12.11.18

Chamar os bois pelos nomes

Ontem, 11.11.18, celebrou-se o centenário do armistício da I Grande Guerra.

A propósito das eleições brasileiras, andou por aqui o O que é a ditadura. A certa altura, entrei na cozinha, onde se passava a seguinte cena, ao lanche: R, 7, apontava para a cara de cada um dos ditadores à espera de explicação para cada uma das suas histórias. E há histórias incríveis de recambolescas, principalmente as (que se repetem) de libertadores que se transformam em ditadores.

Este A guerra é um poema negro que diz as coisas como elas são. Não é por ser um livro de poucas palavras que é menos explicativo. Não. Os vazios que deixa, no texto e na imagem, deixam só espaço para as sensações de desconforto, solidão, tristeza, vazio e medo.  Sabemos (por experiência alheia e não própria — o que é uma verdadeira benção) que isto é a guerra.

Estive um dia em Verdun. A floresta-cemitério correria o risco de ser bonita demais, não fossem as baionetas espetadas de dentro para fora, em montes de terra.

Tenho sempre a ideia de que a guerra é uma coisa que acontece lá longe, mas não é preciso caminhar muito — no tempo ou no espaço — para concluir que essa é uma ideia totalmente ingénua.

Sei que quando o meu irmão nasceu, em 69, a minha mãe ficou aflita por ser rapaz ,porque temeu que tivesse de ir para a guerra. Sei que o papão da Guerra Fria que senti na infância está a aquecer. Sei que a história é cíclica.

Mas também sei que é possível mudar, ir mudando, e que os livros são grandes armas, passe a expressão. Armas porque poderosos, porque potencialmente perigosos na luta contra a ignorância.

Este não é um livro manso. Quase politicamente incorreto, não fosse tão infelizmente certeiro no seu timming, passa a ser um livro fundamental na guerra contra a guerra. Porque é para a infância, porque chama os bois pelos nomes e é bom não ter papas na língua quando queremos dizer NÃO mesmo.

Os miúdos têm festas de laser e paintball e deixo-os ir. Já nos pediram festas dessas e dissemos que não. E sabem o que achamos de jogos de guerra.

Ajudei o R a construir umas armas com ramos que fomos apanhar depois das chuvadas, mas as Nerf estão em casa dos avós para poderem brincar no pinhal.

Os psicólogos defendem que é importante brincar às guerras e verdade que todos brincámos às guerras. Mas tenho cá para mim que isso é um pouco como ver televisão ou comer carne: se não houver disso em casa, ainda assim vão ter sempre mais que suficiente.
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A guerra
Pato Lógico, 2018
José Jorge Letria texto, André Letria ilustração
isbn 9789899965881





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22.10.18

Pensar é preciso

Tardava, este postal. Porque há muito que não punha aqui um livro e porque é urgente falar sobre o que se passa no mundo.

O Museu do Pensamento foi connosco de férias e, embora na verdade tenha sido uma das peças do Teatro das Compras em 2014, mais parece uma aula de introdução ao pensamento filosófico.

Parte da interrogação sobre o que terão pensado todas as pessoas que durante 128 anos entraram na velhinha Chapelaria Azevedo, lá em baixo, no Rossio e na ideia de que o chapéu protege pensamentos e sonhos.
E foi exatamente por isso que emparelhei este livro com o do Chapeleiro lá no Lu.Ca, no Ciclo Catarina Sobral.

Já pus aqui na prateleira alguns livros de filosofia (mais ou menos explicitamente) para crianças e há uma outra coleção que os mais velhos já devoraram e à qual voltam com frequência. Este Museu é um livro para aprender a pensar, para fazer perguntas, uma espécie de chapéu pensador do professor Pardal.

Não me parece o livro mais certeiro para o R, 7, mas foi um dos que restou fora dos caixotes durante algum tempo (em que se aproximavam de mim com ar sofredor a perguntar se já não havia mais nada para ler). De modo que acabou por o ler mesmo.

Um dia, antes de lhe ir apagar a luz, perguntei-lhe o que estava a achar. E é o diálogo que se deu depois dessa pergunta que aqui vos deixo hoje:
Disse-me que era um bocado estranho: "Pensar em nada... Como é que se pensa em nada? Está-se sempre a pensar em alguma coisa... E o que é que é o nada?..."
T, 11, na cama ao lado, atira: "O nada é o vazio, é o mundo sem Deus."
Encolhendo os ombros e rebolando os olhos responde R: "Ó, isso é impossível..."
"Exato," respondeu T, "é por isso que é o vazio!"

Encostada à ombreira da porta, assisti àquele diálogo socrático entre os dois miúdos. No fim perguntei ao T onde tinha lido ou ouvido aquilo e respondeu-me que tinha pensado só naquela altura, para ajudar o R a tentar perceber.

Assisto também, deste lado do oceano, à luta política de tantos amigos brasileiros. A história repete-se como sabemos, mas nem por isso deixa de causar estranheza e choque.

E é por isso que hoje lhes dedico este postal, na certeza de que vale a pena atirar o chapéu ao chão em sinal de protesto e na esperança de que o possam atirar ao ar em sinal de festejo. E que, depois, possam começar juntos a reconstrução de um país pensado para todos.
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O Museu do Pensamento
Editorial Caminho, 2017
isbn 9789722128476
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21.9.18

Introdução à ficção científica

Voltar à cidade é muito difícil. Voltar a pôr sapatos nos pés é do pior e a minha ligeira claustrofobia ganha alguma expressão por estar muito mais tempo dentro de casa. Os miúdos adiaram até ao primeiro dia de escola tirar as havaianas dos pés — e eu também.

Não fui criada no campo, mas talvez por em criança passar o mês de agosto numa praia a norte e os primeiros quinze dias de setembro acampada no Algarve, tenha este sentimento de clausura em relação ao fim do verão dentro de quatro paredes.

Sobre um dos livros que escolhi para o espetáculo agora em cena no LUCA, falava da cidade como "um animal assustador, com muitas coisas estranhas escondidas na sua juba emaranhada. A natureza torna-se tímida ao pé da cidade". Pudera.

A cidade dos animais é uma história em que uma menina visita um grupo de amigos animais, num lugar secreto e lhes conta histórias. A história que os animais mais gostam de ouvir é aquela em que são protagonistas, como os meninos pequeninos.

Ao mesmo tempo que tem uma sinopse simples, esta é uma história intrigante, meio de ficção científica, porque retrata um possível futuro, em que uma cidade foi abandonada à natureza ou, melhor ainda, em que a natureza a engoliu.

As ilustrações são selváticas, com cores vibrantes e sobrepostas como é a natureza. Mas da mesma matéria são as cores dos despojos humanos, ali deixados para Nina e os seus amigos explorarem, como novos brinquedos. Os dois mundos são agora um grande parque de diversões para Nina&cia.

A história não chega a ser assustadora — porque é que a cidade foi engolida pela vegetação?, onde vivem agora os homens? — porque vemos uma representante da espécie humana, Nina, a tal menina contadora de histórias. Que belíssima característica humana, esta, a de contar histórias!
 
Ainda estamos na nossa velha casa, este miradouro da cidade, numa selva de caixotes, onde restam poucos livros de fora para ler. Haveremos de ter parte da casa nova a céu aberto e isso faz-nos aguentar melhor este aperto em que estamos, agora mais que nunca.

No entretanto, delicio-me a olhar lá para fora, para os caixotes de Lisboa, tão bonitos, para as pessoas que passam apressadas ou gritam em São Domingos e divirto-me a imaginá-los engolidos por lianas

e transformados em tigres e flamingos.
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A cidade dos animais
Orfeu Mini, 2017
Joan Negrescolor
isbn 9789898327994
 




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14.9.18

Um outro dia-um

Este verão vimos imensos pássaros diferentes. E dei-me conta de que já sei reconhecer muitos deles, quando os vejo ou quando os oiço: rolas, pisco-de-peito-ruivo, alvéola branca, flamingos, patos, águias, milhafres, gaivotas, melros, andorinhas, pardais, gralhas, cucos. Alguns eram os mesmos, no norte e no sul, outros só os vimos de passagem pelo interior ou então num fim de tarde de fim de agosto, já rumo a um outro sul, mais a sul.

Quando andei à procura dos livros certos para acompanhar o Tigre-lírio, que estreia amanhã no Luca, mostraram-me este pássaro na Baobá e não lhe resisti. Também lá me falaram dos editores do livro e, tanto quanto percebi, é este o livro que abre a coleção infantil. Não é coisa pouca.

"No dia em que começou a escola apaixonei-me. Era a primeira vez." — são estas as duas primeiras frases do livro. Hoje voltaram os três à escola.

Não lhes desejo tanto, para este ano que hoje volta a começar, embora de vez em quando já me pergunte como irá ser, para os meus miúdos, o amor. Este amor. Talvez ande inspirada pelos nossos 18 anos de casados — mas não é inspirador?
Só numa destas páginas cinzentas aparece, para além da grafite e de algum branco, um pouco de azul.

He's got the blues, pois é. Não tem nada a ver com estar triste, mas quem já esteve apaixonado, à espera, sabe bem que azul é este, que cinza é este, que branco é este.

O miúdo veste-se de pássaro, porque a miúda o que gosta é de pássaros. E são tão bonitos, como não?

Para isso constrói uma gaiola que serve de estrutura ao seu belíssimo fato de ave, mas que, sabemos também, prende agora o seu coração.

Acaba bem, a história, porque acaba num começo. E neste novo dia-um dos meus miúdos na escola, neste dia em que também voltam a tornar-se pássaros fora do ninho, sonho para eles muitos bons começos, pelo menos tão bonitos como este livro.

Embora ache que a bola ainda ganhe à meninas. Pelo menos por enquanto...
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O dia em que me tornei pássaro
The Poets and Dragons Society, 2018
Ingrid Chabbert texto, Guridi ilustrações
isbn 9789895405114
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7.9.18

Começar pelo final infeliz e viver feliz para sempre

Este vai ser o sexto trimestre em que envio o pacote™ e a maior parte das subscrições que tenho até agora são reincidentes nesta aventura. Não tenho a mínima veia comercial, sinto-me sempre muito estranha a publicitar o pacote™, mas a verdade é que é uma curadoria que adoro fazer.
Muito diferente da que ando a fazer no LUCA — e que também adoro! — que me põe a pensar na relação dos livros entre si, nas suas possíveis leituras, naquilo que podem oferecer ao espectáculo em cena e às pessoa que o vão ver, escolher os dois livros que envio por mês em cada pacote™ para cada uma das crianças inscritas, tem feito com que entre na minha vida a vidas de outras pessoas. Isso eu não esperava nem procurava, mas tem sido uma surpresa muitíssimo mágica que não consigo explicar muito bem. São os livros que envio que entram em casa das pessoas, pois, mas as descrições que fazem das crianças (em que também se revelam), as histórias que partilham sobre a chegada dos livros ou as reações dos miúdos às histórias, valem todo o trabalho a solo que por aqui faço.

A propósito de boas surpresas, ponho hoje na prateleira um livro que fala de como por vezes as coisas não correm como esperamos e de como isso nos parece mau à primeira vista. Que o diga o rato, que acabou de ser engolido pelo lobo mau.

A história parece começar pelo final infeliz, mas o rato depara-se com um outro habitante na barriga escura. O pato decidiu receber a sua situação de "engolido" de braços abertos e vive uma boa vida naquela caverna escura. De "engolido", disse, não de "comido", como ele próprio vem a frisar perante a possibilidade do caçador vir a ter sucesso na caçada ao lobo e, com isso, acabar com a sua vida.

Sou uma pessoa que luto pelas coisas, o que me parece bem em abstrato. Tento passar isso aos miúdos, filhos e alunos, e o "não consigo" é obrigatoriamente substituído pelo " não estou a conseguir" em minha casa e na minha sala de aula. Parece a mesma coisa, mas vejam bem como é tão diferente pois se o segundo tem implícita uma ação, uma tentativa,  o primeiro cheira logo a desistência.

Mas há um reverso nisto: também é preciso saber aceitar situações e fazer delas do-melhor-que-há. Muitas vezes uma música ou uma história ajudam-me a ver isso com mais clareza. É porque a música e os livros me ajudam a saber viver melhor que luto por uma presença forte de ambos na vida dos meus miúdos. E tenho a sorte de ter muita gente à minha volta que sabe fazer isso muito bem. Aproveito para ir aprendendo e fazer com que os miúdos o aprendam também.

A insatisfação é feia. O inconformismo é beleza. O pato ensinou isso ao rato e, depois do tal início pelo final infeliz, os dois viveram felizes para sempre.
Tinha este livro escolhido para um menino que está doente. Depois acabei por selecionar outro conjunto, mas gosto mesmo destes livros que ensinam a vida sem o dedo em riste.

E sou totalmente fã desta dupla de escritor/ilustrador: desafiam o esperado na temática e na paleta de cores supostamente infantis e acertam sempre na muche. Não me parecem nada insatisfeitos, mas o inconformismo é com eles. Ainda bem para nós.
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O lobo, o pato&o rato
Orfeu mini, 2018
Mac Barnett texto, Jon Klassen ilustrações
isbn 9789898868138

*as imagens retiradas deste postal foram retiradas aos Hipopótamos na lua porque, com a cabeça na lua, deixei o livro na quinta, junto às framboesas e aos figos. Obrigada.
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31.7.18

Fim? Não — férias!

Agora sim, chegou o verão e o tempo para (realmente) ler. Tive a sorte de poder parar uma semana antes da semana do fim, que é sempre de loucos. E este ano ainda mais porque estamos a embalar a casa!

Nessa semana li um livro por dia e agora, primeiro em modo final-de-ano-letivo e depois em modo-caixotes, ando deliciada a ler um conto (pronto, às vezes dois...) por noite, do Dino Buzzati — que mestre! Digo "às vezes dois" por que, por um lado, são tão bons que apetece ler outro e, por outro, porque em vez de conciliadores de sono, funcionam como despertadores!...
Não é que me apeteça mudar-lhes o fim, a coisa é tão genial que não apetece mudar nem uma vírgula, mas há uns que são de facto "demasiado tristes" e "difíceis de engolir".

Fim? Isto não acaba assim fala deste prazer que são as histórias e de como às vezes queremos poder escolher o melhor final para a história, ou seja, o nosso final.

O livro ganhou o II prémio internacional de Serpa para Álbum Ilustrado e não apetece mudar-lhe nada.

Uma história sobre o amor pelas histórias e o amor pela escrita, onde o mundo a preto e branco dos ratinhos (responsáveis por arranjarem o fim às histórias —sabiam???) contrasta com o mundo magnífico, explosivo de cores e de possibilidades da imaginação.

Fim? Não, isto não acaba assim. Vou só ali encaixotar a casa para depois partir de mala na mão para deixar que as histórias me aconteçam, no mundo e nos livros.

Em setembro regresso para desempacotar a casa e empacotar os livros do pacote™ de outono!

E claro, para vos mostrar os livros que andam por aqui, com belíssimos finais, por sinal, e para acompanhar os espetáculos do Lu.Ca que reabre também em setembro com um espetáculo que não vamos querer perder...

Fiquem atentos.

Boas férias para todos e leituras sem fim!
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Fim? Isto não acaba assim
Planeta Tangerina, 2018
Noemi Vola
isbn 9789898145871
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