22.3.17

Faço 8, sim e é de propósito*.

E bom, aqui vão 8 anos a pôr livros nesta prateleira.
Os meus miúdos estão crescidos e tornaram-se, estão a tornar-se, grandes leitores:
que bom poder agora escolher e mandar livros para outros meninos, que não são os desta casa. Que bom é imaginar outras histórias, outras ruas, outras prateleiras a ficarem cheias de tantas possibilidades, que vão sempre entre as páginas dos livros bons.
O PACOTE está aí, espalhem a notícia, não o deixem fugir!  
Este blog nasceu dum acaso e duma paixão e vai crescendo debaixo dessas duas águas dum mesmo telhado.
Há uns anos tinha visto as páginas deste livro numa exposição da Maria Keil. Ontem encontrei-o num corredor duma livraria e soube que era este o livro para assinalar a data. É o acaso iii.
Afinal, há 8 anos atrás, numa outra livraria não muito longe dali, deram-me as páginas abertas dum livro — que continuam por emoldurar — e, nesse mesmo dia, começou o prateleira-de-baixo. Já houve outro acaso, chamemos-lhe assim, de maneira que não havia mesmo como fugir a estas histórias.
O livro é datado, claro, politicamente incorreto, com certeza. Mas, ainda assim, duma modernidade avassaladora; quer no texto — que corre ao ritmo que quer, com histórias curtas ou histórias longas, histórias realistas ou do reino do fantástico, sobre a vida, sempre; quer na imagem — com pequenas vinhetas ou desenhos de página inteira, realismo ou geometria, com risco, sempre.
No nosso terraço costumam nascer uns jacintos que lá ficam por baixo da terra todo o ano e que me surpreendem sempre por esta altura.
A mesa do dia do Pai estava linda, enfeitada com uma flor amarelinha que também ali nasceu a fazer história, sem ninguém fazer nada por isso.
É que às plantas não chego, não dá para tudo. Tal como busco especialistas de flores ou do mundo, ou da música, ou dos fios, ou de desenho, espero que possam continuar a vir buscar a esta prateleira os livros extraordinários que teimam em aparecer. E, quem sabe, poderem também vir a receber ou a oferecer um PACOTE feito mesmo à medida da prateleira-de-baixo aí de casa.
*O título deste post é roubado a uma das frases que acompanham os autorretratos que Maria Keil fez aos 80 anos: "Faço 80, sim e é de propósito" que acompanha um retrato sorridente, e "Faço 80, sim mas não é de propósito" em que olha de lado, preocupada. Escolhi o sorridente, claro.
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Hoje, para se qualificarem para o sorteio, basta tornarem-se seguidores (do blog ou do Instagram) ou gostarem (do FB), e partilharem uma das publicações com um amigo (no Instagram ou no FB).
Até às 22h, do dia 22, hora de Lisboa. Os vencedores serão anunciados no Instagram e no FB do site.
Boa sorte!
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Histórias da minha rua,
texto Maria Cecília Correia, ilustrações Maria Keil
A Bela e o Monstro Edições/Raposódia Final, 2016 (1ª edição 1953, na Portugália)
s/isbn
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16.3.17

A casa-de-baixo

Vamos mudar de casa. Não é já, nem é tão cedo, mas agora que a obra de facto começou, estamos mesmo a acreditar que vai acontecer.


Vivemos, como família de 5, desde sempre aqui, no meio da cidade, no lugar mais alto da colina. É como andar de barco no rio e na cidade, ao mesmo tempo. Toda a gente dizia que uns tempos depois íamos deixar de olhar para a vista e que era uma loucura os 85 degraus que teríamos de subir: toda a gente estava errada em relação à primeira ideia; quanto à segunda nem tanto, mas quem é que está a contar?


Sempre pensámos que quando viessem meninos sairíamos daqui, mas acabei por subir 3 barrigas por estes 5 andares acima e eles aprenderam a subir escadas quase antes de saberem andar.


Era uma questão de sobrevivência.


Mudar de casa, para um criança, não é bem a mesma coisa que para um adulto. Se estão desejosos de terem mais espaço, de não haver uma gestora para a casa de banho, de poder estar um a brincar e outro a estudar sem estar a casa toda em suspenso para não nos incomodarmos uns aos outros, quando lhes falámos que isto ia acontecer, começaram por ficar em pânico: "E as nossas coisas?...", perguntavam.


A casa é um lugar totalmente concreto, mas também totalmente abstrato. Porque a casa é onde nós estamos e o que lá fazemos. Por isso a casa somos nós e são também os livros, os brinquedos, as cadeiras, os pratos e os desenhos na parede.


A diferença entre o que é a casa-construção e o que é a nossa-casa foi uma explicação que tivemos de ir dando durante uns tempos, porque de vez em quando perguntavam: "E os playmobil, vão? E aquela parede, vai? E o tapete?..."


Onde acaba o chão e onde começa o tapete não é assim tão óbvio, aparentemente. E não, o tapete não é um Kilim extraordinário ou um Arraiolos de família, mas é o campo de futebol dos playmobil, daí a sua extrema importância.


Mudar duma casa pequena mas tão cheia de histórias, assim, não é pêra-doce. Vamos para melhor, para maior. Vamos para onde haverá mais espaço para cada um e onde a vida será logisticamente muito mais fácil. Vamos de cima para baixo. Que história construiremos aí, nesse novo lugar, nessa nova casa-nossa?


Finalmente a desculpa perfeita para mostrar aqui este livro com os desenhos do mago do realismo, Roberto Inoccenti (o texto não me encanta), onde acompanhamos a vida duma casa ao longo do século XX.


Também vamos ocupar parte duma casa de família, e seremos responsáveis pela sua vida, por aquilo que vai testemunhar, pela continuação da sua história que tem de ser, — será! — memorável. E, asseguro, muito mais bonita que esta mansão!?...
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A casa
Kalandraka, 2010
texto J. Patrick Lewis, ilustrações Roberto Innocenti
isbn 9789898205353
0

10.3.17

Mana Fula

It takes a village to raise a child é o título do último capítulo dum livro muitíssimo interessante que acabei de ler: Parenting around the world. De facto, depois de estarmos tantos numa mesma casa, a partilhar refeições, passeios, brincadeiras, jogos, leituras, músicas, colos e serões, é bastante estranho regressar a esta célula familiar que, embora classificada oficialmente como "família numerosa", parece agora tão pequena.
Regressámos à cidade e passei vários dias a achar que estava a ouvir o choro dum bebé. Foi bom regressar, mas dum lado e doutro dos primos — e não só —, há relatos de saudades.
A verdade é que a T não chora assim tanto, mas é o que basta para ligar as campainhas de quem está por perto e, por isso, andei vários dias a achar que a estava a ouvir. Já o E, quando a ouvia chorar dizia "A mana tá fula", numa dicção muito cómica. Manafula entrou assim direitinho para o top do rol de nomes que chamo aos meus filhos.
Joana Estrela venceu um concurso, no ano passado, organizado pela Câmara Municipal de Serpa e pela Planeta Tangerina com este livro. E que belíssimo livro.
É a irmã mais velha, quem fala, e para escrever este postal, fui tentar confirmar se a Joana tinha uma irmã: a última entrada da primeira página do seu site chama-se storyboard for my sister’s film... Pois, confirma-se. É que, pensava eu, o texto é tão certeiro, que só mesmo tendo uma irmã!
As ilustrações são especiais, não as acho parecidas com nenhumas outras que conheça. Gosto de sentir a autoria num desenho. A ligação das cores sólidas dos fundos com os desenhos mais lineares é muito elegante e a intrusão das asneiras (também) gráficas da irmã mais nova, muitíssimo divertida.
O livro que hoje ponho na prateleira está esgotado. Tentei em vão enviá-lo em vários PACOTES onde ficaria perfeito. Espero que esteja na lista dos "a reimprimir", não vão querer perder isto.
Para dizer a verdade, aconteceu-me o mesmo com imensos livros com que queria muito inaugurar a prateleira-de-baixo de vários meninos. Livros fundamentais, esgotados, sem data de reimpressão. É terrível pensar que a geração do E e da T poderá não ter acesso a várias pérolas que ajudaram, ajudam, a fazer a história dos meus miúdos. Este é um deles.
Até inaugura aqui uma nova etiqueta (com esta cara muito fula, mas cheia de esperança):  reimprimam, por favor!
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Mana
Planeta Tangerina, 2016
Joana Estrela
isbn 978989814572
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28.2.17

O que faz um clássico?

Aqui na quinta o tempo corre devagar.

Com sobrinhos bebés pela casa, assistimos a inversões de papéis e revivemos fases. O E também é viciado em livros e arrasta-os pela casa enquanto diz A mãe conta, o pai conta, o tio conta, o R conta. E o R conta. É a imagem do dia: estranharmos o silêncio dos mais pequenos e irmos encontrar o R a ler e o E a ouvir.

Mais tarde aparece-me de livro em punho, com um ar entre o orgulhoso e o cansado, a queixar-se que o E lhe pede a história toda outra vez mal a acaba de ler. É, não é?... Bem-vindo ao clube!
Ensinei-o a dizer que "amanhã continua" e ele diz-lhe que "acabou o capítulo". E o E arrasta o livro até outro potencial leitor.


Um dos livros que por aqui anda é um americano que o tio trouxe de NY: enquanto vagueava meio perdido pela livraria hesitando no que trazer ao seu recém-primogénito, uma nice lady pediu desculpa pela intromissão e sugeriu-lhe um clássico americano. Um livro dos anos 40 que encantou gerações. 


Temos cada vez mais acesso a livros que fizeram a infância de várias gerações anglófonas, muito graças a casas como a Bruaá, a Orfeu e a Kalandraka. O hashtag editem em português vai sendo escasso nesta prateleira, o que é mesmo muito bom sinal. Mas este ainda não há cá em português e, pelo grau de satisfação que vejo no meu sobrinho, a lady in new york tinha mesmo razão: it's a classic!

A receita é simples: dizer boa noite a todas as coisas do quarto, antes de ir dormir.
Graficamente o livro é muito arrojado. As páginas coloridas do quarto vão intercalando com páginas a preto e branco com zooms dos vários objetos do quarto. As rimas e as repetições puxam o sono e as cores do quarto vão ficando cada vez menos brilhantes, cada vez mais escuras.


A lua vai passando nas janelas enquanto o coelhinho ouve o chhhh — que aqui é hush — da avó que tricota, e vai dizendo boa noite ao relógio e ao rato, às cadeiras e à escova, a ninguém e ao ar, às estrelas e à lua.
O coelho — que para o E é a encarnação do seu próprio boneco de peluche — demora nem mais nem menos do que 50 minutos a adormecer!?... Uma enormidade comparados com o 5 do E. 

Aqui na quinta o tempo corre devagar. 


Com os 2 sobrinhos bebés já a dormir e os 3 filhos a ler na cama, também nós lemos na sala cada vez mais escura, cada vez menos brilhante, enquanto a avó tricota e a lua passa lá fora, duma janela para a outra.
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Goodnight Moon
Harper Collins, 2005 (1ª edição 1947)
Margaret Wise Brown texto, Clement Hurd ilustrações
isbn 9780060775858
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16.2.17

os escanfandristas

E temos mais uma nova aquisição nos parceiros do PACOTE! A POLVO é uma pequena editora que tem este grande livro: Jim curioso.

Já seguiu em alguns dos PACOTEs deste mês e tenho a certeza que vai despertar curiosidade e criar furor. Aqui, até mesmo o contido adolescente de serviço usou ahs!... e ohs!...

 quando pôs os óculos e mergulhou no oceano.

 Um livro cheio de histórias, sem nenhum palavra.

 Lá dentro vêm não um, mas dois pares de óculos, para que a experiência possa ser partilhada (já sei que houve guerras de óculos com a chegada deste a algumas casas!...).

 O chato é que não consigo mostrar aqui o que se vê exatamente com os óculos, porque os nossos olhos funcionam em conjunto e, neste caso, sobrepor a lente azul e a vermelha não dá o mesmo resultado que cada olho ter o filtro de sua cor. Por isso têm mesmo de experimentar. É que com os óculos passamos a ver esta espécie de BD muda a três dimensões e toda a experiência de mergulho passa a ser mais incrível!
Não é uma aventura meiga, Jim não encontra só coisas maravilhosas neste seu mergulho. Começa, aliás, por dar de caras com um monte de lixo e só depois acede às maravilhas das profundezas.

Um livro-jogo, um livro-viagem, um livro-lição, um livro-filme-mudo ou não assim tão mudo: para mim tem esta canção do mestre Chico como banda sonora e imagino Jim a inventar uma cidade submersa ao som do violão.

No final da viagem dá-se uma reviravolta num turbilhão dum redemoinho
 
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

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Jim curioso
Polvo, 2014
Matthias Picard
isbn 9789898513199
0

9.2.17

T.—<:, a grafia do riso?

O nome e o logotipo não podiam ser melhores e a notícia do aparecimento duma revista infantil assim, como é esta Triciclo, é mesmo uma alegria.

Há uns anos, tivemos a Pepino, um projeto totalmente diferente, mas igualmente interessante, que acabou por desaparecer. Pelo sucesso de abertura desta Triciclo, que esgotou em pouco mais de uma hora no dia do lançamento, espero sinceramente que não venha a ter o mesmo futuro. Eu encomendei a tempo a minha cópia, por isso aqui a temos.
Quando mandei as fotografias à mãe do amigo T do R para lhe mostrar o que estavam a fazer juntos cá em casa, ela perguntou-me que livro lindo era aquele. Este Triciclo não é um livro nem um brinquedo, é uma revista. Mas até tem livros dentro, livros-referência, livros magníficos.

A Triciclo é pensada e desenhada por 3 designers e isso vê-se. Impressa em risografia (não é bem a grafia do riso, mas quase), o aspeto das imagens é imperfeito e lindíssimo. Este número é de atividades, de modo que o R e o amigo T estiveram ontem em atividade, acompanhando o André.
A coisa está organizada em 24 páginas — duas por cada hora da vida num dia do André — e é claro que o nome André André (para quem não sabe, é mesmo o nome dum futebolista), veio à baila na página que deviam encher com palavras começadas por A. Foi bonito ver o R a lembrar-se de Amizade e Alegria, ou o T a lembrar-se do nome da irmã, ou como vibraram com a palavra arco-íris, naquela tarde em que, depois dum dia de chuva a sério, o sol voltou e eles puderam ir enlamear-se para o jardim antes de virem para casa.

 Na escola do R e do T, o método de leitura e escrita é misto; quer isto dizer que, na leitura, é uma mistura do global com o fonético e que, na escrita, os alunos começam por aprender e desenhar as letras em script e só depois passam para a letra pegada, vulgo cursiva. Ora isto dá uma enorme liberdade poética, digamos assim, no desenho das letras.


A lógica por trás desta ideia é que a letra script é mais simples de desenhar e de reconhecer e, ao mesmo tempo, treina já as direções e as curvas que fazem parte da cursiva. Isso faz com que a abordagem à leitura e à escrita seja mais rápida, mais fácil e resulte num enorme sucesso pois, melhor ou pior, os miúdos chegam ao Natal a ler e a escrever.

Num recreio, há umas semanas, o R escreveu esta carta-história e trouxe-a para casa, cheio de orgulho. Já está tudo lá, até — e principalmente — o prazer de ler e escrever.
Assim, é claro que, na página em que era suposto identificar os meninos do 1º e do 2º ano consoante aquilo que já sabem fazer, alegavam os dois que o menino que escrevia a composição era do 1º, porque, diziam-me, "nós também já escrevemos".

Na altura do B, questionei o porquê de passarem para a letra pegada. Parecia-me penoso fazer tanta curva e contracurva e afinal os nossos amigos anglo-saxónicos escrevem todos em script. A explicação que me foi dada deixou-me desarmada e convicta: a letra cursiva permite que cada miúdo consiga construir a sua própria letra, é um tipo de letra pessoal, e isso, disseram-me, é um grande valor na formação da criança.

Ainda há muitas páginas para preencher, algumas bem difíceis. Andámos todos de nariz na revista para os ajudar a encontrar palavras na sopa de letras, ou a encaixar frações de imagens minúsculas!

Mas eram horas do banho (ou da barrela, se preferirem)
e da sopa de letras, ups!, de couves.
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Triciclo nº1
Triciclo Editora, 2017
Ana Braga, Inês Machado e Tiago Guerreiro
para reservarem o vosso número (ou fazerem a assinatura anual de 2 números) usem o instagram ou o FB ou o email (tricicloeditora@gmail.com) da revista

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