24.4.19

o bicho do livro

Ontem não recebi nenhuma rosa, mas ofereci um livro ao B — um livro a que regressava todas as férias na quinta e que, entretanto, desapareceu. Encontrei-o na OLX e fui ontem buscá-lo ao outro lado da cidade para lho oferecer: um sucesso.

Além disso recebi, de várias pessoas, avisos e fotografias da manifestação pró-leitura que aconteceu no Camões: que bom.

Nunca fomos à Biblioteca Nacional e já está na lista de programas de família que gostamos de fazer e vamos riscando à medida que se vão realizando. Que bonito, um livro sobre este magnífico lugar de livros!

Este é um livro didático, sim, no sentido em que o seu objetivo primeiro e claro é o de "ensinar sobre" alguma coisa.


 Mas — e ainda bem — está bem longe dos livros ditos didáticos que têm tanto de chato como de inútil.

As ilustrações da Mariana Rio ajudam-nos a imaginar  o que não conhecemos e a forma como a autora constrói o percurso, com a ajuda de algumas personagens, faz com que nos sintamos também parte desta visita guiada.

Grande dama da literatura infantil em Portugal, Luísa Ducla Soares começou a trabalhar na Biblioteca Nacional em 1979, por isso não poderíamos ter melhor cicerone.

Há a História e uma história, a da Biblioteca Nacional e a do livro dentro da Biblioteca Nacional. Há o percurso do livro e o percurso do leitor. Há factos históricos e curiosidades.

Os ingredientes certos para que este seja um livro que apetece ler. Um livro que desperta a curiosidade, a vontade de saber mais. Tudo, enfim, o que um livro deve ser.

No outro dia ouvi uma académica a falar da sua infância e, cheia de carinho, referiu a carrinha da Gulbenkian, a biblioteca itinerante. Nunca vi uma, mas fiquei feliz por saber que agora anda pelo menos uma por aí.

Também há algumas bibliotecas nos jardins (umas mais resistentes, outras mais recentes) e as Little Free Library — que, fiquei a saber, são oito em Portugal, sendo que quatro delas são na Ilha Terceira, nos Açores! — e o mais global Book Swap. Aqui, na cidade, ainda há quem vá ler par ao jardim e eu acho isso comovente.

É que o bicho dos livros existe mesmo. É só preciso deixarem-se infetar por este vírus maravilhoso.
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Vamos conhecer a Biblioteca Nacional
INCM, 2019
texto Luísa Ducla Soares, ilustrações Mariana Rio
isbn 9789722727303

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19.4.19

A ressurreição da flor

Entre a violência da chuva e a força que os raios de sol já têm nesta altura quando aparecem, andam os botões floridos em todo o seu esplendor.

O preto e branco que as nuvens criam sobre as cores das flores, parece-se com as páginas deste livro, também a preto e branco, onde as cores ficam reservadas às personagens principais, a alguns pormenores que os mais pequenos adoram tentar encontrar e ao verde do campo.
 
A história dos amigos construtores, que faz as delícias dos miúdos quando estão na mais ou menos eterna fase dos carros, parece, à primeira vista, uma história do tipo "Bob, o construtor". 
E, em certo sentido, é mesmo. Cada máquina, humanizada, tem a sua função na construção da cidade.

Só que a Escavadora, qual Principezinho, encontra um dia uma flor de quem passa a tratar.

Está a chorar, está a chorar — repete T, 2 anos, mal abrimos o livro.

Os dois não são os quatro, onde normalmente aparece a questão da morte e a perturbação que o choro da escavadora causa à miúda é muito maior do que a morte da flor.

Não sei se isso se passa porque a flor não está humanizada, ao contrário da escavadora, ou se porque já sabe que as flores morrem, mas nunca viu uma escavadora a chorar; o certo é que, o que a perturba, é o sofrimento da escavadora que fica e não a morte da flor que desaparece.

Até porque não desaparece: por entre as lágrimas, para lá do fumo das máquinas, a Escavadora repara nas sementes que a flor deixou quando morreu e, carregando-as carinhosamente na pá, sai da cidade em busca de um terreno bom para as semear.

No Carnaval semeámos milho, crougettes, abóboras e plantámos pimentos e tomates.
Agora, na Páscoa, esperávamos encontrar o fruto do nosso trabalho a crescer.
Mas os pássaros roubaram os grãos de milho e os pimentos estão raquíticos, porque vieram duas saraivadas e o gelo ficou nos campos durante dias.

Melhor sorte teve a Escavadora que conseguiu fazer brotar um lindíssimo campo de flores e matar saudades da sua amiga.

Escolho este livro para os dias da Páscoa. Não é um livro sobre ovos e coelhos, mas é um livro que mostra a possibilidade de redenção que se esconde na morte, sempre brutal e sempre difícil.
Santa Páscoa!
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A escavadora e a flor
Editorial Bizâncio, 2019
Joseph Kuefler
isbn 9789725306086
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15.4.19

A natureza não faz selfies

A natureza não faz selfies.

E como a natureza não faz selfies uma miúda (e mais umas 30 pessoas, 40 países, muitos anos, etc, etc) arranjaram 8 telescópios e um algoritmo para fotografar um buraco negro, viram?
Explicam-nos depois que não é bem uma fotografia, no sentido clássico de uma impressão de luz, e sim a visualização de um conjunto de dados. Até porque um buraco negro não tem luz, logo não é fotografável. E depois? É incrível na mesma. Entusiasmante e com aquele cheiro bom a Futuro.
Bernardo P. Carvalho não fotografou um buraco negro, mas foi ali tirar uma chapa entre as ondas, onde gosta de andar.
Deu cara e voz aos quatro elementos&cia para criar este episódio que, imagino, se passe ali algures no meio do Atlântico, naquele cantinho de paraíso a que chamamos Açores. Se bem que haja um iceberguinho...
Uma erupção vulcânica é uma montanha com uma indigestão, pois claro. E, o arco-íris, a maquilhagem — um pouco espampanante, talvez — que a floresta põe para a fotografia.
O vento, transparente, tem questões de autoconfiança e o sol forte tem sempre a nuvem a fazer-lhe sombra. Literalmente.
As personagens alinham-se ali no meio do mar e podemos assistir a este diálogo de gigantes.
Mas não é que estes supostos "gigantes da natureza" se revelam uns miudinhos vaidosos a fazer poses para a selfie?? Clic-clac!
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Banana!
Planeta Tangerina, 2019
Bernardo P. Carvalho
isbn 9789898145918
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3.4.19

vivíssima flatline

Tenho um fraquinho especial pelos silent books, os livros sem texto, os só imagem, aqui na prateleira.

Quando penso neste Horizonte julgo sempre que é um deles. Acho até que funcionaria sem o texto que dá de facto leituras mais precisas e, mais importante, a leitura única e particular de quem criou este Horizonte.

Aprender (e ensinar...) perspetiva tem o que se lhe diga, mas quando se percebe a lição do horizonte, tudo parece alinhar-se e encaixar.

E o ponto de fuga — que primeiro é só um ponto de interrogação — transforma-se rapidamente num ponto de exclamação.

Não sei se é defeito de formação, mas este livro parece-me muitíssimo arquitetónico pelas perspetivas em que vai mostrando o mundo.

Ao longo de todo o livro corre uma linha (que vem da capa, das guardas), uma espécie de linha da vida que acompanha o horizonte mais ou menos discretamente, mais ou menos ininterruptamente:

pavimento, ponte, sopé, moldura, cintura, caixilho, beira-mar, beira-rio, texto(!), muro, guarda, carril, rede, caminho, cumeeira, azulejo.

Parece-me uma espécie de linha da vida que, embora seja a direito, nada tem de flatline dos monitores cardíacos. Ao contrário: é vivíssima!

Na última página um abraço interrompe — ou faz abrir? — a linha. E fica a pergunta.

Temos ideia de horizontes vastíssimos na natureza.

Mas, sim, Carolina, também acho que o horizonte mais vasto, especial, espacial e único é aquele que temos dentro de cada um de nós.
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Horizonte
Orfeu Mini, 2018
Carolina Celas
isbn 9789898868190



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25.3.19

Clandestino

Ponho aqui hoje este livro colorido, divertido, provocador, politicamente incorreto, vivo, clandestino e um pouco excêntrico, em memória de Manuel Graça Dias.

Por alguma razão que desconheço, foi meu professor não um, mas dois anos, ao contrário do que era costume, na Faculdade de Arquitetura. Por isso tive a sorte de aprender dois anos com ele; e, se tivesse de apontar apenas um professor importante na minha formação, o MGD seria o tal. Sei que, cada vez que entrar no LuCa, me vou lembrar dele.

Não sou grande fã do seu trabalho como arquiteto, mas foi com ele que aprendi a projetar, a repensar, a tirar lições da arquitetura sem arquiteto, a defender ideias, a encontrar a beleza em lugares estranhos. Foi também com ele que aprendi que o humor pode ser uma ótima ferramenta: de projeto e de vida.

Porque me pediram um pequeno estudo, tenho andado às voltas com livros sobre e à volta da arquitetura para miúdos. Mas não é um desses que escolho hoje para este in memoriam.
Porque não é o arquiteto que aqui quero homenagear, mas sim o grande Professor, pulsante, que nos provocava sempre de forma a nos abanar os alicerces. E sei que este Supõe... seria certamente do seu agrado.

As ilustrações com figuras estranhas e não exatamente bonitas ou agradáveis, as cores vivas e vibrantes, o humor e o inusitado, as sobreposições e perspetivas arrojadas — são tudo ingredientes de que gostava e nos ensinava a valorizar.

Ainda antes dos seus programas na RTP e dos seus livros, cativava-nos pelas imagens que escolhia para os slides provocadores e excêntricos que comentava, à média luz, no Convento de São Francisco, ao Chiado — onde tive a sorte de ainda frequentar o meu primeiro ano.

Acabados de chegar à Faculdade, éramos muito tenros para aguentar as suas críticas mordazes, mas tive a sorte do Professor gostar sempre muito do conjunto de desenhos que lhe tínhamos de mostrar à 3ª feira — terror dos meus colegas. Esses elogios deram-me a segurança para avançar no meu caminho. Eu, que tanto aprecio a Maria Montessori, discordo dela nesse campo: passo muitas vezes por trás dos meus alunos e atiro um elogio. É que um elogio, na altura certa, é um combustível para um bom trabalho.

A maior rabecada que recebi numa apresentação, foi por ter gasto todas as ideias no primeiro projeto: Ó menina, disse-me, então foi gastar as ideias todas num projeto! Isto parece um parque de diversões!? Bastava ter pegado numa destas ideias e desenvolvê-la. E depois deu-me uma boa nota, porque havia ali potencialidade e, afinal, era o nosso primeiro projeto.

Sei que sou bastante exigente enquanto mãe e enquanto professora e, neste segundo departamento, julgo que o sou porque aprendi a repensar ideias a partir das críticas dele. Divertido e entusiasta, sem papas na língua, via-se que não gostava de perder tempo. Mas sabia ouvir, embora tenha deixado em lágrimas vários colegas meus, com a dureza das suas críticas, muitas vezes demolidoras.

Ensinar passa por nos pormos na pele do outro e pegar em ideias que provavelmente não teríamos, porque não são as nossas, e fazê-las crescer. Mas também pode passar por demolir para abrir espaço e ser depois possível construir alguma coisa melhor. E isso não é nada fácil de fazer.

Este Supõe... é um conjunto de suposições, de situações, de pensamentos que talvez tenhamos imaginado enquanto crianças — que talvez ainda imaginemos —, mas que não era, não é, suposto verbalizarmos. O MGD verbalizaria.
Uma espécie de livro clandestino no universo dos álbuns ilustrados, como muitas vezes o foi MGD no universo da arquitetura dos arquitetos.

Vou ter saudades de o encontrar por aí com o seu boné e de lhe acenar com um "Professor" e não com um "Arquiteto", como é costume na profissão, porque gostava de lhe lembrar que tinha sido sua aluna. E que tinha muito orgulho nisso.

Este foguetão é para ir ali a lua e voltar, Professor!
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Supõe...
Bruaá, 2018
texto Alastair Reid, ilustrações JooHee Yoon
isbn 9789898166401

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