Diz um estudo recente chamado "Mais casa - mapeando o (novo) doméstico"*, do CLab, que somos humanos. Ou seja, que queremos uma coisa e o seu contrário.
Valorizamos a casa como um lugar de refúgio e calma em relação ao exterior caótico e exigente e, para atingirmos este grau ótimo de "conforto", identificamos a organização, a limpeza e o silêncio como fundamentais.
Mas, ao mesmo tempo, o que nos traz a sensação de "felicidade", é o estarmos rodeados de amigos, em casa, preferencialmente à volta da mesa.
Ora, sabemos que conforto não quer dizer felicidade, mas também sabemos que muitas vezes os vemos como sinónimos. E também sabemos que "estar rodeados de amigos, em casa, preferencialmente à volta da mesa", acaba com "a organização, a limpeza e o silêncio" em cinco minutos.
Os dois livros que trago hoje mostram-nos a importância da casa, ensaiando um retrato do seu possível valor e essência.
A casa invisível fala-nos dessa casa que não é feita de paredes, pavimento e cobertura. Mostra-nos a casa invisível que somos uns com os outros, uns para os outros, no cuidado que votamos a quem connosco vive ou nos visita. Relata os incríveis gestos invisíveis que enchem uma casa. Fala d'"estes bichos-carpinteiros, estes pássaros, estas formigas, estas mãos, esta bordadeira, este galo". O chamado "trabalho invisível", tantas vezes saboreado sem a atenção devida que só quando falta damos conta que existia.
O tesouro do Jorge é também este seu espaço invisível, que os vizinhos, amáveis e ambiciosos, querem possuir mais que tudo — tudo além de tudo o que já possuem.
Jorge vive sozinho, à beira mar, com muito pouco, mas com tudo o que precisa. De vez em quando enche a sua pequena casa de amigos, outras vezes aprecia o seu sossego.
Já os vizinhos de Jorge têm muita coisa, querem ter mais, mas não têm amigos. Talvez, sem o saberem, seja isso que procuram obter na sua incessante sede de aquisição.
Regressada de dunas vazias e mares transparentes, de uma viagem em família alargada, foi clara a escolha dos livros desta semana: estivemos nestas dunas que aparecem em ambos os livros. A praia vazia como metáfora perfeita para o binómio conforto&felicidade.
Que luxo o poder sair de casa e o ter casa. E que doce é poder deambular entre o vazio e o cheio, o estar sozinho e rodeada de gente boa, guardando postais mentais, destes lugares, momentos e pessoas que constroem a casa invisível que somos e habitamos.
Chegou o verão.
*Nesse mesmo estudo também se conclui que este novo "doméstico" apetecível, que aparece agora como luxo e não como sinónimo pejorativo à qual a condição feminina estava presa, não é apetecível para todos. Os mais velhos não o valorizam e há quem não tenha escolha: sair para comer ou dormir fora não é sequer uma opção.
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Nuvem de letras, 2026
Anne-Sophie Plat texto, Barroux ilustrações
isbn 9789895897803
APCC, 2024
Francisca Camelo texto, Carolina Celas ilustrações
isbn 9789898725332


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