19.6.19

Vaguear o verão

É hoje comummente aceite, em Educação, afirmar que os miúdos precisam de regras para se estruturarem e serem felizes.

E, embora haja esta perceção geral, ainda assistimos, diariamente e em diferentes circunstâncias, a cenas macacas, para dizer o mínimo.

Dá ideia que há muita gente com medo de educar, sem grande rumo. E a questão não está nas crianças, que são crianças, mas nos adultos que (supostamente) estão a liderar, mas que, na verdade, andam à deriva. Para lhes podermos dar espaço para que vagueiem (como só se vagueia no verão) temos primeiro lhe lhes dar o rumo. E, depois, sim, é deixá-los vaguear.

EstAs regras de verão são outras, ou talvez não.

Shaun Tan desenha um mundo reconhecível, terráqueo, palpável, mas onde os lugares, as coisas e as pessoas ganham contornos irreais e surreais.

Atrevo-me a chamar este livro de Manual Para a Interpretação de Pesadelos.

Todo o livro se constrói à volta de quadros em que, percebemos no fim,

dois irmãos vagueiam, como só se vagueia no verão.

Podia ser um livro silencioso, mas é um livro de poucas palavras. E, de facto, não é nada silencioso. Tem barulhos assustadores, música, vento. Tem calor e frio, sabor a pipocas e a sangue na boca. É como se, de repente, uma espécie de Grande Jogo de um-outro-Xadrez ganhasse vida pela mão dos seus prórpios criadores.

Um livro que é uma ode à liberdade que vem (ou espera-se que venha) com as férias, com a mudança de rotinas, com a alteração das regras que desenham os dia e às imensas possibilidades que nascem disso mesmo. (A propósito disto, vejam com eles esta curta do autor.)

O verão está a chegar. Dêem as regras aos miúdos e depois deixem-nos construir o seu próprio verão.
................................................................................................................
As regras do verão
Kalandraka, 2014
Shaun Tan
isbn 9789897490217
0

11.6.19

O tipo que veio para o chá

A prateleira-de-baixo é mesmo a prateleira de baixo cá de casa, mas, de repente, passou a ser mais que isso. Tenho por isso desculpa (como se alguma vez tivesse precisado de uma...) para trazer para casa um livro totalmente fora da idade dos miúdos aqui de casa. Será?

A propósito da recente notícia de mais um serviço de subscrição de livros infantis em Portugal (que não é o primeiro e pouco terá a ver com o que preparo, mas, ainda assim, não gostei do modo como foi apresentado como pioneiro) alguém falava sobre a pertinência de agrupar os livros por faixa etária.

Tenho organizado os livros no site por vários tipos de etiqueta e a da faixa etária ajuda pouco, porque acabo por pôr o mesmo livro em várias idades. É que, quando são mesmo bons, funcionam muito bem para diferentes idades — até à adulta! E foi por isto que trouxe O Tigre Que Veio para o Chá para a prateleira.

Por isto,  porque é um ícon da literatura anglófona (e, por isso, universal) e também porque a tradução é da Carla Maia de Almeida. Além de ser uma magnífica tradutora (que nos tem trazido muitos Sendaks pela mão da Kalandraka), é a autora do Irmão Lobo.

A primeira vez que o Tigre veio para o chá foi em 1968 e, em Portugal, apareceu pela primeira vez pela mão da Kalandraka, em 2010.

"Esta é a história de uma menina chamada Sofia,
que estava a lanchar com a mãe na cozinha.
De repente, ouviram tocar a campainha."

As ilustrações de Kerr, uma dama da literatura infantil inglesa, que morreu recentemente, fazem lembrar as da nossa também grande dama, Maria Keil. E a história, em que o Tigre é acolhido em casa e acaba por comer toda a comida que havia, obrigando o pai de família a resolver as coisas indo  todos (menos o Tigre) jantar fora, é absolutamente deliciosa.

Entre o nonsense e o surreal, a história funciona como uma enorme loucura no meio de um quotidiano estável e muito "normal". E é por isso que é tão boa. Pondo-a no contexto, claro.

É que este episódio da vida doméstica em que tudo está no seu sítio e um Tigre esfomeado acaba com as provisões familiares pode ser lido, na sua cadência ritmada, como uma história da vida doméstica dos anos 50/60. Só que não!

E esse clique — bem, e o final, — é que fazem deste livro um objeto obrigatório a ter na nossa prateleira-de-baixo-e-de-cima.
................................................................................................
O Tigre Que Veio para o Chá
Judith Kerr
Booksmile, 2018 (1ª edição 1968)
isbn 9789897074585


0

31.5.19

Why do we make pictures?

Mesmo continuando sem nunca ter ido à Feira de Bolonha, vou mantendo a tradição de encomendar um ou dois dos livros premiados a cada ano.
Este ano fiquei-me por um, porque um deles é português e já tínhamos a sorte de o conhecer há um ano e porque, bem, os miúdos estão a crescer e achei que este era o que faria sentido espreitar.

O R viu-o em cima da mesa e perguntou-me se podia lê-lo. Quando percebeu que era em inglês, pediu para que eu lho lesse.

Nas férias costumo fazer sair livros em inglês (e agora também francês) para que comecem a praticar a língua fora da escola. Quando eram mais pequenos, lia-lhes primeiro em inglês, perguntava-lhes as palavras que já conheciam e depois traduzia. As histórias eram curtinhas, as frases também e o esforço era mínimo para os benefícios que, parece-me ainda, trazia.

Mas esta história das imagens é um livro de fôlego. De maneira que quando o R me chama para mais um capítulo depois de alguns dias mais cansativos, fico meia vesga... Tenho de traduzir diretamente porque alternar as duas línguas com a tradução faria perder o fio à meada e acabo a leitura exausta!
Mas, garanto-vos, vale bem a pena.

Conheci o trabalho fotográfico de David Hockney quando entrei para Artes, no 10º ano, e lembro-me de ficar fascinada. Perdi-lhe o rasto, depois. É dele, este livro, e também do escritor e crítico Martin Gayford onde, ajudados por Rose Blake (ilustradora), contam e refletem em conjunto sobre a história das imagens, desde o tempo das cavernas aos nossos dias.

Agora vou-o lendo ao R, um pouco ao deitar, mas antes, mal chegou, li-o todo numa semana, um capítulo por noite, como se fosse a criação do Mundo.
O livro não é uma enciclopédia, mas antes uma história como deve ser a história-disciplina: uma análise, acompanhada de uma reflexão, dos acontecimentos de um determinado período, percebendo também o contexto desse período, bem como o que aconteceu antes e o que aconteceu (ou acontecerá) depois.

Os capítulos do livro não são organizados cronologicamente, mas no fim há uma linha do tempo para podermos ir tendo um noção do percurso das imagens. E não são organizados cronologicamente porque há assuntos transversais à História do Homem e à História das Imagens.

E é isso que é tão interessante neste livro: os autores escolheram uma abordagem à história a partir de uma série de perguntas e de conversas que foram tendo. O grafismo do livro reflete, aliás, as duas vozes que vão pensando alto, ou conversando, o que se pode ver pelos diferentes tipos de letra associados a cada uma das vozes (o que faz com que me pareça absolutamente desnecessário cada "fala" começar com o nome do autor).

É muito bonito ir lendo ao R os factos e os argumentos, discutindo opiniões e procurando referências que ele conheça, para chegar mais longe. As escolhas dos autores variam entre as obras primas óbvias e outras mais obscuras, passando também por usar obras suas para poder explicar por dentro alguma questão.

As últimas semanas têm sido loucas e acho que percebeu que, entretanto, o melhor era pegar sozinho no livro que lhe dei agora, na sua Primeira Comunhão.

O R parece-me ser o mais visual dos três rapazes cá de casa, de modo que bebe cada palavra e cada imagem do nosso programa de leitura com o mesmo grau de entusiasmo que eu.
Estou desejosa que as semanas acalmem um pouco para regressarmos ao poder e fascínio que são para nós as imagens.
*nota: ia pôr este livro na etiqueta editem em português, quando me apercebi que JÁ HÁ EM PORTUGUÊS pela Edicare. Aproveitem!
........................................................................................................
A History of Pictures for Children
Thames&Hudson, 2018
David Hockney&Martin Gayford texto, Rose Blake ilustrações
isbn 9780500651414



0

26.5.19

O feitiço contra o feiticeiro

Só conheci este (O) vencedor na semana passada, de maneira que não o incluí na lista de candidatos ao pacote™ eleitoral. Mas hoje, dia de eleições europeias, não resisto a pô-lo nesta montra.

Quando o lemos, lembrámo-nos imediatamente destes loucos arquitetos e também da menina-sombra. E também me lembrei da história do casal que se sentava na mesa um ao lado do outro em vez do tradicional tête-à-tête para que pudessem olhar os dois para o mesmo caminho em vez de direções opostas.

Todo o Homem tem em si o bicho da competição. Uns mais que outros, é certo. Mas todos gostam de vencer, mesmo quando não apreciam a competição.

Esta parábola silenciosa é um belíssimo recado para os políticos que a partir de hoje irão decidir o futuro deste novíssimo velho continente.

Encontro, nesta historieta, a grande história da humanidade: um momento primordial — uma espécie de pecado original —, os bíblicos Adão e Eva que se dão conta de estarem nus (ou de cuecas cor-de-rosa ou azuis...).

Depois as máscaras com que se cobrem e que depressa se transformam em bandeiras e armaduras de guerra — mais os artifícios que escolhem para vencer o outro.

Finalmente o momento em que atravessam a fronteira, a dobra da página, o vinco do mundo; o momento em que ultrapassam o limite.

Que possamos impedir-nos de criar monstros incontroláveis que, no final de contas, não servirão a ninguém e nos engolirão a todos.

Cor de rosa ou azul, será na diversidade que conseguiremos desenhar e construir uma Europa mais justa, um lugar de orgulho e de futuro para todos.
.....................................................................................................

O vencedor
Bruaá, 2019
Kjell Ringi
isbn 9789898166388



0

19.5.19

Voto vivo

Daqui a uma semana iremos às urnas.

De fora da habitual feira da campanha ficam muitas vezes os assuntos que interessam. Isso afasta muita gente da participação cívica, fazendo esquecer facilmente o privilégio que é podermos ir votar.

Nesta Eleição dos  bichos, a gota de água, ou a falta dela, foi o leão ter desviado o rio para fazer a sua própria piscina privada, privando os outros bichos do usufruto do rio. Isto fez mexer a bicharada.

Manifestaram-se, tentando chamar o leão à razão, mas ele não quis saber.

"Porquê o leão?" — é o que os outros animais da selva perguntaram. Porque é que é ele que manda?
Sejamos uma democracia, diz a sábia coruja. E explica aos outro como funciona o sistema.

Qualquer semelhança entre a realidade e esta ficção não é com certeza coincidência — há os conservadores, os progressistas, os que tentam fazer ouvir a sua voz, os que tentam comprar o voto dos outros; há debates para cada um poder apresentar o seu ponto de vista e alguns bichos a falar de assuntos que não interessam minimamente à floresta.

Sim, é assim. Mas também há gente a querer fazer bem, a trabalhar para combater injustiças, a fazer com que se caminhe, como comunidade para uma floresta mais justa.

Esta eleição veio do Brasil, (o segundo livro sobre política feito a partir de uma plataforma de financiamento coletivo e de diversas oficinas feitas com crianças), onde é urgente pensar e ensinar a democracia.

Um livro muitíssimo bem feito para mostrar às nossas crias que para mudar o mundo é preciso cada um de nós. E que às vezes, um voto faz mesmo a diferença.

Festejámos há pouco a possibilidade da Liberdade, a possibilidade de escolha, a possibilidade da democracia. Não foi pouco, não é pouco. Que não fiquemos instalados no sofá de abril.

Há demasiados exemplos assustadores à nossa volta para deixar para lá o papelinho dobrado em quatro dentro da caixa preta. A urna leva afinal uma coisa bem viva: a nossa voz.
...............................................................................................................
A eleição dos bichos
Penguin Random House, 2019
André Rodrigues, Larissa Ribeiro, Paula Desgualdo, Pedro Markun
isbn 9789896657703

0
Designed by DigitalBeautiful