26.7.16

Finalmente, os lápis na prateleira — um postal de férias

Estávamos todos cheios de vontade de sair de casa, ao contrário destes lápis que querem regressar. Há quase uma competição a ver que conta hoje a história ao R!
 
Nunca aqui cheguei a falar d'O dia em que os lápis desistiram, mas é dos tais que está no top da prateleira.
 
Cheios de humor e com os desenhos especiais do mestre Oliver, os miúdos (bem, e nós...) rimos a perder com o absurdo das histórias dos lápis e os seu momentos escatológicos de cocós de urso e vómito de cão e outras palavras nojentas.
Na noite da final do Euro o T pediu licença para ir ao terraço dizer um palavrão. Claro que o deixámos: o que é demais é demais e há palavras que têm também o seu lugar.

A brincadeira com as cores dos lápis toma proporções épicas porque, além de discordarmos dos nomes de algumas cores que o autor

(ou o tradutor dá), o R é ligeiramente daltónico, o que faz com que toda a história assuma contornos surreais.
 
O meu preferido é o lápis gorducho para bebés (o postal do lápis desesperado, que até Picasso cita para convencer o Duarte a salvá-lo dos maus tratos do irmão, é absolutamente delicioso);

o preferido dos miúdos é o lápis verde, Estéban, o magnífico, que até uma capa tem. Agora, se vão dar uma volta sozinhos na quinta, dizem de cor as deixas do lápis verde, como se as tivessem ouvido num filme: vou partir à descoberta do mundo. Sinceros cumprimentos, Estéban, o magnífico. E quando voltam: Querido Duarte, já vi o mundo. É chuvoso. Vou voltar para casa. Estéban, o magnífico.

Outro que nos enche as medidas é o baralhado lápis vermelho-vivo (que para nós é cor-de-rosa-fluorescente) que acaba o livro a contar ao Magnífico que em Faro viu a Grande Muralha da China...
 
A ideia de novela epistolar, em que os lápis mandam cartas ao dono Duarte, é novamente explorada aqui n'O dia em que os lápis voltaram a casa e já nos deixou todos com vontade de ir à vila buscar um postal para mandar aos amigos.

A humanização de seres inanimados não é novidade, mas a exploração dos sentimentos e personalidades associadas às cores e aos seus habituais "ofícios", é aqui um achado muito bem trabalhado. Demasiado bem trabalhado.


Às vezes tenho de fazer como o Duarte e "esquecer-me" do livro atrás da almofada do sofá a ver se o miúdo pede outra história... O que vale é que já há duas para ir variando.
(E aqui confessamos estar  já à espera da terceira.)
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O dia em que os lápis desistiram/O dia em que os lápis voltaram a casa
Orfeu mini, 2014/2016
Drew Daywalt texto, Oliver Jeffers ilustração
isbn 9789898327352/9789898327673













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7.7.16

Se eu fosse um menino da Serra

Estive na Serra a desenhar com os meninos das escolas da Guarda. Fizemos um livro, ou melhor, cento e quarenta livros, porque lá há muitos meninos que gostam de ir à Biblioteca.

Todos os livros tinham o mesmo título, mas todos acabavam de maneira diferente, porque todos os meninos eram diferentes. Aliás, o índice do livro era o mesmo para todos, mas as páginas eram todas diferentes. Igual-igual, só mesmo a capa.

Depois de ouvirem a Incrível História do Rapaz que Comia Livros e de se rirem a perder porque o Henrique é um pouco disparatado, queriam todos fazer um livro para comer, desculpem, para ler.
Mas como os meninos eram pequenos e ainda só sabiam escrever o nome, desenhámos muito.
Se eu fosse... era o título do livro. Os meninos eram meninos, não eram batatas nem almofadas, eram mesmo meninos, por isso tinham uma coisa chamada imaginação. Assim, podiam imaginar se fossem...
um doce,

uma cor,
 
um carro,

uma casa,

uma janela,

um animal,

uma árvore,

uma cadeira,

e uma personagem.

Mesmo tendo uma coisa chamada imaginação, às vezes era difícil pensar que cadeira seríamos se fôssemos uma cadeira e também era difícil escolher o animal que queríamos ser. De maneira que levei uma parede cheia de Mundo para ajudar a escolher e para ajudar a desenhar — porque,

como toda a gente sabe, todos já vimos uma vaca mas, na hora de a desenhar, não sabemos bem onde é que os cornos andam em relação às orelhas...

Os meninos tinham entre 3 e 6 anos e só alguns iam para a Primária no próximo ano aprender a ler, mas já todos gostavam de livros.

O R deixa a Infantil e é o meu filho mais novo; o T sai da Primária e é o meu filho do meio; o B muda de ciclo e é o meu filho mais velho, que já anda por terras estrangeiras sem pai nem mãe. A coisa não está fácil. Eu sei que digo que é muito bom vê-los crescer, mas esse prazer é pelo menos igual à nostalgia que se instala numa altura destas. É bom e é difícil.

Desenhar no chão com os meninos da idade do R, provocá-los com autocolantes já nalgumas páginas a ver como se safam, ver uns a chorar porque não conseguem fazer a girafa como "deve ser"

ou a rir porque se eu fosse uma casa era um arranha-céus enorme;

todas essas coisas, dizia, misturadas com este fim de fase, foram imensamente intensas e novas e brilhantes.

Mas, pronto, isso não interessa muito, o que interessa mesmo é o livro que cada um levou para casa, orgulhoso; o livro onde, na última página, e depois de terem imaginado ser muitas coisas, disseram o que eram —são — mesmo.

Isso e as ilustrações maravilhosas que construíram com alegria, atenção e curiosidade.
Aqui fica uma amostra, com a promessa de pôr durante a semana, no Instagram desta prateleira, todas as que consegui fotografar.

Se eu fosse um menino da Serra, seria um menino feliz.
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23.6.16

ser ou não ser

Temos a sorte de, desde há uns anos para cá, ter acesso a novidades editoriais já com alguns cabelos brancos. Esta foi publicada pela primeira vez em 1946 e chega agora a Portugal.

O T estranhou o título: como assim?? É preciso ler para perceber, disse eu, e ele leu. Também é para a tua idade, disse ao B, e ele leu também. E como também era para a minha, também li. Falta contar ao R, porque também é para a idade dele! Há grandes livros assim.

Nas livrarias chateia-me bastante a estante da literatura para adolescentes: a maior parte dos livros parece-me bastante bacoca, como se os adolescentes fossem todos um bando de pessoas aparvalhadas. Eu sei que às vezes parecem, mas convivo diariamente com centenas deles e, como dizem os ingleses, there's more to them than meets the eye.

É que no meio de tanto alarido ou silêncio a mais, no meio de tanto querer ser diferente e não querer mais do que ser igual a todos, no meio de tantas portas fechadas, há tantas que se abrem.

Em cada adolescente há um miúdo cheio de vontade e interesse de conhecer, de se conhecer, de crescer, de perguntar, de procurar resposta.

Imagino que muitos se sintam tão desajustados como este urso de quem toda a gente diz ser "um homem tonto que precisa de fazer a barba e usa um casaco de peles".

Este urso, que hiberna no inverno como é suposto um urso fazer, acorda para um mundo estranho e que o estranha.

Enquanto dormia, os homens ergueram uma fábrica sobre a sua gruta e, à força, querem agora convencê-lo de que não é um urso e sim um homem tonto que precisa de fazer a barba e usa um casaco de peles.

E ele luta bastante contra este rótulo, passa do sub-diretor até ao Diretor, visita zoos e circos onde até os seus pares o renegam.

Por fim, enfia mesmo a carapuça e passa a trabalhar na fábrica, que um dia acaba por fechar.
O urso deixou de saber ser urso e, quando chega o inverno, fica sem saber o que fazer.
 
Costumo espreitar outros blogues à procura de pedradas no charco no universo juvenil para intercalar com os clássicos fundamentais que faço chegar aos miúdos.
Há dias, um amigo fez-me chegar um artigo que discorria sobre a qualidade desses clássicos fundamentais e falava do tempo em que não existia literatura para a infância. Sim, até não há muito tempo, os meninos que liam não tinham livros pensados à sua medida. Divertimo-nos a pensar que figuras incríveis, escritores mestres e ilustradores incontornáveis, nunca leram um livro infantil!

Esta é uma pequena história com a história do mundo dentro; lê-se de um só trago, não tem propriamente o fôlego dum livro para um jovem leitor.
Mas as questões do desajuste, de procura de identidade, de desafio à sociedade instituída, são totalmente na mouche para esses que vão adolescendo, não partindo do princípio que se tratam de totós ou bananas e sim de seres pensantes que vão desenhar o amanhã daqui a não muito tempo.

E para mim também, que me sinto tantas vezes na cidade como "um homem tonto que precisa de fazer a barba e usa um casaco de peles". Logo agora que chegou o verão com toda a força!
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O urso que não era
Bruaá, 2016
Frank Tashlin
isbn 9789898166296

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7.6.16

Áudio-livro

Há livros que dão filmes e até filmes que dão livros.

Imagem é o caso dum poema que deu uma canção, depois um vídeo-arte e agora um álbum ilustrado.

Yara Kono, a portuguesíssima nipo-brasileira, tomou coragem para dar mais uma volta a estas palavras do seu compatriota Arnaldo Antunes. É obra.

Por aqui somos fãs do Arnaldo. Caetano entrou-me pela vida ali à roda dos meus sweet sixteen e nunca mais saiu. No outro dia, pela rua, o R cantava Come prima/Piu di prima/T'amero; quando lhe perguntei onde tinha ouvido aquilo disse-me com ar chocado: Mãe, é Caetano!?... Eu sabia que era Caetano (ou que o Caetano canta este clássico italiano), mas não me lembrava de ter ouvido recentemente. Depois quis saber se tinha boa pronúncia italiana, ao que assenti, e lá seguimos rua abaixo.

Mas se pai é Caetano, Arnaldo é uma espécie de primo de voz cavernosa que diz palavras verdadeiras e difíceis, montando-as como se fossem escultura. Gostamos de ouvir e de cantar Na massa — é power music para acordar de manhã!

Nesta Imagem, Arnaldo elenca muitas formas de ver: avistar, assistir, contemplar, fitar, examinar, notar, admirar, observar, vislumbrar e emparelha-as com coisas do mundo. Yara diverte-se a jogar este jogo duplamente duplo, de nome/verbo e de palavra/imagem. E tudo feito com um imensa simplicidade e economia de cores e de formas (mais uma dupla!) que nada tem a ver com algumas ilustrações também simples e económicas mas que, por vezes, parecem feitas de plástico, sem vida.

Estes desenhos parecem sujos, gastos, com a quadrícula que os organiza aqui e ali a querer aparecer, sem vergonha.
É a segunda música que a Planeta Tangerina trás ao mundo dos livros. Este livro é preciso ouvir e ver para crer.

Não basta olhar.
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Imagem
Planeta Tangerina, 2016
Arnaldo Antunes texto, Yara Kono ilustrações 
isbn 9789898145734
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