16.2.17

os escanfandristas

E temos mais uma nova aquisição nos parceiros do PACOTE! A POLVO é uma pequena editora que tem este grande livro: Jim curioso.

Já seguiu em alguns dos PACOTEs deste mês e tenho a certeza que vai despertar curiosidade e criar furor. Aqui, até mesmo o contido adolescente de serviço usou ahs!... e ohs!...

 quando pôs os óculos e mergulhou no oceano.

 Um livro cheio de histórias, sem nenhum palavra.

 Lá dentro vêm não um, mas dois pares de óculos, para que a experiência possa ser partilhada (já sei que houve guerras de óculos com a chegada deste a algumas casas!...).

 O chato é que não consigo mostrar aqui o que se vê exatamente com os óculos, porque os nossos olhos funcionam em conjunto e, neste caso, sobrepor a lente azul e a vermelha não dá o mesmo resultado que cada olho ter o filtro de sua cor. Por isso têm mesmo de experimentar. É que com os óculos passamos a ver esta espécie de BD muda a três dimensões e toda a experiência de mergulho passa a ser mais incrível!
Não é uma aventura meiga, Jim não encontra só coisas maravilhosas neste seu mergulho. Começa, aliás, por dar de caras com um monte de lixo e só depois acede às maravilhas das profundezas.

Um livro-jogo, um livro-viagem, um livro-lição, um livro-filme-mudo ou não assim tão mudo: para mim tem esta canção do mestre Chico como banda sonora e imagino Jim a inventar uma cidade submersa ao som do violão.

No final da viagem dá-se uma reviravolta num turbilhão dum redemoinho
 
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

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Jim curioso
Polvo, 2014
Matthias Picard
isbn 9789898513199
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9.2.17

T.—<:, a grafia do riso?

O nome e o logotipo não podiam ser melhores e a notícia do aparecimento duma revista infantil assim, como é esta Triciclo, é mesmo uma alegria.

Há uns anos, tivemos a Pepino, um projeto totalmente diferente, mas igualmente interessante, que acabou por desaparecer. Pelo sucesso de abertura desta Triciclo, que esgotou em pouco mais de uma hora no dia do lançamento, espero sinceramente que não venha a ter o mesmo futuro. Eu encomendei a tempo a minha cópia, por isso aqui a temos.
Quando mandei as fotografias à mãe do amigo T do R para lhe mostrar o que estavam a fazer juntos cá em casa, ela perguntou-me que livro lindo era aquele. Este Triciclo não é um livro nem um brinquedo, é uma revista. Mas até tem livros dentro, livros-referência, livros magníficos.

A Triciclo é pensada e desenhada por 3 designers e isso vê-se. Impressa em risografia (não é bem a grafia do riso, mas quase), o aspeto das imagens é imperfeito e lindíssimo. Este número é de atividades, de modo que o R e o amigo T estiveram ontem em atividade, acompanhando o André.
A coisa está organizada em 24 páginas — duas por cada hora da vida num dia do André — e é claro que o nome André André (para quem não sabe, é mesmo o nome dum futebolista), veio à baila na página que deviam encher com palavras começadas por A. Foi bonito ver o R a lembrar-se de Amizade e Alegria, ou o T a lembrar-se do nome da irmã, ou como vibraram com a palavra arco-íris, naquela tarde em que, depois dum dia de chuva a sério, o sol voltou e eles puderam ir enlamear-se para o jardim antes de virem para casa.

 Na escola do R e do T, o método de leitura e escrita é misto; quer isto dizer que, na leitura, é uma mistura do global com o fonético e que, na escrita, os alunos começam por aprender e desenhar as letras em script e só depois passam para a letra pegada, vulgo cursiva. Ora isto dá uma enorme liberdade poética, digamos assim, no desenho das letras.


A lógica por trás desta ideia é que a letra script é mais simples de desenhar e de reconhecer e, ao mesmo tempo, treina já as direções e as curvas que fazem parte da cursiva. Isso faz com que a abordagem à leitura e à escrita seja mais rápida, mais fácil e resulte num enorme sucesso pois, melhor ou pior, os miúdos chegam ao Natal a ler e a escrever.

Num recreio, há umas semanas, o R escreveu esta carta-história e trouxe-a para casa, cheio de orgulho. Já está tudo lá, até — e principalmente — o prazer de ler e escrever.
Assim, é claro que, na página em que era suposto identificar os meninos do 1º e do 2º ano consoante aquilo que já sabem fazer, alegavam os dois que o menino que escrevia a composição era do 1º, porque, diziam-me, "nós também já escrevemos".

Na altura do B, questionei o porquê de passarem para a letra pegada. Parecia-me penoso fazer tanta curva e contracurva e afinal os nossos amigos anglo-saxónicos escrevem todos em script. A explicação que me foi dada deixou-me desarmada e convicta: a letra cursiva permite que cada miúdo consiga construir a sua própria letra, é um tipo de letra pessoal, e isso, disseram-me, é um grande valor na formação da criança.

Ainda há muitas páginas para preencher, algumas bem difíceis. Andámos todos de nariz na revista para os ajudar a encontrar palavras na sopa de letras, ou a encaixar frações de imagens minúsculas!

Mas eram horas do banho (ou da barrela, se preferirem)
e da sopa de letras, ups!, de couves.
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Triciclo nº1
Triciclo Editora, 2017
Ana Braga, Inês Machado e Tiago Guerreiro
para reservarem o vosso número (ou fazerem a assinatura anual de 2 números) usem o instagram ou o FB ou o email (tricicloeditora@gmail.com) da revista

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1.2.17

Enfiar a carapuça

E damos as boas-vindas a mais uma editora-parceira do PACOTE!


Os Livros Horizonte quiseram juntar-se à prateleira-de-baixo e dei-lhes as boas vindas, até porque já por aqui tínhamos alguns favoritos: a fabulosa Maria Keil, um livro sem palavras de ficar sem palavras, um livro altamente provocador e politicamente incorreto, uma pérola que dei a uma amiga quando teve as gémeas e que adoraria voltar a ter na nossa prateleira, um livro todos os dias importante, cada vez mais, diria até.


Alguns dos segundos PACOTEs já vão ter livros desta nova casa-amiga e não resisto hoje a pôr este aqui na prateleira, até porque um pouco de auto-ironia faz sempre bem. O livro é uma novidade, o assunto não.

Ora, Pedro, este texugo — podia ser uma texuga, vá... eu enfio a carapuça — arrumava e organizava, era um fã de limpezas, lá para os lados da floresta profunda. A sua mania da organização leva-o a um tal ponto que acaba por matar aquilo de que mais gosta, a sua própria floresta.


E, bem, não quero aqui penitenciar-me pelo meu excesso de organização, mas, pronto, padeço desse mal. E é claro que me permite fazer um milhão de coisas em vez de só meio milhão, mas a verdade é que talvez estivesse feliz com esse meio milhão e não enfernizasse tanto as criaturas à minha volta: pássaros, raposas, coelhos ou família, amigos, alunos.


Não me consigo imaginar a dar a volta de 180º como fez o Pedro, mas confesso aqui publicamente o meu esforço sincero de "deixar para lá" mais vezes.


Nunca tinha posto um livro da Emily Gravett, uma premiadíssima autora britânica, e tenho alguma pena que alguns pormenores do lettering do livro na edição portuguesa não estejam perfeitos como o objeto merecia. É que além de hiper-organizada, também sou hiper-crítica.


A nossa casa não é uma floresta, é bem mais pequena, e muitas vezes perguntam-me como consigo — conseguimos — organizar-nos. Viver em pouco espaço cria um enorme sentido de respeito pelos outros, pelo sono dos outros, pelo espaço dos outros e dá muitos choques, é claro.


E lá anda a texuga a arrumar, a organizar, a mandar (enquanto este post ficou a marinar, ainda fiz um quinoto de abóbora, abacate, gengibre e avelã mesmo a condizer com as ilustrações, mais uma sopa tailandesa para o jantar)


e lá andam os pássaros, raposas, coelhos cheiinhos de paciência e boa vontade a fazerem desta floresta um belo lugar para viver.
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Arrumado
Livros Horizonte, 2017
Emily Gravett
isbn 9789722418270

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27.1.17

Mandei-te uma carta

Sinto-me hoje um pouco como o Sr. Costas, o carteiro da ilha: de saco à costas e carrinho pela mão, lá vou eu pelas rua da cidade até aos correios, para enviar PACOTEs.

Ainda faltam alguns; as transportadoras atrasaram-se, a morada ficou ilegível, nem sei, coisas que acontecem. O certo é que tenho uma série de pacotes de boca aberta, ali à espera de mais um livro, para depois os selar, passar o cordel em volta e enviar.

É engraçado este ritual de enviar livros. Com um estatuto especial de envio, os livros têm de ser acomodados segundo determinadas regras, como coisa preciosa.
1. Devem ir protegidos — haverá por aí carteiros menos cuidadosos que o Sr. Costas — e há viagens longas, para o outro lado do mundo, mesmo!

2. Devem ir identificados como LIVROS, para que não haja dúvidas de que ali viaja coisa importante.

3. A embalagem tem de poder ser espreitada pelos serviços. Imagino um funcionário dos CTT, mais dado à literatura, ou só mais curioso, a abrir um PACOTE para o inspecionar e a deixar pilhas de avisos das Finanças ou outro correio assim bem chato por tratar, porque se distraiu a ler um belíssimo livro. Imagino-o depois a chegar a casa ao fim do dia e a contar uma história ao filho, enquanto lhe descasca uma tangerina, uma história que ouviu hoje lá no trabalho. E imagino o miúdo a olhá-lo de olhos esbugalhados com as mãos cheias daquele cheiro bom.

4. Têm de levar um cordel à volta. Ora, toda a gente sabe que os livros têm asas. Até o Gabinete para a Definição dos Procedimentos de Embalagem dos CTT. Há que amarrá-los para que cheguem ao destino e possam depois levar a voar o senhor Destinatário. Ou então é só para o pacote se poder fechar outra vez se for aberto, mas inclino-me mais pela teoria das asas.

É o último dia de trabalho do Sr Costas, ele que leva as boas e as más notícias, as imagens e as palavras a todos os lugares da ilha. Mas, nesse último dia, ninguém espera por ele à porta e as cartas lá deslizam por baixo das portas.
O Sr. Costas está nostálgico, dececionado até. Mas uma última carta ficou por entregar e não há como escapar a mais uma ida ao outro lado da ilha. Não pode falhar, as cartas são importantes.

Também aqui me sinto como o Sr. Costas: o PACOTE é importante e faço tudo para não falhar. Ainda não comecei com pesadelos, mas sei que virão aí: livros perdidos, moradas erradas, nomes trocados, enfim. Errar é humano, eu sei, mas gosto é de imaginar muitos meninos por aí de olhos esbugalhados, cujas mãos cheirem a tangerinas, mirtilos, lichies ou a manga.

Os PACOTES vão, como as cartas do Sr. Costas, para lugares muito próximos (Lisboa e Barreiro), outros já mais afastados (Caldas da Rainha e Pousos), outros lá em cima ou lá em baixo (Porto e Arcozelo, Portimão e Fundão); uns vão para outras ilhas (Açores e Madeira) e outros ainda fazem viagens loucas além fronteiras: Espanha, França, Holanda, Suíça, Suécia, Alemanha, EUA, Brasil, Singapura, Macau e Índia.
gracias e meninos de olhos esbugalhados escrevem cartazes de Obrigado.
No final da ilha, o Sr. Costas encontra as suas gentes em festa para lhe agradecer. Os cabelos enrolam-se e desenrolam-se em gracias e meninos de olhos esbugalhados escrevem cartazes a dizer Obrigado.

Quanto a mim, eu é que vos agradeço por poder ser um bocadinho como o Sr. Costas: o PACOTE é mesmo uma grande festa!
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Uma última carta
Kalandraka, 2016
Antonis Papatheodoulou texto, Iris Samartzi ilustração
isbn 9788484642718 
 


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20.1.17

Cidadãos

Um dia estranho este:
 o impensável acontece e o mundo pasma, mais ou menos assustado, com a notícia do dia que promete ondas de choque por muito muito tempo.

A propósito da notícia do dia, a propósito dum artigo que li, a propósito da questão israelo-palestiniana que o B resolveu levantar no jantar de terça-feira (!?...), junto aqui estes dois livros duma coleção que apareceu no final do ano passado, trazida dos idos anos 70.

São mais uma novidade com barbas que em boa hora conhece uma edição em português, com ilustrações contemporâneas no conceito,  mas com um cheirinho vintage na aparência. Foram para os sapatinhos de cada um dos dois mais velhos, no Natal, não sem que ambas as Avós comentassem que os livros tinham de "ser explicados" ou que eram "um bocado puxados".

São livros para os mais novos, sobre assuntos sérios — muito sérios —, por vezes duros, crus e muito difíceis.

Politicamente incorretos, ou não, depende do ponto de vista. O verdadeiramente assustador, digo eu, é que há demasiadas coisas que estão absolutamente na ordem do dia e outras que parecem retrógradas mas que continuam afinal, disfarçadamente, exatamente iguais, talvez pior. E como dar a volta a isto?

Temos miúdos em casa, temos o futuro por ali a fazer simulações de basquete pela casa, a ler pelos cantos, a cantar Sprinsgteen. Temos obrigações para com eles e para com o futuro.

Se me revejo totalmente na criatura a fazer yoga ali no pedestal dos 40,

não quero educar os meus filhos para serem o homem do bigode.

É bom fazer com eles o questionário que aparece no fim dos livros.

É bom que hesitem nas respostas porque há a resposta ao que é de facto e ao que devia ser.

É bom que se choquem um pouco, apenas o suficiente, para não se calarem perante as injustiças, para tentarem mudar o que está mal,

para lutarem com as mulheres e não contra elas por aquilo que é justo, para quererem pegar nas rédeas e guiar o cavalo para o melhor destino possível.

O R ouviu falar de homens-bomba ao jantar, pois é, mas reconheceu a palavra Síria e falou com os olhos a brilhar da menina daquele país que receberam na sua escola e foi percebendo a verdadeira diferença entre as duas palavras de cinco letras Obama e Trump;

o T ouviu com atenção a parte do discurso de despedida do primeiro que lhe mostrámos, onde a importância da palavra Cidadão foi sublinhada, bem como a confiança no trabalho da geração incrível que aí vem, a deles;

o B foi aprendendo a argumentar e a ouvir na discussão, treinando ao mesmo tempo a capacidade de escuta e a defesa daquilo em que se acredita, que precisam tanto de peso, conta e medida.

Há momentos assim no quotidiano dum jantar de semana, em que de repente crescem todos 5 cm ali mesmo à frente dos nossos olhos, e é incrível.
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As mulheres e os homens
Orfeu negro, 2016
Equipo Plantel texto, Luci Gutiérrez ilustrações
isbn 9789898327772

 


Há classes sociais
Orfeu negro, 2016
Equipo Plantel texto, Joan Negrescolor, ilustrações
isbn 9789898327765
































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