24.5.18

BDmania

Não tenho o vício da BD. A mim os balões cansam-me os olhos, distraio-me com o desenho do ritmo "arquitetónico" da quadrícula, comparo o desenho das personagens entre quadradinhos, enfim, perco-me e canso-me.
O mesmo não posso dizer sobre os miúdos.
Eles devoram BD: Ásterix, Lucky Luke, Gaston, Marsupilami, Spirou, Os Túnicas Azuis, Blake and Mortimer e Corto Maltese.

Com o T negociei desde cedo "BD só ao fim‑de‑semana e durante o dia"; literatura à noite. Isto porque de repente era só BD e se lhes dou a provar toda a comida que posso e os levo a muitos lugares diferentes para que conheçam o mundo (ainda que às vezes seja ali ao virar da esquina...), levá-los a livros diferentes é uma obrigaçãogosto que, para mim, faz parte de ser mãe. Não me sinto a impor — mesmo quando imponho — porque sei que estou a abrir janelas e abrir janelas é essencial.

Com o R vamos pelo mesmo caminho: chegou à BD mais cedo, como a quase tudo, de modo que vai avançado nos Ásterix e já começou o Lucky Luke. Dos "patinhas" os favoritos são os da Turma da Mônica. Mas o que ele devora em loop são os Petzi!

Eu também lia os Petzi na idade do R e a memória que tenho desses momentos é magnífica. Começou a lê-los no verão, ainda devagar, e agora consome vários por dia, várias vezes. Já me zanguei (também várias vezes, porque o que é demais é demais), mas aquilo tem mel ou não fosse Petzi um urso...
No dia em que fiz um tapete de Petzis cá em casa para os fotografar, lá veio o R, de mansinho, tirar um de cada vez do puzzle, sentou-se no sofá e leu, leu, leu.

De maneira que quando soube que os Petzi vão desaparecer novamente da circulação (depois de terem sido rigorosíssimamente reeditados pela Ponto de Fuga em 2014), resolvi fazer o que está ao meu alcance para que esta coleção chegue ao maior número de miúdos possível. Miúdos portugueses contemporâneos, diga-se, porque este urso andou por mil mundo e falou mil línguas nos últimos trinta anos!

A coleção foi escrita e ilustrada por um casal dinamarquês [Vilhelm (1900-1992) e Carla Hansen (1906-2001) – ele autor das ilustrações, ela dos textos] e contam as aventuras dum grupo simpático de animais liderados pelo ursinho Petzi. Embora tenham o formato de BD, as falas estão escritas em baixo e não em balões, o que torna a leitura mais fácil.

São 12 títulos (há mais, mas esta edição ficou por aqui...), 12 histórias, 12 aventuras. Um urso, um pelicano, um pinguim, uma foca, uma tartaruga, uma rã e um rato são uma espécie de crianças independentes que vivem a sua vida e aprendem o mundo e as coisas extraordinárias que nele há.

Nunca olharia para estes livros hoje se não tivessem uma história comigo, confesso. Aliás quem vai seguindo esta prateleira percebe que não é este tipo de ilustração que por aqui pára. Mas o ar vintage cool destas capas diz tudo, não? Livros perfeitos para ler a miúdos pequenos ou para leitura autónoma entre os 6 e os 10 — mas também para graúdos entre os 30 e os 40 e, que os terão lido em crianças, como eu li.

E bem, aproveitem esta 1ª flash sale da prateleira-de-baixo que vos enviará esta coleção já na próxima semana, para que, também por aí, possam vestir umas calças às bolinhas ou enfiar um gorro azul e partir à aventura!
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Petzi
Ponto de Fuga, 2014
12 volumes
0

23.5.18

Construir a Constituição

Comprei este livro há meses na Baobá a pensar no dia de ontem.

aqui fui falando de como a política está presente nesta casa, da curiosidade que os miúdos têm em ir percebendo o mundo em geral, o país em particular.

Essa sede vem do lado do pai deles e eu vou acarinhando como posso — porque tenho muito orgulho nesse olhar atento ao mundo e porque todos os dias me parece mais importante fazê-los crescer também como cidadãos. Muitas vezes faço-o com um livro.

Os meus filhos só partilham a vida de um Avô, o meu pai. O outro Avô morreu há já 20 anos, sem o ter chegado a ser em vida.

Escreveu, teve uma vida pública, muitos amigos e uma família que dá vida à sua memória, por isso os miúdos têm também um bocadinho deste Avô ao mesmo tempo que experimentam a sua ausência.

Isso foi mais claro e intenso que nunca para eles no dia de ontem onde tiveram a sorte de ver e ouvir tanta gente incrível que os ajudou a construir um retrato do Avô.

Uma das coisas pelas quais lutou foi por uma Constituição justa e sólida, por isso me pareceu perfeito este livro sobre este documento fundamental dum país.

Como também aqui digo muitas vezes, não aprecio livros didáticos; os bons livros, uma boa história, ensina muito mais e mais suavemente.

Mesmo assim (e passado o tal formato didático com que é apresentada e que não aprecio) esta seleção de alguns artigos da nossa Constituição com o sublinhado nos assuntos que são acessíveis e próximos aos miúdos é uma ótima leitura para lhes passar os fundamentos teóricos (que se procuram pôr em prática) onde assenta o nosso país.

Não serão eles os adultos já-já amanhã?

Vamos então a formar leitores, claro, mas daqueles que vivem com os pés na terra e a cabeça nas nuvens para que cada um possa ir fazendo deste país onde nascemos um lugar cada vez mais justo e feliz para todos.
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A Constituição da República Portuguesa trocada por [para] miúdos
Assembleia da República e Ministério da Educação, 2003
Leonor Baeta Neves texto, Pedro Proença ilustrações
isbn 9725563298
0

14.5.18

Ainda que eu fale a língua dos Homens

Fiz anos há uns dias e resolvi finalmente tirar de baixo da pilha de livros (que vou acumulando e que quero aqui mostrar) um que já ali está há mais de um ano. Fui adiando escrever sobre ele porque é um livro que dá luta, dá trabalho e de facto é difícil de entender.
Quando o livro apareceu por aqui o R estava a dar os primeiros passos na leitura e achei que pô-lo a ler Ké Iz Tuk? seria uma má jogada... Hoje vai estar no tapete para quando chegar da escola.

Pareceu-me o livro certo para assinalar mais um ano de existência: porque é um livro difícil de entrar se quisermos lê-lo com olhos muito "crescidos" e também porque nele está o ciclo da vida, a passagem do tempo, a relação com os outros e com o mundo e essas coisas todas que nos vêem à cabeça quando fazemos anos. A mim vêm.

Também há uns dias, pensava e discutia que o meu papel enquanto curadora destes pacotes™  — que continuam a seguir caminho por esse mundo fora —, também é dar a ver, a ler, livros "fora da idade," para cima e para baixo.

É que se é verdade que vale a pena usar livros mais "puxados" para provocar miúdos que já têm ritmo de leitura e alguma maturidade, também é verdade que há pontos importantes que só se atingem com outro tipo de livros eventualmente "demasiado infantis".

Um das vantagens que tenho em continuar a receber álbuns ilustrados para os mais pequenos (além do meu próprio deleite) é que o B,13 quase 14, leitor ávido e maduro, continua a ler tudo o que aparece por cá, inclusivamente os livros que não são para a idade dele — mas para baixo.

Os álbuns ilustrados têm uma riqueza de leitura que desaparece dos livros só de texto. Têm ainda mais diferentes possibilidades de leitura pela convivência do texto com a imagem. E assim podem fazer soar campainhas que não tocam de outra maneira, sem as imagens em relação com a palavra.

Em adultos perdemos muita capacidade de ler imagens e talvez por defeito de formação, parece-me uma ferramenta tão útil e lúdica ao mesmo tempo que a devemos amparar o mais possível.

Até para não ficarmos desarmados perante esta provocação de Carson Ellis, que nos põe a assistir e a ler a língua dos insetos que vivem neste magnífico microcosmos.

Reparem que se fizermos a leitura do livro como se fossemos pré-leitores, só pelas imagens, não há nada de difícil nesta história. O problema começa quando queremos decifrar o texto, as falas das personagens.

Mas se sabemos que a linguagem dos animais é mesmo muito diferente da nossa, então não será difícil aceitar que se há aqui coisas que percebemos exatamente o que querem dizer, outras temos de tentar adivinhar ou até mesmo aceitar ficar "às escuras".

Que trabalho este, o da tradutora!... Espero que se tenha divertido e não desesperado.

Crescer em graça e em sabedoria vai muito para além dos verdes anos.

E aprender a desaprender é essencial para que possamos guardar connosco um bocadinho do mistério da Vida que recebemos no momento inicial da nossa existência.

Para podermos voltar a olhar para as coisas como da primeira vez. 
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Ké Iz Tuk?
Orfeu Mini, 2016
Carson Ellis
isbn 9789898327710

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7.5.18

mamão-papaia

Cá em casa brinca-se muito com as palavras. Brinca-se como se brinca com as peças dum jogo.

É o pai quem lidera, mas obviamente a coisa pega-se e os miúdos estão a ficar exímios no modo como fazem malabarismos com as palavras. Ainda não aproveitam esta destreza nos textos, mas no despique oral já dão cartas.

Quando trouxe para casa este livro emprestado, todos disseram: mamão-papaia!

O livro é francês e a brincadeira aqui faz-se com manga e papaia, mas cá por casa o trocadilho já existia com mamão para mãe e papaia para pai.

Talvez por isso tenham comentado o livro com grande entusiasmo, tal como eu o cravei para o pôr aqui na prateleira a assinalar do Dia da Mãe.

Os livros existem em separado também, o livro Mamangue e o livro Papaye. Mas porque não há mãe sem pai, nem mãe sem filho, este livro tem duas capas, dois começos, duas histórias, mas é um só livro e assim, sim, faz mesmo sentido.

Um quadrado branco com uma fruta de cada lado em que as páginas cortadas às fatias lá dentro deixam perceber do lado da manga uma barriga a crescer

e do lado da papaia um embrião a desenvolver-se.

Um livro sobre a vida, para manusear com cuidado, claro.
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Papaye et Mamangue
Chandeigne, 2012
Lydia Gaudin Chakrabarty
isbn 9782915540925
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2.5.18

Se é impossível, então faça-se.*

Não sei se já deram conta — ele não é pequeno, mostra-se bem — mas apareceu recentemente mais um livro de peso vindo do tal Planeta Tangerina, aquele de onde normalmente vêm coisas muito boas.
Além de boas, as coisas que nos chegam desse planeta são sempre um bocadinho surpreendentes, talvez porque sejam do outro mundo. Estou tentada em começar uma nova etiqueta aqui no blog (para contrapor a uma que usava bastante há 9 anos "editem em português"); qualquer coisa como "a traduzir rapidamente para outras línguas".

O atlas que de lá vem conta 11 histórias de viajantes aventureiros. Contei várias vezes, para ver se não me tinha enganado. São 11, não 10 nem 12, números mais redondos. E embora isso não seja dito, acho mesmo que são 11 para que a 12ª possa ser a aventura de quem lê.

Numa entrevista, Isabel Minhós Martins, a escritora de serviço no tal planeta, diz que o livro é um aperitivo. E é mesmo. Enquanto o lia sentada na minha cadeira lisboeta, fiquei com vontade de dois pratos principais: 1. viajar; 2. ler os livros de que se fala neste livro — diários, aventuras reais de gente que foi, não a guiar-se pelo mapa, mas a fazer o próprio mapa.

Perco-me com facilidade. Alguns caminhos faço sempre com o mesmo erro, senão não consigo lá chegar. A primeira vez que usei o google maps como gps distraí-me tanto com o fascínio da bolinha azul ser mesmo o meu carro a mexer sobre as ruas do Porto, que me perdi no inferno de sentidos únicos da cidade invicta.

Pelos vistos partilho com os habitantes do outro mundo o fascínio por mapas. Um dos presentes mais bonitos que me ofereceram enquanto estudava arquitetura foi um cd com o mapa integral de Lisboa em vetorial. Que manancial. Não sou boa com mapas. Mesmo sendo arquiteta tenho aquele tipo de cabeça (mais tipicamente feminina do que masculina, esta provado) que tem de virar o mapa segundo a posição relativa.

É que fascínio implica sempre uma certa dose de mistério e eu gosto mesmo é do desenho deles, não de os seguir. Em viagem deixo normalmente esse serviço a outra pessoa: o meu pai, o meu irmão, o meu cunhado e agora já o B, o primogénito, que tem grande prazer em liderar a excursão, "por aqui, por ali", com grande desembaraço. Acho que é ele que nos vai salvar porque a nossa família é conhecida por dar várias voltas à rotunda antes de sair finalmente pela rua certa...

Para Madrid levámos o mapa da Pato Lógico (outro ser que aparentemente partilha também este fascínio por mapas) de que ainda não falei, mas lá hei-de chegar perdendo-me pelo caminho, claro está.

Este atlas tem mapas lindos, pois (mais pinturas a cores e desenhos a preto e branco do outro mundo), mas tem principalmente histórias de coragem e de visão.

Nessa tal entrevista, Isabel fala do critério de escolha para os viajantes d"este barco" como aqueles que demonstraram "maior respeito pelas pessoas, pelas culturas e pela natureza que encontravam", não deixando de salvaguardar que "Os tempos eram outros". Mesmo assim optaram pelos "menos bélicos, menos ligados ao colonialismo. Mas sem adocicar a história."
De facto, falar da História sem contexto é um pouco estéril, mas o contexto não justifica tudo e este livro não deixa passar em claro muito do horror que estas expedições implicaram.

No outro dia contei aos miúdos que as notas em papel eram utilizadas na China desde o século VII, enquanto que na Europa só se começaram a vulgarizar a partir do século XVIII. O B já sabia, claro, apanhou o livro mal chegou e viajou sem pedir licença. Mostrei-o ontem ao T; sei que se vai deliciar com ele.

Falamos muitas vezes de dar a volta ao mundo, em família. Parece um pouco impossível, mas depois de ler estas 11 aventuras,

impossível é mesmo não a começar a planear a 12ª.
*A frase é atribuída a Santo Agostinho, embora não se encontre em nenhum dos seus escritos. Gosto de a repetir.
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Atlas das viagens e dos exploradores
Planeta Tangerina, 2018
Isabel Minhós Martins texto, Bernardo P. Carvalho ilustrações 
isbn 9789898145864
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