31.7.18

Fim? Não — férias!

Agora sim, chegou o verão e o tempo para (realmente) ler. Tive a sorte de poder parar uma semana antes da semana do fim, que é sempre de loucos. E este ano ainda mais porque estamos a embalar a casa!

Nessa semana li um livro por dia e agora, primeiro em modo final-de-ano-letivo e depois em modo-caixotes, ando deliciada a ler um conto (pronto, às vezes dois...) por noite, do Dino Buzzati — que mestre! Digo "às vezes dois" por que, por um lado, são tão bons que apetece ler outro e, por outro, porque em vez de conciliadores de sono, funcionam como despertadores!...
Não é que me apeteça mudar-lhes o fim, a coisa é tão genial que não apetece mudar nem uma vírgula, mas há uns que são de facto "demasiado tristes" e "difíceis de engolir".

Fim? Isto não acaba assim fala deste prazer que são as histórias e de como às vezes queremos poder escolher o melhor final para a história, ou seja, o nosso final.

O livro ganhou o II prémio internacional de Serpa para Álbum Ilustrado e não apetece mudar-lhe nada.

Uma história sobre o amor pelas histórias e o amor pela escrita, onde o mundo a preto e branco dos ratinhos (responsáveis por arranjarem o fim às histórias —sabiam???) contrasta com o mundo magnífico, explosivo de cores e de possibilidades da imaginação.

Fim? Não, isto não acaba assim. Vou só ali encaixotar a casa para depois partir de mala na mão para deixar que as histórias me aconteçam, no mundo e nos livros.

Em setembro regresso para desempacotar a casa e empacotar os livros do pacote™ de outono!

E claro, para vos mostrar os livros que andam por aqui, com belíssimos finais, por sinal, e para acompanhar os espetáculos do Lu.Ca que reabre também em setembro com um espetáculo que não vamos querer perder...

Fiquem atentos.

Boas férias para todos e leituras sem fim!
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Fim? Isto não acaba assim
Planeta Tangerina, 2018
Noemi Vola
isbn 9789898145871
0

20.7.18

De um só trago

Não sei se todos os miúdos gostam de apanhar coisas e trazê-las para casa. Se todos gostam de fazer coleções de cromos. Não sei se costumam ouvir barulhos estranhos na máquina da roupa e lá vão encontrar pedras e folhas desfeitas saídas de um bolso. Não sei se todas as famílias têm caixas numeradas por anos onde guardam as conchas de cada verão. Não sei se entram em restaurantes para pedir caricas. Não sei se todas as famílias têm uma coleção de pedras. Nós temos, nós fazemos.

Os miúdos partilham um mini quarto e tudo é de todos. Os presentes que recebem para si nos anos no dia seguinte são de todos. Não é bom nem mau, é assim porque são todos rapazes, porque vieram mais ou menos seguidos, porque o espaço assim o proporcionou. Talvez.

Um dia achei que precisavam de ter o seu "espaço" e arranjei uma caixa para cada um. Nessa caixa guardam as suas coleções privadas, os legos mais preciosos, bilhetes, cartas, o brinquedo do momento. Nem sei bem o quê, é o espaço deles, o museu privado deles.

Lembrei-me das caixas deles a propósito do Wonderstruck — O Museu das Maravilhas.
Do mesmo autor d'A invenção de Hugo Cabret, Wonderstruck é uma nova novela (-gráfica?) que apetece ler de um só trago, como fez o B, como se fosse um filme.

Desta vez a construção é feita com duas histórias paralelas, em que uma é contada por palavras, a outra por imagens.

Uma passa-se em 1977, a outra em 1927.

Numa o protagonista é um rapaz, na outra uma menina.
E pouco mais aqui direi porque não costumo revelar desenlaces nestes postais. No spoilers here!

Só dizer que de alguma maneira as personagens estão ligadas pelo silêncio,

que há um medalhão daqueles com uma fotografia dentro

(exatamente como tinha a minha tia com uma fotografia do meu tio lá dentro, que magia!...), que no início da história gráfica há uma brincadeira tipo zoom out, tal e qual como no livro Zoom.

Mas acreditem que vale mesmo a pena passar os olhos por esta história. Os desenhos não têm todos a mesma qualidade, mas tudo se perdoa neste belíssimo... livro.

Ia dizer filme — e à semelhança de Hugo, também já há um deste — mas não deixem de pegar este pesado livro amarelo (depois de lhe tirarem a sobrecapa descartável) e de o ler.
Acho até que o hei de reler, nestas férias, desta vez em voz alta, a um molho de miúdos de olhos bem arregalados.
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Wonderstruck — O Museu das Maravilhas
Edições Asa, 2018
Brian Selznick
isbn 9789892341484
0

13.7.18

Much ado about nothing

Os portugueses têm a mania de falar sobre o tempo. É uma espécie de quebra-gelo, passo a expressão, para iniciar cada conversa.
Ou que já não se pode com o frio, ou que o calor já não se aguenta, que parece que o verão não chega, que até no tempo somos agora oh tão europeus. Enfim.

Falava com uma amiga estrangeira que vive cá e que me dizia que na terra dela o tempo não era um pura e simplesmente um assunto. Este fenómeno meteorológico, digamos assim, é mesmo muito nosso.

É também por isso que acho tanta graça a esta A nuvem.

Vejo naquela populaça que admira a estranha nuvem (que se veio instalar sobre a região) como toda uma nação, Portugal inteiro, a vociferar contra o tempo.

Há os que desenvolvem teorias, os que analisam, os que desconfiam, os que imaginam, os que se zangam.

E a nuvem sempre lá.

A vida a desenrolar-se cá em baixo, e a nuvem por cima, imóvel, sempre lá.

Na minha falta de paciência, que vem com o cansaço nesta altura do ano, juro que me seguro para não dizer a cada pessoa que me fala do tempo que uma nuvem é só uma nuvem. Pronto. Até sou uma pessoa reivindicativa, mas contra o tempo valerá a pena falar? Gastar tanta energia?

Vejo este livro como um filme, uma curta-metragem, daquelas que nos faz sorrir no fim. Ou ficar desamparado, como aconteceu aos miúdos cá de casa.

Que aproveitem os dias, com ou sem nuvens, deste verão — é o que desejo a todos! — e que sejam cheios de histórias tão boas como esta,

feita de quase nada.
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A nuvem
Pato Lógico, 2018
Rita Canas Mendes texto, João Fazenda ilustração
isbn 9789899999855
0

27.6.18

Ode aos reis dos mares

Chegou o verão.
Tinha aqui este livro guardado para o mostrar agora.

João é um livro de 1965. Eu ainda não tinha nascido em 1965 e não me lembro dos bois (que o meu pai e os meus tios ainda falam) a puxar as redes, mas lembro-me de ajudar (enfim, desajudar...) os pescadores a puxar as redes para a praia. Tinham ar de poucos amigos, ou assim achava eu, mas deixavam-nos meter entre eles enquanto trabalhavam e nem olhavam quando, felizes com os tesouros vindos do mar, enchíamos o balde com os peixes demasiado pequenos que vinham nas redes entre as sardinhas, os robalos, as douradas.
Isto era ali para os lados da Nazaré, onde se passa a história de João, escrita por um alemão que terá feito uma viagem a Portugal e que assim retratou estas gentes e os seus sonhos. A Kalandraka editou-a em português pela primeira vez no final do ano passado.

Lembro-me duma cena que fiz a propósito de uma sardinha mais que morta, mas que teimei com os meus primos que tínhamos de salvar e voltar a deitar ao mar. Chamaram-me de mariquinhas — e foi uma mariquice — a mim, a única miúda no meio de tanto rapaz. Chorei, pois, e lembro-me como se fosse hoje de sofrer pelo bicho de guelra ensanguentada. E a sardinha voltou ao mar, morta.
O barulho dos barcos, as cores dos barcos, o ranger dos remos, o cheiro a mar.

À noite comia a sardinha em cima da broa, claro, e nem me lembrava que poderia ter sido a mesma que tinha salvo. As crianças gerem assim estas coisas da morte. Junto ao muro que dividia a casa de praia que os meus pais alugavam da do vizinho, montava-se o banquete. A minha mãe, rainha do fogareiro, com o pano da loiça a fazer de coroa a embrulhar-lhe os caracóis e o meu pai e tios, ao desafio, a ver quem comia mais sardinhas. Nós, ali pelo andar de baixo mais rasteiros ao chão entre o fumo e as espinhas, aprendíamos a gostar de pimentos assados e a comer com as mãos.

Era à saída da praia depois do pôr-do-sol que iam buscar o peixe diretamente à mulher do pescador, já na lota, quando passou a ser proibido comprá-las logo ali no areal, como era dantes.
A morte da sardinha é parte deliciosa desta memória.

A parte difícil desta memória — e que ainda hoje me faz ter grande respeito (para não dizer medo) ao mar — é a lembrança das mulheres todas de preto no rebordo da praia a rezarem Avé Marias.
Já não passo férias nessa praia onde estávamos o dia inteiro. Onde comia tomates como fruta com um cheirinho de sal grosso e uma bolacha amaricana que saia da lata da menina loira de sol que a transportava ao ombro. Volto lá às vezes no inverno, quando o areal ainda se parece um pouco mais com o que era, para o mostrar aos miúdos. Entretanto mudámo-nos para terra mais quente e mar mais manso.

A história de João lembra-me um pouco aquela anedota que os economistas gostam de contar do pescador que está recostado na praia à sombra do seu barco. Alguém lhe pergunta se não vai pescar e ele responde que já foi, de manhã, e que agora esta a descansar. Então esse alguém pergunta-lhe porque é que não vai pescar também à tarde. E para quê?, pergunta o pescador. E Alguém discorre sobre a vantagem de poder pescar mais, vender mais. E para quê?, volta a perguntar o pescador. Alguém teoriza sobre o crescimento económico o aumento da frota de barcos e de trabalhadores que o poderão ajudar. E para quê? Depois da escalada megalómana de pobre pescador a empresário riquíssimo, Alguém explica ao pescador que, após este esforço, o pescador poderá ficar a descansar enquanto os outros trabalham para ele. E para quê? — volta a perguntar o pescador — se é isso que já estou a fazer agora?

As ilustrações, ou pinturas, de Jan Balet parece que cheiram a papel de livros antigos e são lindíssimas.
João cresce no sonho da história, mas fica sempre do mesmo tamanho, do tamanho da infância,  enquanto casa, sobe na vida, manda, tenta a revolução e viaja até à lua.
Não sei se os pescadores de então experimentaram o sonho de João. Gosto de pensar que poderão ao menos ter tentado.

Senão, resta-me a consolação de uma história que me escreveram a propósito deste livro, que enviei num pacote™ para o outro lado do mundo, em que uma menina pequenina explicou a um estrangeiro que esta praia é muito conhecida por causa das ondas recordistas, sim, mas mais do que o surf, a Nazaré e conhecida pelos seus pescadores: “os pescadores são os reis dos mares”, disse ela. Que maravilha!
[As subscrições para o pacote™de verão decorrem apenas durante esta semana!]
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João
Kalandraka, 2017 (1º editado em 1965)
Jan Balet
isbn 9789897490866

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20.6.18

Ser — eis a questão!

Este pequeno grande livro chegou mesmo a tempo de mais uma (re)estreia no Lu.Ca:

Eu sou Eu sei foi direitinho para a seleção que fiz para o espetáculo do Teatro Praga (em cena no domingo passado e no próximo fim-de-semana com bilhetes grátis para quem os marcar), Hamlet sou eu.

Hamlet é a peça das peças, o teatro dentro do teatro, a vida (e a morte) em palco. Mesmo quem nunca leu a peça (de 4 mil linhas!?) ou assistiu a uma encenação conhece de cor deixas famosas como Ser ou não ser, eis a questão e Palavras, palavras, palavras.

Então Eu sou Eu sei são só palavras, palavras, palavras ou não? Este livro (em que se brinca mesmo com as palavras), se lido com Hamlet na cabeça passa a ser sobre Hamlet. Ora vejam: "Eu sou, eu sei, eu dou, eu rei, eu com, eu sem, eu vou, eu nem, eu vim, eu vi, eu fiz, eu quis".

E pronto, zás-pás-trás, eis o resumo de 4 mil linhas shakespearianas!

Mas mesmo quem não ler este livro à luz de Hamlet encontrará também — de certeza — um livro sobre aprender a existir: a ser, a ver, a ler, a falar, a olhar, a viver, a conviver.

Eu sou Eu sei é composto por uma série de duplas, na escrita e na ilustração, num ritmo apenas interrompido por pequenas variações, que deixam respirar das rimas ou dos dípticos mais diretos.
Ler este livro é como cantar uma canção, folheá-lo é como ver um filme.

Um livro para bebés? Talvez sim, mas arriscaria a dizer que é o primeiro livro de filosofia para bebés.

Uma espécie de dicionário (daqueles feitos para os mais pequeninos reconhecerem os objetos do quotidiano) só que sobre a velha dupla ser/estar, que desde sempre inquieta o Homem. Sim, só sei que nada sei.

Por isso, atenção bebés, vamos a filosofar! — porque ser é que é a questão.
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Eu sou Eu sei
Planeta Tangerina, 2018
Ana Pessoa texto, Madalena Matoso ilustrações
isbn 978989814588
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