16.1.19

Neve escura

Na semana passada saiu um artigo no NYT sobre a descoberta de um novo tipo de branco. O branco perfeito, dizem.
Também na semana passada vi um documentário da BBC sobre o Branco na História da Arte, parte de uma triologia em que entram também o Azul e o Dourado.
Nos meses que passaram, tivemos acaloradas discussões sobre a temperatura dos brancos e dos cinzas das paredes da nossa casa nova.

A cor é um assunto sensível. Sensível mesmo, no sentido em que, está ligado a um dos cinco sentidos. Mas também porque, tal como nem toda a gente tem a mesma sensibilidade aos cheiros, por exemplo, também nem toda a gente consegue ver tonalidades de cinza, azul, violeta, creme, amarelo, num aparente só-branco.

Já esta semana, falava com o B sobre como mais facilmente usaremos a cor para descrever alguém de pele escura do que alguém que seja mais ou menos moreno ou mais ou menos loiro. É claro que as cores são característica distintivas, como as alturas, a gordura ou a cor dos olhos, mas fiquei a pensar se nesse primeiro instinto de referir a cor da pele negra mais rapidamente do que outros tons de pele (chamando por isso a raça à questão), poderiam existir laivos de reminiscência racistas.

A cor é um assunto sensível, dizia. E a cor de pele é um não-assunto que é um grande assunto, ainda. E o politicamente correto é muitas vezes tão inimigo de uma normalidade como o politicamente incorreto — no pior sentido do termo.

A propósito de uma recente curadoria no LU.CA para acompanhar o espetáculo Bianca e o Ciclo sobre o Racismo, um dos livros que escolhi foi o que hoje ponho aqui na prateleira.

Paralelamente procurei em vão um exemplar dO menino de cor e acabei por escolher para o acompanhar (além do Popville e do Bianca — que tinham diretamente a ver com o espetáculo) O Estranho, As mulheres e os Homens, Pequeno Azul e o Pequeno Amarelo, Elmer e O Homem de água. [Inacreditável ainda não ter escrito sobre os livros que estão sem link...]


"A neve é branca e Pedro é negro. Claro que não é negro-negro, como a neve não é branca-branca. Mas este é o primeiro menino de raça negra a aparecer num livro para crianças e foi publicado pela primeira vez há 56 anos, nos Estados Unidos da América. Se pensares bem, é mesmo estranho que, até aí, nenhuma criança de raça negra se tenha revisto num livro. É verdade que a cor da pele não é mesmo nada importante, mas também é verdade que, se todos somos diferentes, é muito estranho que os livros não tenham aventuras com personagens como todos nós."

Foi isto que escrevi para acompanhar o livro. Mas, antes de escrever, pensei no estranho que é este livro ter sido editado pela primeira vez em Portugal em 2018. Pensei se faria sentido ser tão importante historicamente, ainda, apenas pela cor de pele da personagem principal. Pensei na fama que esta personagem terá dado ao seu autor. Li sobre o assunto e hesitei ainda sobre o valor artístico da história e ilustrações, no contexto da época, fora a questão da cor da pele.

Depois pensei que mesmo mau era inventar problemas, pensar demais, pôr politicamente correto sobre politicamente correto e não dar a conhecer um livro realmente pioneiro e no qual tantos meninos — de tantas cores —se hão de rever e sonhar com a neve, que rareia por estas bandas.

Para além da sua importância sociológica, Um dia de neve é também, mesmo, um álbum graficamente vanguardista, cuja história infantil (no melhor dos sentidos) nos é contada como se viesse diretamente da boca de uma criança, com onomatopeias e tudo!

Não sei se uma criança, ao ler este livro, dará hoje conta da pele de Pedro. Cá em casa não deu para fazer a experiência porque lhes falei do contexto do livro. Mas acredito, quero creditar, que, com tantas personagens de tantas cores que por aí andam, a cor deste menino não seja para onde as crianças vão olhar.
Mesmo na última página, Pedro atravessa a rua para chamar um amigo e ir brincar com ele. Os dois estão de costas. Mas gosto de imaginar que, por de trás do recorte que desenha o fato de neve, o amigo tem a pele verde às pintinhas cor de laranja. Porque — o que é que isso interessa?
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Um dia de neve
Orfeu mini, 2018 (1ª edição de 1962)
Ezra Jack Keats
isbn 9789898868152
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9.1.19

Pousar um livro nas mãos

Comecemos o ano com um livro sobre livros. Porque já estamos no futuro e ler, que vem lá dos tempos antigos, ainda é uma belíssima coisa para fazer.
Estou plenamente convencida que as crianças que não gostam de ler, nunca tiveram nas mãos o livro certo para elas. Dislexias à parte (ou outras perturbações que causem cansaço), acredito mesmo que um livro certo pode ser o clique que falta para agarrar um miúdo à leitura. E tenho cá para mim que ler é um ótimo vício.

Com os meus miúdos continuo a usar a regra da BD durante o dia e ao fim-de-semana. Mas a verdade é que, à medida que vou lendo sobre o assunto e ouvindo várias opiniões, estou bastante mais flexível nas minha convicções sobre este assunto: embora continue a achar que uma boa BD não é o mesmo que um bom álbum ilustrado ou um romance, a verdade é que ler é ler.
E também é verdade que as coisas se contagiam, uma coisa leva a outra e, acho, o ato solitário de alguém que pega num livro, é em si um valor. Daí até outros voos é só uma questão de timing. Ou do livro certo.

Os meus rapazes lêem patinhas e Mafaldinha, Lucky Luke e Corto Maltese, Calvin e Charlie Brown. Mas também lêem do resto. Têm gostos diferentes, os três, e o R está ainda a descobrir o prazer de ler um livro grande com menos ilustrações.
Quando vejo que está mais cansado, em vez do pequeno romance com poucas ilustrações, levo-lhe um conjunto de álbuns ilustrados, mais pequenos, que lê de seguida. Ele, talvez mais que os outros, gosta e precisa (ainda?) muito da imagem.

Lucas, a personagem do livro que aqui ponho hoje, não quer ler BD, quer é voar, como já todos quisemos (ou queremos!) um dia. As asas que vai pedindo e recebendo são a fingir e Lucas não quer voar a fingir. Quer mesmo voar. Até que um dia a mãe "pousou-lhe um livro nas mãos".

Que frase magnífica.

Num tempo em que se apregoa com algum facilitismo a liberdade das crianças, em que os pais têm medo de estabelecer regras por quererem ser acima de tudo pais "fixes", esquecemos muitas vezes a beleza que pode ser educar. O apontar caminhos. O estabelecer regras, sim, porque é certo e sabido que dão segurança aos miúdos e, a seu tempo, os irão ajudar a serem responsáveis, fortes e autónomos. Felizes.

É a mãe que pousa o livro nas mãos de Lucas. É a mãe que lhe dá a conhecer o poder da leitura. É a mãe que lhe dá as asas para poder voar. E, reparem, não é por acaso que vemos a mãe a ler no jardim, distraída do pequeno Lucas que já acordou da sesta.

Depois de apanhar o bichinho da leitura, a aventura de Lucas segue para cima, numa montanha de livros em direção ao céu onde, inevitavelmente, acaba por voar. Voar mesmo.
Mas o poder do voo, esse veio pelas mãos da mãe, que lhe pousou o livro nas mãos. O livro certo. Depois outro, depois outro e depois outro.

Por tudo isto, não tenham medo de não ser "fixes" e de lhes dizerem que agora é o tempo de ler e não de TV ou de consolas ou de qualquer outra coisa que inventem para fazer naquela altura. Acreditem que a aventura de ler um livro leva a outras aventuras magníficas. Pousem-lhes um livro na mão. E depois outro e depois outro e depois outro.

Este será com certeza um dos livros que irei enviar nos pacotes deste ano. O trimestre de inverno já está online! Que me dizem de, como resolução de ano novo, em vez de perderem, ganharem um vício? Um bom vício!

Um bom ano!
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A montanha de livros mais alta do mundo
Jacarandá Editora, 2018
Rocio Bonilla
isbn 9789898895196

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25.12.18

A bíblia do Silêncio — A enciclopédia do Som

No princípio era o Verbo e antes do princípio era o Silêncio.

É pelo silêncio que começa este livro, para depois chegar ao som.

Um pouco de filosofia, porque um não existe sem o outro, certo?

Um livro lindíssimo: juntem uma enciclopédia científica apurada a ilustrações requintadas e um texto com o coração no lugar certo. É isto; e isto não é pouco.

No ano passado, em Madrid, estive quase a trazer mais este livro na mala, mas acreditei que chegaria a Portugal, mais cedo ou mais tarde. Chegou a tempo.

Queria poder ler e dar a ler o texto em português porque me pareceu que era mesmo bonito — não tinha sido só o tema e as ilustrações que me tinham prendido a atenção. E não me tinha enganado.

O Evangelho que sempre se ouve no dia de Natal, de São João, não fala do Menino no presépio, mas do Princípio: verbo, palavra, carne, corpo, som, silêncio.

Somos tudo, tudo se liga, tudo é Mundo. E como precisamos tanto de tudo e todos.

O silêncio é talvez o mais precioso, no meio do turbilhão da vida. Para nós e para os miúdos. É tão difícil como essencial estar em silêncio, por dentro e por fora. E há pouco tempo e espaço para ele na nossa  vida.

Porque é só nesse silêncio que nos encontramos e que encontramos os outros, o mundo, a vida, a felicidade. E é muito bonito encontrar essa mensagem num livro científico.

Que tenham um belíssimo Natal, por dentro e por fora, no meio dos sinos e dos guizos, mas também no silêncio de cada um.
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Alto, baixo, num sussurro
Orfeu mini, 2018
Romana Romanyshyn e Andriy Lesiv
isbn 9789898868336

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11.12.18

A construção de si

Dou aulas há 12 anos. Não costumo falar disso aqui. É como se essa parte da minha vida — que enche grande parte dos meus dias — não fizesse parte da minha história aqui. A razão é simples: pudor.

Se já tenho algum em revelar aqui os meus filhos — que tenho dado a conhecer ao longo dos anos através da sua relação com os livros —, esse pudor aumenta imensamente quando se trata dos filhos dos outros. Os meus alunos são filhos de outras pessoas e os seus trabalhos ou o que dizem, por mais interessante que seja, não é para aqui chamado. Acho eu.
Por isso, aqui passo ao lado dessa existência, dessa relação, desse trabalho, dessa dedicação, desse combate.

Escolho a palavra combate. Ensinar é uma batalha. Não ensino só a desenhar. Não é só isso que acontece, quando passam por mim 130 adolescentes por semana. No meio da confusão, ensinar a desenhar parece ser às vezes o que acontece por acaso: há que os convencer a experimentar, a trabalhar, a insistir, a ficar sentados, a quererem fazer melhor.

Quem me conhece sabe deste gosto pelos livros e de como gostaria de me centrar apenas nisto.
Além do cansaço que é manter tantos trabalhos ao mesmo tempo, tentando garantir que tudo corre bem, custa-me cada vez mais a burocracia e os entraves que todos os dias se levantam ao ofício — vocação, quiçá — de ensinar.

Por outro lado tenho a certeza de que sou muito melhor professora hoje que ontem, este ano que há 12 anos, quando comecei, com o T na barriga, a ensinar a desenhar.
Nos dias em que corre bem, em que um miúdo finalmente acaba um projeto em que se envolveu durante várias semanas e olha para o que conseguiu com orgulho, nem reparo na estafa que tenho em cima. Da luta de não desistir de lhes dizer sempre: "está a ficar bem, mas experimenta fazer assim ou assado"; "já está melhor, mas sei que ainda dá para fazeres mais isto ou aquilo"; "não digas não consigo, o máximo que podes dizer é não estou a conseguir — se dizes não consigo, é meio caminho para não conseguires mesmo"..."

Do esforço que é tentar perceber o que funciona com um ou com outro.
Do desalento que é, às vezes, não chegar a alguns. Sei que dão a volta, mas muitas vezes mais tarde, quando já não são meus alunos.
Mesmo assim é bom saber que alguma coisa fica lá, nem que seja em apenas um dos 130.

Vem este postal a propósito deste melro artista e de como o achei parecido com os meus alunos adolescentes: está lá tudo, em potência, mas é preciso ajudá-los a focar e a procurar o melhor em si. O melro ganhou confiança para ser quem é e sentir-se bem com isso.

Não sem no entretanto sofrer bastante, tal e qual como um adolescente que sofre e vive tudo tão intensamente. Mesmo aqueles tocados pela aparente brutal indiferença!

Como este melro artista, sofrem com o seu corpo, com os seus pares, com os adultos, com as suas escolhas, com a construção de si próprios. Mas depois vibram, também intensamente, perante a obtenção de um sucesso e disso é mesmo bom de fazer parte.

Por exemplo, receber uma carta de um aluno de quem nunca sonharia receber nada, em que me diz, passados anos, que eu ter sempre acreditado nele (mesmo quando ele não acreditava em si próprio) foi um marco fundamental na sua vida, dá forças para mais 12 anos disto.
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O melro artista
Bizâncio, 2018
Marion Deuchars
isbn 9789725306178

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23.11.18

Blacklist (na Blackfriday)

No verão conheci o instagram da Claúdia Mestre, uma beachcomber, e em agosto, além das costumeiras conchas e búzios, andei à procura de plástico na praia.

Na minha ingenuidade, fiquei feliz de não conseguir fazer nenhuma coleção em 15 dias: encontrei 3 ou 4 peças, nada mais.

Fiquei feliz porque achei que tinha o privilégio de poder ir a uma praia limpa (e sim, tenho esse privilégio), mas não sabia que no verão há menos lixo na praia porque a limpam com maior frequência e porque o vento predominante no verão não traz tanto lixo do mar para terra.
Aprendi isso agora que acabei de ler este Plasticus Maritimus, uma espécie invasora.

Há uns tempos que ando com o plástico na minha blacklist: há muito que deixei de comprar filme plástico para guardar alimentos, papel de prata também já não uso e, mais recentemente, arranjei uns sacos de pano fininhos para poder comprar fruta e legumes sem mais plástico. Ainda pensei fazê-los, mas estava a demorar tanto a concretizar isso que resolvi o assunto no supermercado.
Também comecei por embrulhar o pão do lanche dos miúdos em sacos de pano, mas como eles os perdiam, passei a embrulhá-lo em papel e a pô-los em caixas com a fruta e o leite. E ninguém se queixa de que está duro.

Há uns anos que me perturba não apenas a quantidade de embalagens, mas a quantidade de plástico que existe em cada embalagem. Quem vai às compras sabe que o consumo mais rápido e mais barato implica mais plástico — as frutas embaladas (em plástico, claro) são mais baratas que as outras e é muito mais rápido pegar num saco já feito do que enchê-lo.

Enfim, é pouco. E há quem esteja muitíssimo mais atento a isto e, melhor, muitíssimo mais envolvido nesta luta, que tem de ser global.

As crianças são o alvo perfeito para este tipo de mudança: para elas o óbvio é mesmo óbvio e ainda não têm os "mas-na-prática-não-dá" que os adultos tanto usam para se desculparem da sua preguiça de mudar.

No verão sou muitas vezes intimada pelos meus miúdos a desligar o ar condicionado no carro. E, se de facto dá para abrir janelas, desligo mesmo. Fica quente, mas bem, é verão, é suposto estar quente. E no inverno a chauffage está muito bem.

Confesso que fiquei bastante assustada com os números que li. Nem as ilustrações lindíssimas do Bernardo nos conseguem distrair da gravidade do problema. E fiquei um pouco desolada, também: porque é mesmo muito difícil fugir ao plástico. Ao descartável, digo, porque o plástico em si é objetivamente um material interessantíssimo.

Mas o livro não é uma profecia da desgraça. É antes um alerta, um guia, uma ajuda. Contra factos, dá pistas, sugestões, brincadeira, esperança, revolução. É meio esquizofrénico, porque ao mesmo tempo que explica o perigo desta espécie invasora, trata-a depois como objeto precioso — artístico, até!

O T, que fez 12 há uns dias, repete muitas vezes os 3 R's. Hoje vou entregar-lhe o livro e mostrar-lhe que neste Plasticus maritimus, falam de mais uns e somam sete: repensar, recusar, reduzir, reparar, reutilizar, reciclar, revolucionar! E sei que ele fará por isso e com ele todos os que se deixarem contagiar por esta urgente revolução.
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Plasticus maritimus, uma espécie invasora
Planeta Tangerina, 2018
Ana Pêgo, Bernardo P. Carvalho, Isabel Minhós Martins
isbn 9789898145901






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