24.8.16

repost#16: Robinson Crusoe [01012010]

Não foi difícil escolher o livro para inaugurar o ano.

Este é um livro tão arrebatador que assenta como uma luva neste dia tão cheio de zeros e uns, tão de começo.

Disse um dia Matisse que os pintores deviam cortar a língua.

É disso que me lembro quando me sento para escrever sobre um livro só de imagens;

deste em particular.

Nada do que me ocorre dizer me parece demasiado urgente, adequado, essencial ou certeiro perante esta sucessão de desenhos deste autor cubano.

Aqui fica um diálogo:
-Já leu o livro novo?
-Não, é muito complicado.
-Mas se não tem uma única palavra!...
-Mesmo assim.

Não estranhou minimamente que o Pai Natal tivesse escolhido para ele um livro sem palavras logo agora que consegue ler.

Passa umas páginas de vez em quando, distraído, entre jogos, pinturas, apanha de limões à luz de lanterna, descoberta de folhas e pedras mistério, e Pantera-Cor-de-Rosa.

Aos dois, preocupa-os Sexta-feira, rodeado pelos maus. E estranham as páginas muito brancas,

de areia,

embora digam logo que é areia.

Não foi difícil escolher este livro para inaugurar o ano porque ele mostra todas as coisas que cada ano reserva de bom e de menos bom. E de como devemos entrar nele bem de frente.

Então, em vez de agora palavrar todas essas coisas,
deixo apenas outras imagens que dizem muito mais do que aquilo que me atreveria a dizer






e corto a língua.
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Robinson Crusoe
Media Vaca, 2008
Alberto Morales Ajubel
isbn 9788493598204
comprado aqui
Obra vencedora do Prémio Ficção 2009 na Feira do Livro para Crianças de Bolonha

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Da obra que deu origem a esta The Life and strange Surprizing Adventures of Robinson Crusoe of York, Mariner: Who lived Eight and Twenty Years, all alone in an un-inhabited Island on the coast of America, near the Mouth of the Great River of Oroonoque; Having been cast on Shore by Shipwreck, where-in all the Men perished but himself. With An Account how he was at last as strangely deliver'd by Pyrates. Written by Himselfde Daniel Dafoe, 1719
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23.8.16

repost#15: Papá, diz-me porque não andam as zebras de patins? [16122009]

Um outro ilustrador de que gosto muitíssimo é o belga Quentin Gréban.

Tem vários livros mas o nosso preferido é sem dúvida este.

As suas ilustrações são duma imensa suavidade (suave: novo adjectivo)

e a grafite dos esquissos que deixa à mostra por baixo das aguarelas (suponho) agrada-me mesmo.

Em alguns desenhos ela serve para sublinhar, noutros para dar movimento mas suspeito que, na maioria dos casos, seja apenas (e não chega?) o puro gosto pelo desenho enquanto mecanismo de procura, enquanto pensamento.

Por estar explícito, o desenho puxa-nos para um mundo artificial feito de imagens construídas enquanto que, ao mesmo tempo, consegue que essas mesmas imagens se tornem menos artificiosas, com mais realidade, com mais vida.

O conto é maravilhoso, nem sequer é um conto: numa sucessão de perguntas-respostas, alguém (uma menina) pergunta a alguém

(o pai— por favor escritores e tradutores: acabem com estes papás e mamãs. Pode ser mania minha mas com palavras como Pai e Mãe quem é que pensa em usar estes irritantes sucedâneos? Se noutras línguas ou sotaques o que não faz sentido é o contrário — lembro-me do espanhol e do brasileiro, por exemplo- aos portugais deixem-nos com os velhos, salvo seja, e lindíssimos Pai e Mãe)

porque é que alguns animais não fazem determinadas coisas.

E como grande pai que é, tem sempre resposta para tudo. Como este avô, também o pai está distraído a ler o jornal e falha a última resposta.
As perguntas-repostas são divertidíssimas,

dum finíssimo

ou enternecedor

humor.

Por aqui ainda andamos a tentar decifrar as perguntas que ficam no ar nas páginas que não são páginas nem capa (alguém que saiba me ensina o termo técnico, por favor?) onde só aparecem as ilustrações sem pergunta nem resposta.
Já arranjámos resposta para porque é que a girafa não usa gravata

para porque é que a avestruz não joga golf, para porque é que o polvo não luta boxe e para porque é que as corujas não usam chapéu.
Precisamos de ajuda para porque é que os jacarés não usam óculos, para porque é que os tubarões não andam de mota e para porque é que os porcos não se atiram de pára-quedas: terão medo de cair numa pocilga??
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Papá, diz-me porque não andam as zebras de patins?
Edições Nova Gaia, 2006
Quentin Gréban
isbn 9789727124664
oferecido!
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22.8.16

repost#14: Os sete cabritinhos [12122009]

Este andava a namorá-lo há algum tempo.
É uma das histórias favoritas do mais novo que oscila entre profundo medo e fascínio pelo lôgo mau.
É uma história que costumamos ler no campo e por isso é uma história de férias. Mas cá na cidade não tínhamos nenhuma versão deste conto tradicional (ainda hei-de procurar a versão da minha infância).
Um dia destes fui contá-lo à sala da escola dele e, melhor do que ver a sua cara enquanto leio a história,

só ver também a cara dos seus mini-amigos embasbacados à espera da dentada feroz do malvado lobo ou da explicação do que é uma linha e uma agulha(!?).
Por vezes fico baralhada nalguns livros infantis pelo uso do bold ou da diferenciação de tamanhos de letra: parece-me indiscriminado e gratuito. Com este livro nem é preciso ser um exímio contador de histórias para ler muito bem à primeira.
As ilustrações não me fascinaram só a mim. Também, não é para menos.
Porque além de terem aquelas características que aqui repito com frequência — lindíssimas e delicadas —, a uma segunda vista são profundamente desconcertantes e até terríveis.
Ora vejam:
1. o lobo é apresentado como um delicado e sensível pintor retratando a cena bucólica que é afinal o retrato da tragédia que se avizinha.

2. enquanto o lobo come os ovos que lhe adoçarão a voz, penas esvoaçam em seu redor.

3. a voz agora doce do lobo é uma delicada senhora com um longuíssimo pescoço; será uma corda vocal?

(pelo menos foi assim que encontrámos uma explicação aproveitando o facto de na expressão dramática aquecerem as cordas vocais.)
4. se o lobo está com uma pata dentro do saco da farinha e a outra a segurar o pacote, de quem é a enigmática luva branca ali pousada?

5. porque é que os cabritinhos se encavalitam uns nos outros para olharem a pata que está rente ao chão?

6. quando o lobo come os cabritinhos, um a um, estes estão dentro de gavetas (dentro da sua barriga?) como mini-caixões, adormecidos.

7. o ar eficiente com que a mãe cabra corta e cose com a sua máscara de cirurgião, faz pensar que abre e fecha barrigas a toda a hora.

8. quem é este segundo lobo ainda deitado? Será apenas uma imagem do movimento do levantar ou será algo mais transcendental?

9. o modo como o mais novo segue ao colo enquanto o mais velho luta para se manter pendurado na perna veloz da mãe que olha em frente.

10. as duas mãos-patas ligadas pela linha fina e esvoaçante são mesmo iguais em tudo menos na cor: não é mesmo assustador?

Só tenho dois filhos mas não consigo sair de casa tão bem arranjada quanto esta impecável mãe-de-sete-filhos-cabra.

Que estilo.
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O sete cabritinhos
OQO Editora, 2009
texto Tareixa Alonso, ilustrações Teresa Lima
isbn 978849871130-1
encontrado aqui
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19.8.16

repost#13: The snowman [06122009]












Não era tão bom que nevasse em vez de chover?

(e se o menino fosse o David Bowie?)
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EDITADO PELA CAMINHO
The snowman
Dragonfly Books, 2006 [1º edição 1978]
Raymond Briggs
isbn 9780394884660
oferecido!
aqui

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