23.5.17

Grandes Mulheres


Porque tínhamos a desculpa perfeita duma afilhada adolescente prestes a fazer anos, não resisti a mandar vir este livro, sugerido pela Paola nos seus sempre atentos comentários.



O pior é que agora acho que o livro é utilíssimo também para os meus rapazes... É que as histórias dos outros ajudam-nos muitas vezes a olhar para a nossa própria vida.



Tal como o modo de agir tem muitas vezes muito mais poder na educação do que mil discursos, um bom livro pode livrar-nos de ou levar-nos a conversas difíceis, essenciais. [A propósito disto, dia 3 de junho, estarei com a Alexandra da Nheko no Estúdio da Vila, em Cascais, a falar de Livros que nos livram].



Por isso, um livro sobre grandes mulheres pode afinal ser ideal para dar aos rapazes e não apenas para o girl empowering ou para a luta anti-princesas-cor-de-rosa.



Depois de ler sobre para quem vou enviar os livros, gosto de utilizar diferentes lógicas na formação dos pares dos meus PACOTEs. Acredito que assim tenho mais hipóteses de fazer uma escolha certa, e vou-me divertindo a fazer os pares de maneira diferente para cada dança.



Se para algumas idades de rapazes a escolha é quase sempre muito óbvia, quando chego às meninas, hesito um pouco mais. E uma das coisas que gosto de procurar é uma protagonista forte.



Ora, neste calhamaço, temos protagonistas fortes aos quilos.



As histórias reais, mas com os típicos inícios ficcionais do tipo Once upon a time ou semelhante, têm a duração da página da esquerda, enquanto à direita surge a ilustração da dama de ferro em causa.



Políticas e ecologistas, cozinheiras e cientistas, desportistas e artistas, escritoras e arquitetas; de hoje e de ontem, corajosas, curiosas e teimosas — grandes —, todas cabem neste álbum de inspiração.
As imagens são assinadas por um conjunto de ilustradoras com estilos muito diferentes e a conceção do livro foi feita por duas mulheres que convenceram meio mundo a financiar este livro.



Um espécie de yes we can feminino e essencial, porque ainda tão atual: é que há histórias que seriam impossíveis hoje depois de tantos sutiãs queimados, mas outras são perigosamente reconhecíveis ainda.



É claro que houve e há mulheres extraordinárias, tal como há e houve homens extraordinários; mas a questão é que ontem, como hoje, o caminho delas é ainda e sempre (e perdoem-me a minha veia levemente feminista) mais difícil.



Que há diferenças entre os sexos é óbvio; o que já não é tão óbvio é qual o caminho certo para não deixar que essas diferenças sejam penalizadoras e sim enriquecedoras para cada um e para todos ao mesmo tempo.



Como mãe de três rapazes, vou tentando aferir qual é a melhor maneira de os educar neste respeito pela diferença, para não ser eu, daqui a uns anos — ou as mulheres ou filhas deles, daqui a mais uns —, a segurar um sinal assim, como esta belíssima senhora, a quem até um palavrão fica bem.



Mais um para a etiqueta editem em português (e tantas expressões inglesas neste post!?...) para nosso bem, para o bem de todos, e para que sirva de inspiração às muitas miúdas que irão continuar a fazer História, a sua história.
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Good Night Stories for Rebel Girls
Particular Book, 2017
Elena Favilli & Francesca Cavallo
isbn 9780141986005
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5.5.17

sou dos livros

Hoje faço anos. Sou do tipo de pessoa que gosta de fazer anos. A quem interessa se está ou não sol quando acorda — e estava!
Já deu para ver que gosto de festejar o que quer que seja. Até o fim das férias. (A sério, experimentem e vão ter olhinhos a brilhar — inclusivamente os vossos).

Nesta prateleira, vou pondo livros que inevitavelmente me, nos, acompanham a vida.
Ainda aqui não tinha mostrado o 3º dos 3 que mandei vir a propósito de Bolonha e é com ele que hoje assinalo o meu dia.

Oliver Jeffers e Sam Winston, dois artistas apaixonados por clássicos da literatura infantil, juntaram-se para criar estas personagens (do primeiro) e também esta paisagem tipográfica (do segundo) por onde esta invocação, mais que história, vai acontecendo, homenageando mil histórias de sempre que entrelemos no desenho da paisagem.

O livro é uma espécie de ode às histórias, ao poder das histórias.
E é dela que me aproprio hoje, numa tradução livre e não autorizada, mas que é exatamente o que hoje quero deixar aqui, porque também acredito que "O mundo é feito de histórias, não de átomos", como aparece na epígrafe.

Sou uma criança dos livros. Venho dum mundo de histórias e flutuo sobre a minha imaginação.
Naveguei através dum mar de palavras, para vos perguntar se querem vir comigo.
Algumas pessoas esqueceram-se onde é que eu moro, mas junto destas palavras posso mostrar-vos o caminho.


Vamos viajar por cima de montanhas de faz de conta, descobrir tesouros na escuridão. Podemos perder-nos em florestas de contos de fadas e fugir de monstros em castelos assombrados.
Vamos dormir em nuvens de canções e gritar no Espaço tão alto quanto gostamos. Porque este é o nosso mundo, somos feitos de histórias.


A nossa casa é um lar de invenção onde qualquer um pode entrar porque a imaginação é de graça.
 
É a este cantinho de mundo que aqui construo, que vos dou as boas-vindas, como há muitos anos atrás o mundo me deu a mim.
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A child of books
Walker Books, 2016
Oliver Jeffers&Sam Winston
isbn 9781406358315
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27.4.17

Revolução

Ainda a propósito de histórias reais, levei para uma de centenas de Avenidas 25 de abril no alentejo, onde passámos o feriado, este Era uma vez o 25 de abril. Gosto de assinalar os acontecimentos do ano com um livro e, ao folhear este na livraria, fui — claro — apanhada pelo grafismo.

O livro conta a história ilustrada do 25 de abril, não tanto com ilustrações do autor, mas com as ilustrações da própria época: cartazes, autocolantes, panfeletos, fotografias. Graficamente, parece estar entre o manifesto e o documentário e o texto, uma narração na primeira pessoa, de quem viveu a revolução com 23 anos, procura ser exato e apaixonado, como se quer num historiador.

O B leu-o de rajada e confirmou que já sabia a maioria das coisas, mas também sei que gostou particularmente da descrição dos eventos feita quase hora-a-hora como se pudesse acompanhar o relato na rádio desde madrugada.

O T leu o princípio e disse que depois continuava e vai esticando a orelha para a leitura que tenho feito com o R.

A ele li só a primeira página que parece o início dum filme mas depois, e a seu pedido, temos lido duas ou três páginas por noite. Achei que se ia cansar, porque o livro não é de todo para a idade dele.

Mascarado de álbum ilustrado (que na verdade é também!) é um livro de texto longo que trata de conceitos que, embora explicados claramente, são para a cabeça de miúdos mais velhos.

Mas é que, além das ilustrações, o livro tem um trabalho de lettering engenhoso (o que me leva a falar em manifesto) e sei que foi isso e o ser qualquer coisa que o liga à realidade que cativou o R; como vai variando de ritmo, dimensão e cor, o texto torna-se ele próprio muitíssimo apelativo para ler, particularmente, para leitura partilhada em voz alta: eu leio as pequenas, ele as grandes, as de cor, as dos cartazes e as sublinhadas. E falamos de Portugal e da vida.

As histórias que ouvem sobre a revolução — muitas delas de sofrimento dum lado e de outro — ficam, com esta leitura, com uma base clara de que há histórias que se repetem e, principalmente, que há valores fundamentais que é preciso garantir.

Não é fácil explicar o que é a liberdade a estes miúdos. Ou a paz. Não é fácil — inclusivamente para mim — saber realmente o que é viver sem elas. E é das coisas que mais me impressiona nesta revolução: é que, sendo uma revolução militar à qual os civis aderiram de imediato, foi incrivelmente rápida e estranhamente pacífica. E isto depois de 48 anos de regime.

Neste ano particularmente estranho e perigoso politicamente à escala global, pareceu-me imperativo mostrar claramente (noutros anos fui pela via poética...) aos senhores da história, aos senhores do futuro —que em breve serão eles!, que as linhas com que se cose a História são, vezes de mais, as mesmas, para o bem e para o mal.

E acredito mesmo que estes Era uma vez reais, os ajudam a discernir, lenta mas muito claramente, o que é um ou o outro e a fazer a escolha pela liberdade e pela paz, sempre.
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Era uma vez o 25 de abril
Alfaguara, 2014
José Fanha
isbn 9789898775047


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21.4.17

É (também) para crianças

Finalmente fomos ver o Almada, desenhámos o Almada, agora lemos o Almada.

Quando perguntei pelo livro ilustrado pelo Almada na livraria, explicaram-me que não era para crianças. Tudo bem, disse eu, depende das crianças, pensei eu, ou dos pais da crianças, digo eu agora.

As Três histórias desenhadas, de Almada Negreiros, saíram em 1926 nos semanários Humorístico e Sempre Fixe. Na nota editorial, explica-se que a única história completa era mesmo a primeira e que, para as outras duas, o autor pretendia que o leitor colaborasse, deixando linhas para preencher por baixo dos desenhos.

O desenho como mote da narrativa, por isso. Havia até um concurso infantil, Sr. Livreiro, para o texto que acompanharia estas imagens...

Ainda não lhes passei o livro propriamente dito porque andam entretidos com as várias novidades (magníficas) que entretanto por aqui andam e com a BD, sempre sempre.

Estes pequenos contos ilustrados a linha fina e elegante que caracterizam os desenhos de Almada Negreiros, são historietas simples e humorísticas com o seu quê de fantástico ou de crítico. As três pretendiam ser um todo e o livro é de facto um livro inteiro, embora, claro, apeteça escrever nas linhas ponteadas que generosamente ou provocatoriamente o autor nos deixou.

Mas já foram espreitar o Almada à Gulbenkian e dizia-me o T (como se eu nunca tivesse dado conta e ignorasse totalmente — até porque já sei o fim da história...): "Nunca me apetece muito vir a uma exposição, mas depois gosto imenso!"
Estavam os 3 exaustos de 3 horas de futebol, patins e bicicletas nessa manhã, mas o único que dizia que já tinha visto tudo 3 minutos depois de ter entrado era o R, que se arrastava sem vontade. Então usei o truque número 3, das idas a exposições. Saquei do diário e lá ficou ele, encantado, sentado no chão do museu a desenhar.

Aguentou até ao fim, pois. Os mais velhos demoraram-se mais a ver e a escolher o que queriam desenhar ou fotografar; no fim, o B fascinado com a assinatura do mestre e o T concluindo que afinal tinha gostado muito, saímos todos fascinados mais uma vez com a genialidade deste mestre de olhos saídos para dentro do mundo.

A professora da infantil deles (outro mestre) dizia que os pais têm de ter uma visão muito clara do que querem para o seu filho. Na altura achei que aquilo devia ser importante — e por isso nunca me esqueci — mas o total significado da frase, vou assimilando devagar, à medida que eles crescem.

É que não tem a ver com moldar, proibir ou castrar escolhas ou vocações.

São pequenas grandes coisas como ter a certeza de que, levá-los a uma exposição, ainda que não seja a primeira escolha deles, é uma parte importante do seu crescimento (por dentro e por fora), como é a leitura, o futebol, os patins, a bicicleta ou mesmo o tédio bacoco.


Ao começar a ler o Cá dentro (em breve na p-d-b), ganho nova confiança nestas escolhas. E, como mãe-galinha, babo sempre com a maneira como traduzem para as suas folhas, ali no chão do museu, o que acabaram de ver e de imprimir no seu cérebro e coração.
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Três histórias desenhadas
Assírio&Alvim, 2017
Almada Negreiros
isbn 9789723719482


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14.4.17

Silêncio

Recortei estas frases do livro de Lucy:

Deus é Vida.
Deus dá a Vida.
Deus quer a Vida.
Deus ama a diferença.
Nunca ninguém viu Deus.
Todos podemos ajudar a fazer o mundo
mais bonito e cada vez melhor.
Deus criou os homens e as mulheres para serem felizes.
A nossa vida é como uma viagem.
Há algumas coisas difíceis de perceber
e alguma difíceis de fazer, mas o Espírito
de Deus dá-nos luz e força para nos 
ajudarmos uns aos outros nesta viagem.

É um livrinho pequeno, sem letras na lombada, daqueles que se perde nas prateleiras das livrarias. Na nossa prateleira tem lugar fixo para não o perder de vista. 

É discreto e magnífico, exatamente como as suas autoras. Julgo que a última vez que as encontrei juntas foi no dia de tempestade em que apresentámos o Quem na Feira do Livro. Não me esqueço disso. Lembro-me que lhes tentei agradecer convenientemente o facto de ali estarem naquele dia impossível, e acho que ainda lhes consegui agradecer este livro e o outro. Espero ter conseguido.

Não é para qualquer um, escrever um livro sobre Deus; ou ilustrá-lo. Há muito que o quero aqui pôr na prateleira, porque há muito nos acompanha, mas tenho algum pudor em falar sobre ele. As perguntas que já respondi com a sua ajuda, as orações que já aqui roubei quando estava sem forças para as fazer, não tenho — não quero, talvez — trazer para um postal.

 Há coisas assim tão delicadas e tão grandes ao mesmo tempo, que não sabemos como tocar-lhes.

A árvore que vemos nascer, crescer, mudar ao longo das páginas (apenas interrompida por duas páginas brancas que se abrem de vez em quando para nos dar a ler mais claramente uma parte do texto) está por todo o lado, aqui no campo, num esplendor de primavera de outro mundo.  Talvez por isso tenha decidido trazer o livro aqui hoje, no dia e hora do Silêncio.
 
De modo que não vou dizer muito; talvez possa só apontar como este livro é tão simples, rico, certeiro, corajoso e bonito nas palavras que o percorrem, como a terra e a água que vão da primeira à última página, sempre as mesmas, mas enchendo-se de vida.

Duma imensa riqueza, clareza e sabedoria de coração, tão raras de encontrar.
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Deus é uma pergunta
Paulinas Editora, 2009
Lucy Wainewright texto, Madalena Matoso ilustrações
isbn 9789899508408

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