26.9.16

Voltar a pôr a máscara

E pronto, começou o outono. Partiu-se a concha que trazia ainda ao pescoço, sem coragem de a tirar, como um sinal da mudança que já se vem sentindo no ar fresco que de repente nos acorda de manhã.

Estar fora do mundo é afinal estar totalmente no Mundo e depois de dois meses descalços, numas férias mesmo à antiga, é difícil voltar a entrar nos nossos próprios sapatos. Literalmente e literariamente. O contacto com a natureza, areia ou erva, mar ou mina, peixe ou rã, faz inevitavelmente repensar o modo como vivemos, os lugares onde vivemos.
A cidade, o lugar que desenhámos e de onde expulsámos a natureza, mói; e se é muito bom voltar a casa depois de tanto tempo, é difícil voltar a sair dela a toda a hora, com os novos horários e os mil afazeres que de repente se impõem na nossa vida, que impomos na nossa vida.
Há tanto para mudar na cidade.

Nesta altura de recomeços e mudanças — e por aqui estão todos a começar novos ciclos — a nós pais cabe encontrar o equilíbrio sempre difícil entre aquilo que achamos que devemos proporcionar-lhes e o tempo livre essencial.

Confesso que me continua a custar muitíssimo voltar a ficar sem eles durante o dia. Eles estão mais crescidos, claro, mas para mim é tão difícil como quanto eram mais bebés: passar de dois meses sempre juntos, com dias que têm de facto 24 horas, para o corre-corre da cidade é um parto violento. Para eles e para nós.

No meio do puzzle e do malabarismo de horários guardamos um dia em que todos vimos diretos para casa. É uma respiração de que sinto falta e que faz pousar todos devagarinho. Não fazemos nada de especial, na maioria das vezes estamos como nas férias, só todos juntos num lugar mas cada um a fazer a sua coisa. E isso é tão bom.

Na quinta, onde a casa é grande, o R ainda vem perguntar onde é que eu estou para depois ir à vida dele sozinho, mas já com a segurança de saber que eu estou ali.

Mesmo assim, e no meio do caos da rentreé, já conseguimos voltar a fazer o teatro com o livro das máscaras (como é conhecido o Na floresta das máscaras) embora sem a ajuda das árvores, do lago, da torre e das pedras. E é sempre um êxito de bilheteira.

Nesta história pomo-nos (mesmo) na pele dos animais e corremos com o caçador que foge em pânico,

o mesmo que ele próprio causou entre os animais no início do livro.
Hoje quando chegar a casa, o R vai ter a surpresa de finalmente ter as guitas postas nas máscaras para podermos "ser mesmo" estes seres da floresta e expulsar o caçador.
 
Olhem para ele a correr de volta para a cidade, onde estamos agora de regresso

e com tantos livros para mostrar!
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Na floresta das máscaras
Gatafunho, 2016
Laurent Moreau
isbn 9789899929678
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31.8.16

repost#21: A árvore generosa [20032010]

(Isto é um postal entalado entre o Dia do Pai e o Dia da Árvore: como não deu para fazer um para cada, aqui fica um dois-em-um. Pois, e ainda fica a faltar o da Poesia.)

Os Pais são como as Árvores, como é esta árvore.
Com uma presença mais discreta que a da mãe, o pai está sempre lá quando precisamos dele, e precisamos dele muitas vezes para descansarmos um pouco

na sua sombra ou para lhe pedirmos os seus sábios ramos para construirmos a casa

que somos nós.
Depois

pensamos que já nem precisamos assim tanto dele

mas regressamos

sempre pelas razões mais incríveis,

grandes ou ínfimas, e o pai dá sempre,

-se sempre, normalmente sem muitas palavras

mas sempre feliz e presente e necessário, como é esta árvore.
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A árvore generosa
Bruaá, 2008
Shel Silverstein
isbn 9789898166005
primeiro visto aqui
comprado aqui
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30.8.16

repost#20: Il ne faut pas confondre... [02022010]

Li algures, há um tempo atrás, que um dos objectivos de uma mãe é conseguir ir-se tornando dispensável.

Estive fora, voltei e os miúdos estiveram bem.

É verdade que o meu lado egoísta e lamechas secretamente desejava um pouco mais de drama

(até porque já precisei menos da minha mãe),

mas sabe mesmo bem saber que estão a crescer fortes e seguros.

Agora estou de regresso e, claro está, com livros na mala.

Se vão arranhado palavras em inglês e brincando com o italiano,

o francês não vem à baila tantas vezes. Aprenderam o básico quando fomos a Paris e depois esqueceram.

Agora nem eu perceberia algumas destas palavras, não fossem

as imagens a ajudar.

Este é um livro que brinca com a semelhança fonética

entre algumas palavras francesas,

com ilustrações à altura.

A edição é muito cuidada (os cantos arrendondados das páginas,

a óptima gramagem e toque do papel, a ausência de brilho até na capa dura) como, aliás, tudo o que vi desta editora.
Um livro muito divertido, cheio de cocós,

arrotos e outras coisas nojentas,

mesmo como eles gostam.

(E, pelo meio, vamos aprendendo novas palavras em francês.)
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Il ne faut pas confondre...
Albin Michel Jeunesse, 2009
Bruno Gibert
isbn 9782226193537
primeiro visto aqui
comprado aqui
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29.8.16

repost#19: The fairy tale filmes [20022010]

aqui tinha anunciado que iria falar

desta senhora.
Aqui e aqui há óptimos posts com pormenores sobre a história

a técnica utilizada por Lotte Reininger, uma alemã radicada em Londres,

pioneira genial do cinema de animação.
Se nós (os trintões) já estranhávamos aquelas animações polacas (e estas provavelmente) que o Vasco Granja nos apresentava,

imaginem 30 anos depois, os nossos filhos a verem estas animações com quase 100 anos.

É provável que estranhem, como nós (e não dizem), mas é certo que gostam, como nós (e dizem).
Como lhes expliquei de que modo eram feitas,

cada vez que vêem os filmes, o B faz sempre a mesma pergunta:

mas como é que ela conseguiu?!
São 20 filmes de 1922 a 1961. Ainda só vimos metade do disco 1. Várias vezes.
Ora pasmem como nós:


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The Fairy Tale Films
Lotte Reininger, 1922/1961
região 2, 192 mn, pb/cores, PAL, inglês/alemão
encontrado aqui
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26.8.16

repost#18: Shut-the-box [13012010]

Li algures que entre os 3 e os 6 anos os meninos entravam na idade do jogo. Cá em casa confirma-se.
Como, aparentemente, também entusiasmamos outras pessoas a entrarem em despesas nos jogos (é por bem, é por bem!), a prateleira-de-baixo vai passar mostrar alguns deles.
E começo com um must: o "shut-the-box".

O B aprendeu os números negativos, com o Avô, no elevador para a garagem e a contar até depois dos 100, com o Avô, a ver básquete. O Avô adora números e é a ele, de certeza, que sai...
Se aos 4 a curiosidade se voltou para as letras, desde os 2 anos que os números são os reis na sua mente lógica e carregada de regras.

(Estranho até a súbita aparição de uma espécie de animal visual na maneira como desatou a ver coisas nas nuvens, nos rótulos, nos rabiscos ou no modo como desenha compulsivamente depois de anos de recusa.)
Para ele, este jogo serviu apenas para visualizar o que já fazia; para outros meninos que ainda não o fazem, ajuda a tornar os números palpáveis tratando a matemática como um jogo.
O T também já quer jogar; por enquanto lança os dados e baixa as peças dos números que lhe vamos dizendo para baixar. O que significa que às vezes nos ganha a todos.

O "shut-the-box" existe pelo menos desde o século XII, na Europa, mas não se sabe exactamente de onde vem. É um jogo de decomposição de números — dito assim parece chato mas, garanto, é divertidíssimo. Pode funcionar como um jogo solitário ou como uma competição.
Começa um jogador. As peças de 1 até 9 estão levantadas e lança-se os dados. Imaginemos que o total é 12.
Poderemos fechar a peça 9 e a 3, ou a 8 e a 4, ou a 7 e a 5, etc.

Volta-se depois a lançar os dados e, desta vez, já só se pode fechar as peças que não se tiver fechado na jogada anterior, e assim sucessivamente.
Quando o valor não der para decompor pelas peças que sobram,
lê-se os números das peças que ficaram levantadas. Lê-se, não se soma. Por exemplo, se ficaram levantadas as peças 1, 3 e 7, o jogador ficará com 137 pontos; ou se sobrarem as peças 2 e 8, o jogador ficará com 28 pontos.

Depois joga outro jogador da mesma maneira (tantos jogadores quantos queiram), ganhando a ronda aquele que tiver menos pontuação. O objectivo é conseguir fechar a caixa: quem consegue fechá-la, soma 0 pontos e ganha! Por cá, normalmente, joga-se por rondas até aos 10: quem fecha a caixa ganha 3 pontos; se ninguém fechar a caixa, o jogador que fizer a menor pontuação ganha 1 ponto.

[dica: quando não temos o jogo à mão, construímos um em papel, mas é mesmo bom fechar as peças, fechar mesmo a caixa!]
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EDITADO NA TIGER
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