14.11.17

A sério Sr. Silva?

Fomos novamente à Amadora BD, uma das tradições anuais da família, não sem antes termos assistido a uma magnífica visita guiada pelo Paulo Pires do Vale à exposição da Ana Hatherly: uma overdose cultural.

Nem de propósito o festival calha mesmo em cima dos anos do T, por isso é quase como se o presente dele começasse neste passeio — e continuasse depois pela escolha dum ou dois livros nos stands. Assim foi, e aproveitámos para trazer o calhamaço do Garfield, até porque já temos o da (imperdível) Mafalda. Para o B trouxemos o seu primeiro Corto Maltese, afinal a criatura já tem 13 anos! Os mais novos adoraram enfiar caixote do irmão invisível cabeça abaixo e o B demorou-se nas outras exposições com muito mais capacidade do que eu para processar tantas imagens.

Até porque eu não percebo nada de BD.

Diria, como desculpa, que é um tipo de literatura mais masculina, mas não é verdade, tenho amigas que leram os Ásterix, os Tintins e por aí fora — eu é que não. Devorei Patinhas, Mónicas, Lulus, Snoopys e mais tarde lia o Calvin na última página do Público; mas ao resto do mundo já só cheguei em modo adulto e sou profundamente desconhecedora. Também por isso cultivo o gosto que têm, tão diferente (ou talvez não) do meu e aproveito para lhes dar a conhecer o que há por aí da chamada 9ª Arte.

Pierre Pratt (que apelido de peso no contexto deste postal...) começou pela banda desenhada, mas eu só o conhecia da Leitura Furiosa. O tipo de ilustração despertensiosa, sintética e tosca nem sempre funciona bem no universo infantil, mas aqui é profundamente autoral e uma lufada de ar fresco.
Pratt é canadiano, vive em Portugal e temos agora o prazer de ter este seu Sr. Silva entre nós: uma espécie de comprida tira de BD, com uma piada em crescendo, até à estocada final, este Boa noite pode ser considerado um primeiro livro de terror de cantos redondos — e é de gargalhada.
Logo no início indignei-me com os 96 andares que o Sr. Silva sobe:

nós subimos 85 degraus todos os dias e tenho cá para mim que não há ninguém que suba mais que isso, por isso senti-me quase ofendida com esta entrada.

Mas depois o Sr. Silva até parece um tipo decente, embora não vista o pijama, porque se deita com um livro (fica desculpada a quebra da regra de higiene: Meninos, não se deitem com a roupa com que estiveram todo o dia, é nojento!...).

Por aqui a risada foi geral, entre os 6 e os 40 e tal — não sejamos preciosistas... — entre os que são de humor difícil (mea culpa) e os piadistas de serviço.

O politicamente incorreto desta história-de-boas-noites em que há um esquartejamento é absolutamente delicioso, perdoem-me o termo, e não resisti a escolhê-lo para alguns pacotes™ deste mês. Para o pacote™de Natal* é que talvez não.
E daí...
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Boa noite
Orfeu Mini, 2017
Pierre Pratt
isbn 9789898868015

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30.10.17

Sem árvores

Há miúdos que trazem coisas para casa. O R traz coisas para casa. Nos bolsos, nas mãos, na mochila. Eu já não sou uma miúda, mas continuo a trazer coisas para casa.

E foi por isso que, neste outono, os tesouros que normalmente ficam pelo móvel da entrada a marcar as estações que vão passando (ali mesmo junto às fotografias que todos os anos tiramos os 5 enfiados na photomaton) vieram ocupar a parede da sala. 

As primeiras a chegar foram as sementes e, quando há umas noites atrás, convidei o Roque a interromper a leitura do seu grande livro em capítulos — Pipi das Meias Altas — para ler as Cem sementes, ele saiu da cama, entusiasmado, para me vir mostrar a semelhança entre os desenhos do livro e os tesouros que tinha trazido há dias para casa.

No fim-de-semana fomos à quinta e voltámos a comer da terra: medronhos, araçás, romás, castanhas. E não mostro aqui tudo o que apanhámos do chão e das árvores, as malaguetas e o mangericão, as nabiças e as couves galegas, os crisântemos e o alecrim, as alfazemas e a vinha virgem, nem falo do gafanhoto coxo que alimentámos e salvámos e do ouriço que encontrámos afogado no tanque e não conseguimos salvar.

O fogo não chegou a este verde Minho e os castanhos, laranjas, amarelos, vermelhos e dourados que nos rodearam só eram assustadoramente bonitos — os tons que costumam por esta altura pintar o verde.

Há livros com timing perfeito; este é um deles.
No caminho para o norte passámos por paisagens desoladoras, negras, onde mesmo assim a natureza começa já a renascer em força.

As feridas das árvores são diferentes das dos Homens e por trás de tanto negro é difícil não nos lembrarmos de pessoas e lugares que não conhecemos e que agora estão mais presentes nas nossas vidas.

Recebemos um requeijão divino feito com o último soro de leite que ainda estava guardado de antes dos incêndios: as ovelhas e os pastos que lhe deram origem já não estão cá para continuar a história. Saboreámos com a solenidade que conseguimos este requeijão com uma história tão triste e tão bonita ao mesmo tempo. Tentámos estar à altura, mas foi difícil.

Estas Cem árvores contam-nos uma história que parece triste, mas que no final tem a sua redenção, na aventura das cem sementes que depois de aparentemente se terem perdido todas, deram afinal dez árvores à floresta.

Que possamos cada um, naquilo que o seu papel lhe permite — políticos, pais, professores, editores, ilustradores, ...— lutar por estas sementes que morreram de facto: pela floresta, pelas árvores, pelo pasto, pelos animais e pelo futuro.

Este fim-de-semana há o Organii Eco Market, na Lx Factory e a Nheko desafiou-me a montar a biblioteca — uma prateleira-de-baixo! — na Casa Nheko. Para além disso, desenhei 7 eco-pacotes™, pensados para miúdos entre os 0 e os 14 anos, que imaginei com diferentes personalidades: o eco-sonhador, o eco-poeta, o eco-consciente, o eco-inquieto, o eco-aventureiro e o eco-marítimo. Estes pacotes™ vão estar disponíveis e recheados com dois livros cada um. Livros onde, de uma maneira ou de outra, se fala deste ecossistema em que vivemos: da natureza e do Homem, da natureza do Homem, da sua relação com o ambiente para podermos chegar a perceber o que é realmente melhor para as pessoas, animais, planeta — para todos!
Este vai lá estar, claro.
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Cem sementes que voaram
Planeta Tangerina, 2017
Isabel Minhós Martins texto, Yara Kono ilustrações
isbn 9789898145802
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19.10.17

oh! — que espanto

Este mês, para um dos pacotes™, resolvi mandar este OH! Não é nenhuma novidade, já tem barbas — mesmo, é de 1993 —, mas é um dos livros óbvios que não estavam ainda nesta prateleira.

O livro não tem uma única palavra e, se quiserem, também não tem realmente uma história. Mas há uma narrativa, há um jogo e exclamamos oh!, cada vez que levantamos a página e damos depois a volta, em loop.

Durante muito tempo era estranho para mim pensar nos livros por idades e, se quando organizei o site, arranjei, além de outras, etiquetas etárias, também é verdade que há muitos livros que inseri em várias idades. E se tento adequar o livro que envio à idade do menino que vai receber o pacote™, muitas vezes acho graça subverter isso.

Um dia destes, levei-o num conjunto de livros para falar a miúdos entre os 15 e os 17 anos. Pegaram nele e tentaram adivinhar que ilustração estaria escondida debaixo da página, tal e qual um miúdo de 2 ou 5 anos.

Expliquei-lhes depois que dificilmente iriam conseguir adivinhar essa imagem, mas que podiam tentar perceber que outra ilustração viria na página seguinte, tal e qual como a um miúdo de 3 ou 6 anos.

Perceberam rapidamente e começaram a dizer, em coro, um peixe, uma mola, um navio, um cachimbo, tal como diria um coro de meninos de 1 ou 10 anos.

São assim, muitos dos bons livros e especificamente estes livros sem palavras.
Por cá o Oh! foi o primeiro contacto que os meus miúdos tiveram com o surrealismo — ou não estivesse lá o cachimbo dA traição das imagens, de Magritte e o autor não fosse belga —
e sei que, nas noites em que regressam a ele, os sonhos que têm (ou fazem) são mirabolantes construções surrealistas que se desdobram umas nas outras, nas outras e — oh! — que espanto.
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Oh!
Kalandraka, 2007
Josse Goffin
isbn 9789728781712
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11.10.17

Auto-ajuda?

O título é arrepiante, não é? Até pode haver livros incríveis debaixo da etiqueta da auto-ajuda, sim, mas eu desconfio sempre.
De modo que quando a Alexandra me desafiou para a oficina que entretanto desenhámos para esta semana, fiquei muito reticente. Só que a uma pergunta do tipo De que modo pode um livro ajudar no dia-a-dia da educação dos miúdos?, a Alexandra responde dum modo muito semelhante ao meu, e por isso avancei para este desafio.

É que não falamos de livros didáticos, de auto, ou de hetero-ajuda. As crianças não são parvas e parece-nos que, se lhes lermos um livro chamado André aprende a partilhar na semana em fizeram um fita monumental para dividir a última fatia do bolo, vão sentir essa leitura como um gigante e paternalista dedo em riste

— ai ai ai, menino feio —,

e a coisa não vai funcionar.

Mas também concordamos que um livro pode resolver muita coisa e ser de facto ditático, no sentido de "procurar ensinar", como digo aqui muitas vezes a propósito de vários livros.

Achámos um chapéu não é um livro didático ou de auto-ajuda, mas pode ajudar muita gente, miúda e graúda, na difícil arte de partilhar.

Organizado em 3 partes, como se dum filme épico se tratasse, tem uma linguagem simples, com frases curtas e sem palavras difíceis. Difícil, só mesmo a decisão que a tartaruga tem de tomar.

Não é uma história paternalista, mas pode ser parentalista (pronto, não existe a palavra, mas percebem).
Há muitas histórias que nos ajudam a ser pais, a educar, a não dizer

— ai ai ai, menino feio,

dizendo em vez disso — eu sei que é difícil, mas parece-me que o caminho é por aqui.

As tartarugas de Jon Klassen andam por aí com outros animais, a aflorar situações que nos apertaram os corações quando éramos crianças. Situações do tipo não-faças-aos-outros-aquilo-que-não-gostas-que-te-façam-a-ti ou queres-mesmo-fazer-isso?. E tudo isto sobre uma lindíssima paleta hiper-neutra, para que não corramos o risco de nos distrairmos do assunto essencial.

Belíssima, esta espécie de fábula de Esopo ou de La Fontaine, contemporânea e intemporal.
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Achámos um chapéu
Orfeu Mini, 2016
Jon Klassen
isbn 9789898327734
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4.10.17

Da cor dos dias de sol

Este podia-o ter trazido pelas ilustrações ou pelo texto, assim à cegas, mas trouxe-os pelas duas coisas: David Machado e Gonçalo Viana, dupla vencedora, com certeza.

Pena, só mesmo o papel. Minhoquice, talvez, mas os livros são também objetos.

Só que foi na semana do terramoto no México que encontrei este livro e por todas as razões e mais esta, veio parar à prateleira.

Das ilustrações nem vou falar: olhem só para estes pintores, para os seus instrumentos, para os seus pompons, para os sues cabelos riscados!

A história é simples e épica, ao mesmo tempo, naquele tom que o autor usa — e de que gosto tanto — em que grandes coisas são tratadas com poucas palavras e o tempo anda oh tão depressa.
Começa brutalmente, com a morte do rei, entre outros, num terramoto. No parágrafo seguinte passa para a subida ao trono do filho, que se safou por ter lido muitos livros e por, por isso, saber o que fazer numa situação destas.

O miúdo era pequeno mas subiu de imediato ao trono. Não há luto, não há choro, não há saudade. Ou talvez haja, mas vamos já em direção ao futuro, a um futuro melhor. O reino está destruído e é preciso reconstruí-lo.

Pintores, pedreiros, arquitetos, engenheiros, botânicos, zoólogos e agricultores

(tantas palavras novas para ensinar ao R, tantos ofícios tão bonitos para o T e o B já sonharem ser) 
deitam mãos à obra para reinventar a cidade segundo a visão literária do novíssimo rei.

Perante a desilusão dos seus projetistas com o desfazamento entre a primeira visão e o desenho final, este rei não bota-a-baixo. Em vez disso, elogia as pequenas grandes ideias, não perfeitas, mas muito boas, e a cidade ergue-se.

Não é um conto de fadas. O mundo não é perfeito. De certeza que houve e haverá (oh se há) outras tragédias naquele reino, naturais e humanas. Mas é um conto de esperança, de utopia, de comunidade, de mãos-à-obra, de otimismo, necessário hoje e sempre. Como os livros que o pequeno rei lia e que lhe salvaram a vida — e deram à cidade casas com telhados da cor dos dias de sol.
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Os livros do rei
Alfaguara, 2017
David Machado texto, Gonçalo Viana ilustração 
isbn 9789896652364

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