19.5.19

Voto vivo

Daqui a uma semana iremos às urnas.

De fora da habitual feira da campanha ficam muitas vezes os assuntos que interessam. Isso afasta muita gente da participação cívica, fazendo esquecer facilmente o privilégio que é podermos ir votar.

Nesta Eleição dos  bichos, a gota de água, ou a falta dela, foi o leão ter desviado o rio para fazer a sua própria piscina privada, privando os outros bichos do usufruto do rio. Isto fez mexer a bicharada.

Manifestaram-se, tentando chamar o leão à razão, mas ele não quis saber.

"Porquê o leão?" — é o que os outros animais da selva perguntaram. Porque é que é ele que manda?
Sejamos uma democracia, diz a sábia coruja. E explica aos outro como funciona o sistema.

Qualquer semelhança entre a realidade e esta ficção não é com certeza coincidência — há os conservadores, os progressistas, os que tentam fazer ouvir a sua voz, os que tentam comprar o voto dos outros; há debates para cada um poder apresentar o seu ponto de vista e alguns bichos a falar de assuntos que não interessam minimamente à floresta.

Sim, é assim. Mas também há gente a querer fazer bem, a trabalhar para combater injustiças, a fazer com que se caminhe, como comunidade para uma floresta mais justa.

Esta eleição veio do Brasil, (o segundo livro sobre política feito a partir de uma plataforma de financiamento coletivo e de diversas oficinas feitas com crianças), onde é urgente pensar e ensinar a democracia.

Um livro muitíssimo bem feito para mostrar às nossas crias que para mudar o mundo é preciso cada um de nós. E que às vezes, um voto faz mesmo a diferença.

Festejámos há pouco a possibilidade da Liberdade, a possibilidade de escolha, a possibilidade da democracia. Não foi pouco, não é pouco. Que não fiquemos instalados no sofá de abril.

Há demasiados exemplos assustadores à nossa volta para deixar para lá o papelinho dobrado em quatro dentro da caixa preta. A urna leva afinal uma coisa bem viva: a nossa voz.
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A eleição dos bichos
Penguin Random House, 2019
André Rodrigues, Larissa Ribeiro, Paula Desgualdo, Pedro Markun
isbn 9789896657703

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14.5.19

Rei por acaso

Lembro-me de ser reivindicativa, em miúda. Era suave, mas tudo o que me cheirava a injustiça mexia a sério comigo e lembro-me de vociferar.
Agora que sou mãe de três rapazes, também bastante suaves, observo neles essa fúria de que me lembro perante as injustiças. Daqui concluo que o sentido de justiça está connosco desde cedo. O que há a fazer é preservá-lo.

Contei ao meu pai quais os livros que tinha escolhido para o pacote™ eleitoral e muito ele se riu com o meu resumo da Rainha das Rãs não pode molhar os pés. As fábulas têm esta característica: o seu poder, atravessa gerações.
Embora tenha um ar vintage, esta fábula foi criada há muito poucos anos e primeiro em português, pela mão da Bruaá.

Pegando num dos elementos característicos da fábula (usar os animais como protagonistas para através deles tirar uma lição para os humanos), Cali usa as pacatas rãs para nos falar de poder e da força do coletivo, da condição bastante absurda da monarquia, da possibilidade de, com inteligência e sem violência, se fazer uma revolução. E tudo isto narrando uma história sem o dedo em riste.

Gosto muito da forma desprendida e seca como escreve este autor; ainda não começou uma ideia e já acabou a ideia. Assim, logo no começo do livro: "Era uma vez um lago, e nesse lago havia rãs. Rãs que passavam os dias a fazer coisas de rãs".

Ocorre-me agora, enquanto transcrevo, que as gargalhadas do meu pai perante o meu relato não foram porque eu tivesse graça própria ao contá-la, mas sim porque a narrei à lá Cali, inspirada talvez por esta secura, que tanto lembra a forma como as crianças narram.

Quando inaugurei a Biblioteca do Público com nove fábulas contemporâneas para nove fábulas clássicas em junho do ano passado, associei, na altura, um provérbio a cada uma.
O que escolheria para este A rainha seria o "Pela boca morre o peixe." É que o engodo — não propriamente criado pela própria rainha — é desfeito pela necessidade de provar o que tinha sido dito pelo sábio conselheiro da rainha.

Não gosto muito de revelar histórias aqui no site; acabo por fazê-lo através das (magníficas) ilustrações que vou roubando aos livros. Por isso, aqui termino o furto e o meu discurso, no momento em que a rainha tem mesmo de saltar da folha mais alta para o lago.
Garanto-vos que irão encontrar este livro, aqui no blogue, sob a etiqueta boa história. É que é tão boa!
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A Rainha das Rãs não pode molhar os pés
Bruaá, 2012
David Cali texto, Marco Somà ilustrações
9799898166166



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8.5.19

Macio como um bom lençol

Um livro pode fazer-nos passear ou sonhar, desejar ou pensar, rir ou chorar.

Um livro nunca nos deixa sozinhos e ensina-nos a estar sozinhos. Também nos ensina a solidão dos outros e, com essa lição, conhecemos melhor o mundo e compadecemo-nos com ele.

Se um livro nos faz isto, imaginem o que não faz por uma criança, por um bebé.
Há pessoas mais ou menos sequiosas de mundo. Essas são as que guardam o inicial espírito infantil — que é muito diferente da infantilidade.

Quando o leio não me sinto a mãe Coelho. Estranhamente sinto-me antes o filho transportado ao colo pela cidade. E é tão bom.

Já aqui falei de outros livros-cinema e este regresso a casa é um desses: um de cinema interior.

Há livros em que sinto que falta alguma coisa: a ideia é ótima, as ilustrações são magníficas, mas falta aquele sininho que ouvimos tocar no final de um bom livro.

No final do Regresso não toca um sininho porque isso acordaria o Coelho. Mas este livro, que não conta propriamente uma história no sentido clássico em que ocorre uma transformação na personagem, leva-nos ao colo e embala-nos até adormecermos. Põe-nos na pele do Coelho, no conforto das rotinas, dos cheiros, das luzes e dos sons que vamos ouvindo cada vez mais longe.

As ilustrações cheiram a almofada e todo o livro é macio como um bom lençol ou uma boa manta.

Às vezes perguntam-me por livros para mais pequenos porque tendencialmente escrevo agora menos sobre esses. Sempre aqui fui escrevendo acompanhando o crescimento dos meus três miúdos e já não tenho bebés.

Mas à conta deste, um dia hei-de pedir um sobrinho emprestado para o pegar ao colo antes de ir dormir e levá-lo neste Regresso a casa até ao país dos sonhos.
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Regresso a casa
Orfeu Mini, 2019
Akiko Miyakoshi
isbn  9789898868381
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29.4.19

Construção sustentável

Em Macau e no Japão (a parte do oriente que conheci há muitos anos) as pessoas levam os pássaros a passear ao jardim, dentro das gaiolas.
Vão com elas pelas mãos, com um pano por cima, tipo abat-jour e, quando lá chegam, destapam-nas e penduram-nas numa árvore.

É bonito ver os jardins assim, iluminados de pássaros com as pessoas por baixo a conversarem, como conversam os donos de cães, mas mais baixinho. É bonito e estranho. Um pouco amargo, até.

Tive um pássaro em miúda e estou cada vez mais interessada no assunto aves e árvores que ouvimos e vemos na quinta e nos lugares por onde passamos de carro ou nas férias — não sei se será da idade! Mas não conseguiria voltar a ter um pássaro enjaulado.

Este Caged faz parte do meu grupo predileto de livros, aqueles que não têm texto, mas não são nada silenciosos. Este, então, faz imenso barulho — não ouvem?
Foi um dos livros que escolhi para os Livros espetaculares (mesmo!) para o ciclo sobre a Liberdade que esteve até ontem no Lu.Ca.
Confesso que o meu coração de arquiteta se entusiasma com a construção megalómana destes dois cavalheiros.

Enquanto constrói o seu ninho, ramo a ramo, o pássaro azul assiste à edificação deste objeto magnífico no lugar onde antes cresciam enormes árvores. O ninho vai crescendo e a construção humana cresce também, em paralelo. As gaiolas são como tijolos habitados empilhados como legos.

O pássaro apanha ramos das árvores para construir o ninho, os homens arrancam as árvores para terem espaço para montar a sua construção.
Este paralelo é um preâmbulo para o final da história (ou talvez o início dela) onde as situações se invertem porque o pássaro assim desencadeou.

Não sei se foi inadvertidamente ou não, mas aquele sorrizinho no bico não engana ninguém...
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Caged
Tiny Owl Publishing Ldt, 2018
Ducan Annand
isbn 9781910328316




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24.4.19

o bicho do livro

Ontem não recebi nenhuma rosa, mas ofereci um livro ao B — um livro a que regressava todas as férias na quinta e que, entretanto, desapareceu. Encontrei-o na OLX e fui ontem buscá-lo ao outro lado da cidade para lho oferecer: um sucesso.

Além disso recebi, de várias pessoas, avisos e fotografias da manifestação pró-leitura que aconteceu no Camões: que bom.

Nunca fomos à Biblioteca Nacional e já está na lista de programas de família que gostamos de fazer e vamos riscando à medida que se vão realizando. Que bonito, um livro sobre este magnífico lugar de livros!

Este é um livro didático, sim, no sentido em que o seu objetivo primeiro e claro é o de "ensinar sobre" alguma coisa.


 Mas — e ainda bem — está bem longe dos livros ditos didáticos que têm tanto de chato como de inútil.

As ilustrações da Mariana Rio ajudam-nos a imaginar  o que não conhecemos e a forma como a autora constrói o percurso, com a ajuda de algumas personagens, faz com que nos sintamos também parte desta visita guiada.

Grande dama da literatura infantil em Portugal, Luísa Ducla Soares começou a trabalhar na Biblioteca Nacional em 1979, por isso não poderíamos ter melhor cicerone.

Há a História e uma história, a da Biblioteca Nacional e a do livro dentro da Biblioteca Nacional. Há o percurso do livro e o percurso do leitor. Há factos históricos e curiosidades.

Os ingredientes certos para que este seja um livro que apetece ler. Um livro que desperta a curiosidade, a vontade de saber mais. Tudo, enfim, o que um livro deve ser.

No outro dia ouvi uma académica a falar da sua infância e, cheia de carinho, referiu a carrinha da Gulbenkian, a biblioteca itinerante. Nunca vi uma, mas fiquei feliz por saber que agora anda pelo menos uma por aí.

Também há algumas bibliotecas nos jardins (umas mais resistentes, outras mais recentes) e as Little Free Library — que, fiquei a saber, são oito em Portugal, sendo que quatro delas são na Ilha Terceira, nos Açores! — e o mais global Book Swap. Aqui, na cidade, ainda há quem vá ler par ao jardim e eu acho isso comovente.

É que o bicho dos livros existe mesmo. É só preciso deixarem-se infetar por este vírus maravilhoso.
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Vamos conhecer a Biblioteca Nacional
INCM, 2019
texto Luísa Ducla Soares, ilustrações Mariana Rio
isbn 9789722727303

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19.4.19

A ressurreição da flor

Entre a violência da chuva e a força que os raios de sol já têm nesta altura quando aparecem, andam os botões floridos em todo o seu esplendor.

O preto e branco que as nuvens criam sobre as cores das flores, parece-se com as páginas deste livro, também a preto e branco, onde as cores ficam reservadas às personagens principais, a alguns pormenores que os mais pequenos adoram tentar encontrar e ao verde do campo.
 
A história dos amigos construtores, que faz as delícias dos miúdos quando estão na mais ou menos eterna fase dos carros, parece, à primeira vista, uma história do tipo "Bob, o construtor". 
E, em certo sentido, é mesmo. Cada máquina, humanizada, tem a sua função na construção da cidade.

Só que a Escavadora, qual Principezinho, encontra um dia uma flor de quem passa a tratar.

Está a chorar, está a chorar — repete T, 2 anos, mal abrimos o livro.

Os dois não são os quatro, onde normalmente aparece a questão da morte e a perturbação que o choro da escavadora causa à miúda é muito maior do que a morte da flor.

Não sei se isso se passa porque a flor não está humanizada, ao contrário da escavadora, ou se porque já sabe que as flores morrem, mas nunca viu uma escavadora a chorar; o certo é que, o que a perturba, é o sofrimento da escavadora que fica e não a morte da flor que desaparece.

Até porque não desaparece: por entre as lágrimas, para lá do fumo das máquinas, a Escavadora repara nas sementes que a flor deixou quando morreu e, carregando-as carinhosamente na pá, sai da cidade em busca de um terreno bom para as semear.

No Carnaval semeámos milho, crougettes, abóboras e plantámos pimentos e tomates.
Agora, na Páscoa, esperávamos encontrar o fruto do nosso trabalho a crescer.
Mas os pássaros roubaram os grãos de milho e os pimentos estão raquíticos, porque vieram duas saraivadas e o gelo ficou nos campos durante dias.

Melhor sorte teve a Escavadora que conseguiu fazer brotar um lindíssimo campo de flores e matar saudades da sua amiga.

Escolho este livro para os dias da Páscoa. Não é um livro sobre ovos e coelhos, mas é um livro que mostra a possibilidade de redenção que se esconde na morte, sempre brutal e sempre difícil.
Santa Páscoa!
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A escavadora e a flor
Editorial Bizâncio, 2019
Joseph Kuefler
isbn 9789725306086
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