20.9.17

a cidade e as serras

É difícil voltar a escrever depois de tanto tempo a "escrever" para dentro. Tantos livros e tantas histórias de verão se misturam na cabeça!

A cidade e as serras foi o meu último livro do verão, depois duma ida a Tormes, pelas serras de Jacinto. Achei que o tinha de reler depois de respirar aquele ar da serra e de comer o tão famoso arroz de favas, mas acabei por perceber que afinal era uma estreia. Devo ter lido a Civilização, só, este nunca.

E se não foi uma coincidência ter escolhido este livro para o epílogo das férias, a sua leitura foi muitíssimo certeira para o que vinha pensado neste mês e meio de praia e campo.

É só a meio do livro que o "meu príncipe", decide abandonar Paris e vir para Portugal, para a serra, para longe da civilização. Não é uma partida tipo mudança de vida: Jacinto leva — ou acha que leva— consigo todas as comodidades da civilização. A mudança de vida dá-se depois, de mansinho, com os ares da serra.

Este regresso à cidade, às rotinas e, principalmente, à diferença que se instala na vida da família, baralha-me. E porque me custa a adaptar ao imenso tempo em que passamos a não estar juntos — embora saiba que é saudável e natural que esse tempo vá aumentando — uso nesta altura imensas energias, tempo de reflexão e gestão para garantir que depois, tudo o que queremos que encaixe neste ano, possa fluir sem stress.

É a hora de conseguir equilibrar gostos, necessidades, tempo e bolsa nas atividades de cada um e já é bem mais fácil controlar-me no gosto que tenho em proporcionar-lhes experiências. Chamam-me hiperativa-criativa, mas a sério que estou cada vez mais adepta do viver devagar.

Leio muito sobre educação, quer por razões profissionais, quer pessoais. Quando o B nasceu, estudei a hipótese do homeschooling, procurei Montessori, li o Dodson e espreitei o Brazleton. Penso sobre as correntes que vão aparecendo, algumas cómicas, (mas que com os excessos em que caímos não são de estranhar), como os freerange kids, o número e o tipo de atividades, como hão de ir para a escola, para que escola, qual a idade certa para o telemóvel, quais a regras que vamos combinar, as tarefas em casa, o tempo em família. Depois decido, decidimos, procurando um equilíbrio.  A cidade consome. Somos de facto criaturas estranhas. Rodeamo-nos de civilização e depois?

A idade ajuda a ir clarificando as coisas, acho, e vou alterando algumas coisas que, de facto, não têm de ser assim. Nisto, o verão ajuda a ver mais claramente o que queremos realmente.

O equilíbrio da civilização, o equilíbrio entre a cidade e as serras que procuro criar durante o ano é, para mim — uma dessas criaturas estranhas! — difícil de encontrar.

Às vezes é preciso uma lição de simplicidade e de objetividade sobre a real importância das coisas:

ela pode vir dos lírios do campo, destes animais da floresta do Criaturas estranhas ou de nós mesmos, do verão que passámos fora da cidade, descalços, sem grandes malas, só com um saco de jogos e outro de livros

e muito tempo de luxo para dar uns aos outros.
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Criaturas estranhas
Orfeu mini, 2016
Cristina Sitja Rubio
isbn 9789898327727 

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28.7.17

gente nua

Já por aqui andamos — não nus!, mas descalços e maltrapilhos, no meio do verde do chão, do cinza da pedra e do azul do céu. E de livros, sempre.
Durante o dia há leituras deliciosas que variam entre o minorca R a ler ao ainda mais minorca E, ou ambos a ouvirem a tia N a ler uma história, enquanto o E aprende a tirar as fraldas.
Os mais velhos lêem tudo o que encontram no caos do que há-de-vir-a-ser-a-biblioteca e à noite, depois do Mysterium que durou toda a semana, divido um livro com o R, entre bocejos.

Também se fala muito sobre livros: os que já lemos ou que estamos a ler, os que encontrámos na arrumação da biblioteca e dos que vamos ler. Já nos rimos muito à mesa a falar do Leonardo e ainda mais quando o T e o B opinaram, com ar entendido, sobre para que idade consideravam aconselhável O livro sem bonecos!... As saudades foram tantas que o R o foi buscar e o veio ler para a mesa, onde os adultos se demoram sempre à conversa, ao fresco.

Quando, ainda em Lisboa, o R regressava da praia exausto, passámos algum tempo no tapete a ler e a aprender com este livro. Passávamos as páginas, para a frente e para trás até que ele dizia que já estava cansado e, no dia seguinte continuávamos mais um pouco.

Veio no saco para lhe voltarmos a pegar, mas a azáfama de primos tem sido tanta que este livro de estudo tem ficado para o lado.

Nele se abordam questões tão diferentes como a existência ou não de moldura nas pinturas, se há um lado certo para observar um quadro, porque é que há pinturas desfocadas, porque é que há tanta gente nua, o porquê das paisagens e do silêncio nos museus e até a velha mas sempre atual deixa do até-a-minha-irmãzinha-era-capaz-de-fazer-aquilo!

Para a semana estaremos mais sozinhos e regressaremos às perguntas&respostas deste livro divertido e bem documentado, que procura mostrar e fazer pensar: introduz conceitos e mostra obras fundamentais, à medida que torna tudo leve como um jogo, onde somos convidados a saltitar de página em página, para a frente e para trás, para aprender coisas novas, para repensarmos o modo como vemos as coisas ou até concluir coisas opostas àquilo que tínhamos como certo.

As férias são boas para isto mesmo. E é por isso que estes postais cessam agora e até setembro.

O verão é mesmo um tempo para se andar nu, despidos de tralhas que vamos acumulando. E desligar o computador deixa espaço para para aprender coisas novas, para repensarmos o modo como vemos as coisas ou até concluir coisas opostas àquilo que tínhamos como certo.

Certo será o pacote™ de outono que, a pedido de várias famílias que também desligaram computadores, volta a abrir inscrições entre 1 e 8 de setembro, quando regressa a vontade de voltar a preparar o ninho.

Depois lá seguirão livros entre setembro e novembro, para quem os quiser apanhar.
Até já e bom verão!
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Porque tem a arte tanta gente nua?
Bizâncio, 2017
Susie Hodge texto, Claire Goble ilustrações
isbn 9789725305911

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18.7.17

Sport Billy avant la lettre

Há livros que ficam connosco toda a vida. Há livros que queremos um dia reler. Há livros que temos medo de reler, por terem sido tão importantes e a segunda leitura poder fazer esmorecer o impacto que tiveram em nós.

Uns destes, ando a guardar para a velhice; outros vou guardando para o verão, que é também um tempo que passa mais devagar e mais depressa ao mesmo tempo.
Tenho vários assim. O som e a fúria, de William Faulkner é um destes livros.
E foi por isso que fiquei encantada quando percebi que existia um conto infantil deste autor e que, ainda por cima, estava traduzido e editado por cá.

Já está na pilha dos livros para levar de férias para eles. Os mais velhos vão lê-lo sozinhos; ao R e ao primo S  (e tenho a certeza que haverá mais primos a colarem-se), vou propor ler-lhes todos os dias um bocadinho, à noite, na praia.

A praia tem destas coisas: à noite o cansaço é tanto que a leitura noturna fica quase impossível, pelo que, no estágio de junho, adotámos a hora da leitura depois do almoço para os que já não fazem sesta. Isto dá não só sossego à casa para os que ainda — e sempre! — precisam de sesta, ao mesmo tempo que oferece um tempo de leitura aos que à noite têm todo o peso das ondas e da areia sobre as pálpebras.

A aventura dA Árvore dos desejos tem uma história por trás da história que é bonita de se saber;

a história propriamente dita é a aventura duma menina que acorda no seu dia de anos e dá de caras com uma personagem tipo Sport Billy avant la lettre, que tira objetos dum saco e as transforma em seres com vida e/ou objetos de tamanho real, que não caberiam à partida no saco.

 A busca pela verdadeira árvore dos desejos, as aventuras e desventuras fantásticas do grupo de miúdos e da criada (conjunto bem sulista e faulkenariano), o desenlace da história, o S.Francisco que aponta o que é realmente importante, são os ingredientes duma história que anda agora colada a mim, desde que tive a sorte de a ler.

Sem dúvida que irá nalguns pacotes™ de setembro — já se inscreveram?
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A árvore dos desejos
Ponto de fuga, 2017 (história escrita em 1927, 1ª edição 1964)
William Faulkner texto, Don Bolognese ilustrações
isbn 9789899975934
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6.7.17

Cá estamos, cá somos

Ao contrário do Lá fora, este li-o duma assentada só. E confesso que o vou reler, logo que saia de férias.

O B leu o capítulo sobre a adolescência — eu aconselhei-o — para tentar(mos) perceber a lógica das várias reações ilógicas que por aqui aparecem.

O T pegou nele ao serão (conquista de férias dos mais velhos, onde lemos os quatro enquanto o R lê os seus próprios sonhos) e tornou-se impossível ler, tantos eram os hiii, ohhh e os a sério?? que soltava enquanto lia. Pedia máquinas de calcular para tentar visualizar os números impossíveis dos nossos neurónios, fingia que chorava por não ter o cérebro totalmente "crescido"...

Sempre pensei que aparecesse um Cá dentro, claro, mas que fosse sobre o corpo ou sobre a casa, com sugestões de atividades. Ser sobre o cérebro é uma boa surpresa, de facto, porque o cérebro é de facto surpreendente. E também precisa de sugestões de atividades.

Um livro de peso, o Cá dentro é ao mesmo tempo muito solto e leve. Sem deixar de procurar ser científico e exato, o texto é duma sensibilidade imensa. O que os antigos achavam que comandava a vida era o coração; hoje sabemos que o motor máximo é afinal o cérebro, por isso não é de estranhar que no meio de tanta informação, o que fique do livro seja uma enorme sensação de beleza, porque se tratar afinal da história da vida, das emoções, das relações, do órgão que nos comanda a todos de maneiras tão ricas e diferentes.

Como mãe e educadora, encontrar algumas repostas científicas para coisas que tenho comprovado, é à vez reconfortante e surpreendente; como leitora — como eles são — ler o livro é absolutamente fascinante.

As ilustrações da Madalena, que economiza nas cores mas esbanja no arrojo e simplicidade, fazem brilhar o texto da Isabel/Mª Manuel e vice-versa.

A imensa delicadeza do livro é construída pela interligação do texto e da imagem e é muito bonito perceber como se pode ensinar transmitindo conhecimentos e educando sentimentos. Afinal o cérebro é mesmo o Coração, e há aqui vários lindíssimos.

Ao ler este interessante artigo, lembro-me outra vez de como ainda é parco o universo da não-ficção em português para miúdos e de como o livro certo na hora certa pode fazer (finalmente) nascer um leitor.

E de como tenho a certeza de que este livro vai apaixonar tantos miúdos — e graúdos.

Espero sinceramente que a Planeta Tangerina esteja agora a trabalhar num Em cima ou num Em baixo, sobre as estrelas ou sobre o subsolo! A vida não é a mesma depois de termos estes Guias de exploração que nos fazem entrar em nós e no mundo, de frente e de olhos bem abertos.

Estão abertas as inscrições para o pacote™ de outono e as primeiras 50 ficam automaticamente habilitadas a ganhar um exemplar deste livro. Vamos a isso?
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Cá dentro — guia para descobrir o cérebro
Planeta Tangerina, 2017
Isabel Minhós Martins, Maria Manuel Pedrosa texto, Madalena Matoso ilustrações
isbn 9789898145819

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30.6.17

A lupa de vidro vermelho

Inevitavelmente levo muitos livros aos meus alunos e inventamos trabalhos de desenho a partir deles. 
Há anos que repetimos o animalário em grande formato, todo feito a caneta de ponta fina preta, onde entre o hiper-realismo e o as brincadeiras de grafismo mais decorativo, dezenas de adolescentes passam semanas a fazer risquinhos e pontinhos em folhas enormes, chegando ao fim com um imenso orgulho do seu trabalho.

 E eu também.

Já fizemos Isto ou aquilo(s) muitíssimo engraçados e, este ano, resolvemos experimentar a técnica do papel translúcido vermelho, que apareceu nos últimos tempos em muitos livros, para camuflar o "nome do meio" de cada um: um sucesso.

Um desses livros é estA grande travessia dum pássaro até ao Outro Lado. Não, não é sobre a morte; é mesmo uma travessia, como a de tantos animais, todos os anos. Acompanhamos a sua viagem com uma lupa de vidro vermelho sobre os desenhos também (aparentemente) todos vermelhos, finíssimos.

Perante os nossos olhos, surgem novos mundos, novas histórias, grandes segredos — os desenhos azuis.
 
No final da viagem, Bico Vermelho, o pássaro, conta a história da sua grande aventura às outras aves, renitentes em acreditar no que ele viu.

O livro é uma espécie de poema ilustrado, com uma leitura daquilo que vemos e outra daquilo que não vemos, sem a lupa.

Às vezes é preciso olhar com mais atenção para àquilo que está à nossa volta, mesmo ali debaixo dos nossos olhos, para vermos que sim — estavam mesmo lá coisas magníficas.

A questão é saber o que terá de ser, para nós, a lupa de vidro vermelho.
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A grande travessia
Edicare, 2015
Agathe Demois&Vincent Godeau
isbn 9789896793449

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