21.4.17

É (também) para crianças

Finalmente fomos ver o Almada, desenhámos o Almada, agora lemos o Almada.

Quando perguntei pelo livro ilustrado pelo Almada na livraria, explicaram-me que não era para crianças. Tudo bem, disse eu, depende das crianças, pensei eu, ou dos pais da crianças, digo eu agora.

As Três histórias desenhadas, de Almada Negreiros, saíram em 1926 nos semanários Humorístico e Sempre Fixe. Na nota editorial, explica-se que a única história completa era mesmo a primeira e que, para as outras duas, o autor pretendia que o leitor colaborasse, deixando linhas para preencher por baixo dos desenhos.

O desenho como mote da narrativa, por isso. Havia até um concurso infantil, Sr. Livreiro, para o texto que acompanharia estas imagens...

Ainda não lhes passei o livro propriamente dito porque andam entretidos com as várias novidades (magníficas) que entretanto por aqui andam e com a BD, sempre sempre.

Estes pequenos contos ilustrados a linha fina e elegante que caracterizam os desenhos de Almada Negreiros, são historietas simples e humorísticas com o seu quê de fantástico ou de crítico. As três pretendiam ser um todo e o livro é de facto um livro inteiro, embora, claro, apeteça escrever nas linhas ponteadas que generosamente ou provocatoriamente o autor nos deixou.

Mas já foram espreitar o Almada à Gulbenkian e dizia-me o T (como se eu nunca tivesse dado conta e ignorasse totalmente — até porque já sei o fim da história...): "Nunca me apetece muito vir a uma exposição, mas depois gosto imenso!"
Estavam os 3 exaustos de 3 horas de futebol, patins e bicicletas nessa manhã, mas o único que dizia que já tinha visto tudo 3 minutos depois de ter entrado era o R, que se arrastava sem vontade. Então usei o truque número 3, das idas a exposições. Saquei do diário e lá ficou ele, encantado, sentado no chão do museu a desenhar.

Aguentou até ao fim, pois. Os mais velhos demoraram-se mais a ver e a escolher o que queriam desenhar ou fotografar; no fim, o B fascinado com a assinatura do mestre e o T concluindo que afinal tinha gostado muito, saímos todos fascinados mais uma vez com a genialidade deste mestre de olhos saídos para dentro do mundo.

A professora da infantil deles (outro mestre) dizia que os pais têm de ter uma visão muito clara do que querem para o seu filho. Na altura achei que aquilo devia ser importante — e por isso nunca me esqueci — mas o total significado da frase, vou assimilando devagar, à medida que eles crescem.

É que não tem a ver com moldar, proibir ou castrar escolhas ou vocações.

São pequenas grandes coisas como ter a certeza de que, levá-los a uma exposição, ainda que não seja a primeira escolha deles, é uma parte importante do seu crescimento (por dentro e por fora), como é a leitura, o futebol, os patins, a bicicleta ou mesmo o tédio bacoco.


Ao começar a ler o Cá dentro (em breve na p-d-b), ganho nova confiança nestas escolhas. E, como mãe-galinha, babo sempre com a maneira como traduzem para as suas folhas, ali no chão do museu, o que acabaram de ver e de imprimir no seu cérebro e coração.
..........................................................................................................
Três histórias desenhadas
Assírio&Alvim, 2017
Almada Negreiros
isbn 9789723719482


0

14.4.17

Silêncio

Recortei estas frases do livro de Lucy:

Deus é Vida.
Deus dá a Vida.
Deus quer a Vida.
Deus ama a diferença.
Nunca ninguém viu Deus.
Todos podemos ajudar a fazer o mundo
mais bonito e cada vez melhor.
Deus criou os homens e as mulheres para serem felizes.
A nossa vida é como uma viagem.
Há algumas coisas difíceis de perceber
e alguma difíceis de fazer, mas o Espírito
de Deus dá-nos luz e força para nos 
ajudarmos uns aos outros nesta viagem.

É um livrinho pequeno, sem letras na lombada, daqueles que se perde nas prateleiras das livrarias. Na nossa prateleira tem lugar fixo para não o perder de vista. 

É discreto e magnífico, exatamente como as suas autoras. Julgo que a última vez que as encontrei juntas foi no dia de tempestade em que apresentámos o Quem na Feira do Livro. Não me esqueço disso. Lembro-me que lhes tentei agradecer convenientemente o facto de ali estarem naquele dia impossível, e acho que ainda lhes consegui agradecer este livro e o outro. Espero ter conseguido.

Não é para qualquer um, escrever um livro sobre Deus; ou ilustrá-lo. Há muito que o quero aqui pôr na prateleira, porque há muito nos acompanha, mas tenho algum pudor em falar sobre ele. As perguntas que já respondi com a sua ajuda, as orações que já aqui roubei quando estava sem forças para as fazer, não tenho — não quero, talvez — trazer para um postal.

 Há coisas assim tão delicadas e tão grandes ao mesmo tempo, que não sabemos como tocar-lhes.

A árvore que vemos nascer, crescer, mudar ao longo das páginas (apenas interrompida por duas páginas brancas que se abrem de vez em quando para nos dar a ler mais claramente uma parte do texto) está por todo o lado, aqui no campo, num esplendor de primavera de outro mundo.  Talvez por isso tenha decidido trazer o livro aqui hoje, no dia e hora do Silêncio.
 
De modo que não vou dizer muito; talvez possa só apontar como este livro é tão simples, rico, certeiro, corajoso e bonito nas palavras que o percorrem, como a terra e a água que vão da primeira à última página, sempre as mesmas, mas enchendo-se de vida.

Duma imensa riqueza, clareza e sabedoria de coração, tão raras de encontrar.
.........................................................................................
Deus é uma pergunta
Paulinas Editora, 2009
Lucy Wainewright texto, Madalena Matoso ilustrações
isbn 9789899508408

0

10.4.17

Museologia

Enquanto o B classificava árvores e arbustos com a Avó e o T e o primo exploravam sozinhos a quinta, demos hoje um grande passeio — eu, o R e a V, como há 3 anos atrás. Ia-lhes chamando a atenção para as cores das flores, as formas das folhas, o tamanho das árvores, o cheiro do campo e, quando dei conta, tinham começado uma coleção.

É inato, parece, este ato de colecionar, de recolher e guardar: eu coleciono pedras e bules; colecionei borrachas, em miúda, uma preciosidade que guardo religiosamente para uma neta. No fim de cada verão guardamos uma caixa com as conchas que vamos recolhendo todos os dias. O B tenta fazer uma coleção de garrafas que não encorajo, por causa da falta de espaço e, patrocinados pelos avós, sempre cromos de futebol.

Enfim, depressa reunimos as peças suficientes no nosso passeio para uma exposição. Fizeram o projeto expositivo e a montagem nos degraus de granito e trabalharam nos cartazes; a exposição foi um sucesso!

E este livro que hoje aqui trago é uma ode aos museus, mas também uma ode ao ato de colecionar. Ao museu que cada um constrói, à sua própria vida.
Há uns anos, de visita a Paris com os Avós e os dois mais velhos (na altura com 1 e 3 anos) fomos visitar vários museus. Como era uma coisa que fazíamos já com os meus pais quando ainda não havia crianças, mantivemos a ida às mostras que nos interessavam, desta vez levando-os.

Foi numa dessas visitas que aprendi realmente a levar miúdos a exposições. Há exposições mais cativantes que outras e a velocidade a que vemos as salas não é a mesma, claro, mas desde pequenos que nos acompanham e os truques que aprendi nesse pequeno museu há 9 anos atrás, têm sido utilíssimos na conquista das salas de exposição por estas bandas. Hoje em dia temos já alguns Serviços Educativos bastante bons, mas fazer esta afirmação há 9 anos atrás não era assim tão seguro. E foi por isso que, na altura, achei aquela folha A4 uma coisa extraordinária.

Não era nada de exuberante em si, mas as pistas que apontava para ajudar os miúdos a envolverem-se com o que estava exposto, a interrogarem-se, a procurarem, a saberem apreciar, tenho-as usado muitas vezes ao longo dos anos. De modo que agora, quando entramos na sala dum museu, eles espalham-se (já podem andar à solta) e regressam pouco depois para dizerem quais são as coisas preferidas naquela sala, um dos truques que aprendi.

Outra dica engraçada é olhar rapidamente para a sala e tentar vislumbrar alguma coisa que, sabemos, lhes vai interessar: um cavaleiro, uma faca, um cacho de uvas, um chapéu, uma roda, uma cor específica e chamar-lhes a atenção para isso. Os mais pequenos ficam encantados por reconhecerem objetos ou personagens.
Quando sabemos que são exposições onde vamos querer estar mais tempo do que eles aguentam (embora eu também não aguente muito) levamos os diários gráficos e eles ficam a desenhar uma das peças da exposição que os tenha interessado.

São três dicas simples que funcionam sempre, até ao dia em que eles próprios já pegam na folha de sala, fazem perguntas sobre qualquer coisa que está escrita na parede ou pedem para ir a uma exposição específica, normalmente mais científica que artística...

Este The Museum of Me percorre os museus duma cidade (Londres, Paris, NY...) para tentar explicar o que é um museu e que um museu é uma coisa fascinante. E não é mesmo? Mas também que um museu podemos ser nós próprios e o mundo que criamos à nossa volta.

Poderíamos até chamar-lhe um livro de atividades: nas páginas do fim, há espaço para poderem adivinhar de onde serão algumas peças apresentadas, desenharem outras, proporem um museu de alguma coisa, ou dizerem o que colecionam.

As flores que colecionámos já voaram com o vento quente que por aqui andou a varrer, ao pôr do sol.

Restam os cartazes na porta, a lembrar-nos de olhar para cada coisa (e para nós próprios) com a atenção que devotamos a uma obra de arte, mesmo que seja apenas uma flor do campo.
..............................................................................
The Museum of Me
Tate, 2016
Emma Lewis
isbn 9781849764148 
0

5.4.17

Sou aquilo que faço com as minhas mãos

E bem, estou em Lisboa e não em Bolonha, onde queria estar esta semana. Ainda não é desta, mas um dia irei à minha disneyland, acredito.
Vou seguindo ao longe os livros escolhidos e selecionei três para espreitar. Este é o meu predileto.
Estou a colaborar com um novo projeto/espaço em Lisboa, o Atelier Montessori, na criação do cantinho de leitura, entre outras coisas. Sobre os livros a escolher, uma das categorias de livros que Maria Montessori aconselha estarem à disposição dos pequenos leitores — ou pré-leitores — são os livros sobre histórias verdadeiras, biografias, vidas inspiradoras.
Há por cá uma nova coleção à qual ainda não dei a devida atenção (as ilustrações do artista argentino Pitu Sáa não me atraem de todo), mas é um tipo de livro não muito comum em português. Tenho quase a certeza de que todos os que temos, a começar por este e a acabar no que hoje aqui trago, são em inglês. Há uma série deles que gostava de ver editados em português: este, este, este, este ou este, por exemplo.
Dizia, nesse postal de 2009, que "Melhor do que uma boa história, só uma boa história verdadeira." Não me lembrava de ter escrito isso, nem sequer concordo comigo mesma, acho... Mas o que é certo é que, se as crianças se fascinam com histórias, é com as que depois lhes dizemos que aconteceram mesmo, que eles esbugalham os olhos e perguntam "Mas é a sério?!...".
Este livro conta a história de Louise Bourgeois, uma das artistas plásticas mais importantes do século XX. As ilustrações são muitíssimo bonitas: realistas e poéticas, clássicas e experimentais.
E não pode ter sido por acaso que hoje aqui juntei estas duas grandes mulheres, Maria Montessori & Louise Bourgeois, senão vejam:
"A mão da criança é o espelho motor da sua inteligência.", MM e "Não sou aquilo que sou. Sou aquilo que faço com as minhas mãos.", LB.
Nesta história, acompanhamos a vida da menina Louise, que vive à beira dum rio e que cedo começa a participar no negócio de família de restauro de tapeçarias. E percebemos como essa infância influencia claramente o seu percurso enquanto artista plástica.
A sua famosa e monumental aranha chamada Maman ganhou finalmente, para mim, uma explicação e uma explicação de ternura: a aranha é afinal a mãe tecedeira, é quem nos protege dos mosquitos — e não o bicho feio de quem tanta gente tem pavor.
Quando penso no que gosto mesmo de fazer, passa por uma variedade de coisas, é certo, mas pelo menos uma delas tem de incluir qualquer coisa feita com as mãos. Cresci junto da minha Avó, com quem sou parecida, dizem, e que também estava sempre a fazer alguma coisa com as mãos, tal como a minha Mãe está.
De vez em quando desenhamos todos juntos, em casa ou na quinta. Que memórias guardarão os meus miúdos destes momentos em que nos juntamos à volta da mesa ou de algum objeto e o desenhamos?
De que forma o modo como trabalho com as mãos, cirandando à volta das suas vidas, irá influenciar aquilo que são, serão no futuro? Se reconheço no R este prazer manual, o B é mais cerebral e o T mais físico. Os três são muitíssimo distraídos, muitas vezes entretidos no seu mundo interior e acho sempre que não reparam em nada. Mas elogiam muitas vezes coisas que faço, apreciam e reconhecem até outras pessoas que "fazem coisas como a Mãe".
Estou com a ideia de fazer um tapete. Só ainda não tomei coragem, porque tenho vários projetos em mãos (!) para acabar: a obra de Santa Engrácia e o pano para o carrinho de chá que estou a bordar com desenhos de quando o R tinha 4 anos. Tem 6, agora.
Haja tempo.
................................................................................................................................ 

Cloth Lullaby The Woven Life of Louise Bourgeois
Abrams Books, 2016
Amy Novesky texto, Isabelle Arsenault ilustrações
isbn 9781419718816
9

22.3.17

Faço 8, sim e é de propósito*.

E bom, aqui vão 8 anos a pôr livros nesta prateleira.
Os meus miúdos estão crescidos e tornaram-se, estão a tornar-se, grandes leitores:
que bom poder agora escolher e mandar livros para outros meninos, que não são os desta casa. Que bom é imaginar outras histórias, outras ruas, outras prateleiras a ficarem cheias de tantas possibilidades, que vão sempre entre as páginas dos livros bons.
O PACOTE está aí, espalhem a notícia, não o deixem fugir!  
Este blog nasceu dum acaso e duma paixão e vai crescendo debaixo dessas duas águas dum mesmo telhado.
Há uns anos tinha visto as páginas deste livro numa exposição da Maria Keil. Ontem encontrei-o num corredor duma livraria e soube que era este o livro para assinalar a data. É o acaso iii.
Afinal, há 8 anos atrás, numa outra livraria não muito longe dali, deram-me as páginas abertas dum livro — que continuam por emoldurar — e, nesse mesmo dia, começou o prateleira-de-baixo. Já houve outro acaso, chamemos-lhe assim, de maneira que não havia mesmo como fugir a estas histórias.
O livro é datado, claro, politicamente incorreto, com certeza. Mas, ainda assim, duma modernidade avassaladora; quer no texto — que corre ao ritmo que quer, com histórias curtas ou histórias longas, histórias realistas ou do reino do fantástico, sobre a vida, sempre; quer na imagem — com pequenas vinhetas ou desenhos de página inteira, realismo ou geometria, com risco, sempre.
No nosso terraço costumam nascer uns jacintos que lá ficam por baixo da terra todo o ano e que me surpreendem sempre por esta altura.
A mesa do dia do Pai estava linda, enfeitada com uma flor amarelinha que também ali nasceu a fazer história, sem ninguém fazer nada por isso.
É que às plantas não chego, não dá para tudo. Tal como busco especialistas de flores ou do mundo, ou da música, ou dos fios, ou de desenho, espero que possam continuar a vir buscar a esta prateleira os livros extraordinários que teimam em aparecer. E, quem sabe, poderem também vir a receber ou a oferecer um PACOTE feito mesmo à medida da prateleira-de-baixo aí de casa.
*O título deste post é roubado a uma das frases que acompanham os autorretratos que Maria Keil fez aos 80 anos: "Faço 80, sim e é de propósito" que acompanha um retrato sorridente, e "Faço 80, sim mas não é de propósito" em que olha de lado, preocupada. Escolhi o sorridente, claro.
&
Hoje, para se qualificarem para o sorteio, basta tornarem-se seguidores (do blog ou do Instagram) ou gostarem (do FB), e partilharem uma das publicações com um amigo (no Instagram ou no FB).
Até às 22h, do dia 22, hora de Lisboa. Os vencedores serão anunciados no Instagram e no FB do site.
Boa sorte!
.........................................................................................
Histórias da minha rua,
texto Maria Cecília Correia, ilustrações Maria Keil
A Bela e o Monstro Edições/Raposódia Final, 2016 (1ª edição 1953, na Portugália)
s/isbn
0
Designed by DigitalBeautiful