mais horas de sorna e criou neles o ritual do livro como a primeira coisa com que brincam de manhã.

2. NO-tv
Aconteceu que ficámos sem televisão, de maneira que não havia televisão para ligar de manhã. Depois passou a haver televisão, mas o ritual já estava lá. E quando vieram outros irmãos, nenhum ligava a televisão porque isso era simplesmente uma coisa que não se fazia.


3. A noite não é o fim
Para uma criança pequena, o adormecer pode ser difícil porque é o fim de um dia. E a noção de tempo é muitíssimo abstrata. Quando é que vai começar outro dia? Ouvir uma história antes de dormir, uma história contada à sua altura — como fazem os índios — dá segurança à criança e prepara-lhe os sonhos.

 
4. Mas eu não sei ler!
As imagens também se leem, dizemos sempre quando nos atiram a deixa para lhes irmos ler a história. Ler a história com o miúdo é fundamental, claro, mas tão fundamental como isso é ensiná-lo a ter uma ligação pessoal com o livro. Primeiro lê as imagens, depois ouve a história.

5. A prateleira
Para procurar um livro na prateleira, andamos (de cabeça ora para um lado, ora para o outro) a ler as lombadas. Mas um miúdo que não lê fica reduzido a uma tirinha de cor para identificar o livro. De modo que, de vez em quando, tiramos uns livros para cima do tapete e ouvimos — Olha este livro!

6. A Feira do Livro
O ritual da ida à Feira do Livro, onde a procura dum livro se mistura com uma fartura, um gelado ou um algodão doce, tem feito maravilhas na aprendizagem do prazer pela leitura. A Ilustrarte, a BD da Amadora ou a ida a uma livraria numa viagem, são outros programas ótimos para fazer.


7. O objeto-livro
"Os livros são objetos transcendentes mas podemos amá-los do amor tátil que votamos aos maços de cigarro", canta Caetano Veloso em Livro. Deixar a criança escolher o livro que quer levar numa viagem —travel light! — faz dele um tesouro precioso, por ser um dos poucos pertences que carrega para um lugar novo.

8. Mais meia hora
Se, à hora de deitar, puderem acrescentar mais meia hora de luz acesa caso queiram ler, não vão ler?...

9. O castigo
Quando o vício já lá está, a possibilidade de ficarem sem história se insistirem numa asneira funciona mesmo.

10. O vício
O gosto pelo livro tem, como todos os vícios, o problema do gasto. Mas um livro é um investimento para a vida, para os irmãos, para os primos, para os filhos, para os netos e nem se gasta como a roupa! É, no final de contas, um vício que acaba a construir uma biblioteca. E haverá coisa mais bonita?

E bem, até dia 6, ainda podem pedir ajuda ao PACOTE-da-prateleira-de-baixo: receber uma encomenda pelas mãos do carteiro — dois livros-surpresa! —pode bem ser o clique que falta para fazer nascer mais um leitor voraz por aí.

Um *Bom Ano* para todos e boas leituras!
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28.12.16

Porque o *Natal* é todos os dias,

aqui fica a habitual lista de Natal, porque insisto em dar livros aos meus filhos, afilhados e sobrinhos!
(Só de pensar que em breve estarei a preparar PACOTEs para outros miúdos!!...)


Para o V
 

Para o J
Para o B
 

Para o T
 

 Para o T

 Para a M
 Para o B


Para o N



Para o S


















Para o R



Para a H

Para a V
Para o T
 

Para o E








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2.12.16

O dia 1 é para festejar

O miúdo fez 6 anos. Finalmente, diz ele.

Nasceu numa casa de histórias, onde o pai escreve, a mãe escolhe, os irmãos devoram — perdão — leem livros. Os livros já por cá andavam quando ele apareceu assim tão de repente, e agora vão forrando as paredes e o chão, mas também o interior das nossas cabeças, corações, sei lá eu.

Desatou a ler tudo o que lhe aparece à frente e eu vou espreitando por trás do ombro a magia dos desenhos que se fazem palavras e antecipando as histórias que irá ler "para dentro". Por agora, lemos histórias a meias; ele orgulhoso, eu também.


Tendo três rapazes relativamente seguidos, há coisas que fazemos igual para todos, que se tornam rituais. A taça dos 6 anos é uma delas. Há anos que via as dos irmãos e que ansiava ter a dele, com o seu nome inscrito, a prova de que chegou a esta meta magnífica, os 6 anos!

Uma cova é para escavar, mas também pode ser para esconder coisas, ou para tapar, ou para plantar uma flor, ou para escorregarmos. Uma cova é uma cova, será?
Esta pérola dos anos 50, terra-a-terra e filosófica ao mesmo tempo, funciona como um manual de explicações para a infância (para os meninos) ou da infância (para os crescidos).

Há coisas realmente óbvias como "Um professor é para te tirar os picos" ou "O soalho é para a casa não se afundar" ou " Um relógio é para ouvir tiquetaque". Porque, aos 6 anos, o mundo é assim, de fácil explicação, óbvio.

Mas é também a altura em que, se tudo correr bem, começamos a ter noção de que "O mundo é assim para que tenhas o teu lugar" e de que "Os braços são para abraçar", coisas (obviamente) tremendamente filosóficas, a fazer lembrar outros livros.

Este Uma cova é para escavar (o primeiro livro da dulpa Krauss/Sendak) é um livrinho que é na verdade um grande livro; como este miúdo que por aqui anda, espantado com o mundo e o mundo espantado com ele.
O livro das primeiras explicações, é o subtítulo desta obra. Perguntam-me para que idade é o PACOTE e eu respondo, "ponham a data de nascimento"; porque, digam lá, quem não gostaria de receber esta preciosidade em casa pelas mãos do carteiro?

O miúdo fez 6 anos e o sol voltou a brilhar por umas horas, brilhante e branco de dezembro, como sempre tem feito desde 2010, neste dia, feriado ou não. O dia foi fantástico.
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Uma cova é para escavar — O livro das primeiras explicações
Kalandraka, 2016
Ruth Krauss texto, Maurice Sendak ilustrações
isbn 9789897490644





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29.11.16

O PACOTE-da-prateleira-de-baixo!

Finalmente, o grande dia, que venho preparando, assim com um gerúndio tão português, há já alguns meses: o PACOTE-da-prateleira-de-baixo!


Se espreitarem o site, vão ver que está diferente, com mais uns separadores:
Há o BLOG, que aqui vai continuando a mostrar e a arquivar excelentes livros.
Há o SOBRE, onde me apresento e explico o que é a prateleira-de-baixo.
Há o CONTACTO, com o endereço onde me podem contactar.
Há as FAQs, onde procuro responder a algumas questões que me têm colocado e a outras que poderiam colocar.
Há uma outra novidade, as DICAS de leitura, onde procurei alinhar alguns rituais que fomos seguindo mais ou menos por acaso e que têm dado bom resultado na relação dos miúdos com os livros e a leitura.
E o PACOTE. Bem, mas afinal o que é o PACOTE?
O PACOTE-da-prateleira-de-baixo é uma curadoria de leitura personalizada que vai fazer chegar livros a casa dos assinantes todos os meses.
Cada miúdo inscrito recebe em casa dois livros por mês, escolhidos especialmente para ele. Ao fim dos três meses, recebe também um jogo, mesmo a tempo das férias.

Por regra, faremos a seleção dos livros a partir do catálogo das editoras-parceiras, mas procuraremos também surpresas em feiras e alfarrabistas.
Como parceiros desta aventura, temos:


https://www.pato-logico.com/http://www.planetatangerina.com/pthttp://www.bruaa.pt/http://orfeu-negro.myshopify.com/collections/orfeu-mini

http://serrote.com/
http://www.presenca.pt/livros/infantis-juvenis/?UDSID=%A7%A7%A7%A7001611250014200013832768%A7%A7%A7%A7http://www.kalandraka.com/pt/novidades/http://www.morapiaf.com/









Ainda aguardamos mais alguns, mas já estamos muito bem servidos, não acham?

Pensei o PACOTE para:
quem teve o primeiro filho e quer, desde já, começar a construir-lhe uma biblioteca;
quem já tem filhos, (re)conhece o papel fundamental da leitura e quer incentivá-lo;
quem está longe de Portugal mas quer garantir que os miúdos continuem — ou comecem! — a ler do melhor que há para ler em português;
quem está longe de uma boa livraria;
quem precisa de uma mão — na correria dos dias — para encontrar um bom livro;
quem quer dar um belíssimo presente a um filho, neto, sobrinho, afilhado;
quem quer construir uma boa biblioteca mas não acompanha as novidades nem se lembra dos clássicos essenciais para miúdos um pouco mais velhos;
quem toma conta duma biblioteca ou duma escola e quer assegurar que há sempre novidades;
quem quer garantir que não passa um mês sem que entrem em casa pelo menos dois grandes livros;
qualquer miúdo entre os 0 e os 14, ou graúdo que goste de livros!

A assinatura é trimestral, com portes incluídos, e inclui 6 livros (2 por mês) e 1 jogo no final dos 3 meses.

As inscrições para este primeiro trimestre terminam a 8 de janeiro, mas quem se inscrever até 15 de dezembro receberá uma xilogravura do Quem, como extra no seu primeiro PACOTE!

Depois de preencher o formulário, fazer a transferência do valor da assinatura e enviar o comprovativo, é só esperar pelo carteiro! A partir de janeiro, o PACOTE vai começar a chegar a casa e, em poucos meses, a prateleira-de-baixo de cada um irá ficando mais cheia, criando em cada criança o gosto pela leitura e o prazer de construir a sua própria biblioteca.

Sejam muito bem-vindos ao PACOTE!
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