Começou mais uma Quaresma, mesmo no fim das tempestades. É pois um tempo de reconstrução para muitos, de quarenta dias ou (com certeza) mais.
Por vezes temos muito pouco, mas somos sempre ricos em imaginação. Mesmo sem nada podemos, potencialmente, criar o mundo que imaginarmos.
A estes dois livros, une-os esse poder criativo. Com um pequeno toco, preto ou púrpura, se faz magia, se constrói do nada ou de dentro — ou das cinzas. Une-os também a magia e o medo da noite.
Em Harold e o lápis púrpura, um clássico americano dos anos 50, o menino desenha o que precisa. Põe mãos a obra e faz e desfaz, passeia e perde-se, criando uma mirabolante aventura, metáfora para a vida.
A magia não vem do nada, de mão beijada, da ponta de uma varinha brilhante, mas do poder da sua imaginação, da sua ação criativa, da força do seu traço.
As aventuras correm umas vezes bem e outras mal. O destino está na ponta do lápis, mas o criador dá vida ao que cria, com as consequências inevitáveis da liberdade que daí vem.
Em À noite, na floresta é um traço tosco que renasce das cinzas para desenhar uma aventura em que a imaginação de cada um completa com cor e sentido. A natureza ardida renasce pelo desenho, no traço e na mancha que a autora espreme, explora, experimenta, exprime.
Há espaço para ação e contemplação. Noite e floresta imiscuídas.Tempo para o movimento e tempo para a quietude. Uma lição generosa de respeito pela natureza e de responsabilidade pela cultura.
Mais do que a subtileza dum lápis de cor, o traço do "lápis púrpura" tem o aspeto resoluto, definitivo e infantil de um marcador. É pensar e fazer, com determinação e firmeza, sem meios tons. Às vezes tem de ser assim.
Já os diferentes carvões usados no segundo livro, ensinam-nos as nuances da madeira ardida. Cada árvore, diferente em vida, mantém-se também diferente na sua ressurreição. Criadoras de diferentes tipos de sombras em vida e depois da sua morte.
Reconstruir é difícil e necessário. Difícil é também escolher o traço e a matiz para essa reinvenção. Mas todos temos à mão a possibilidade de escolher, à vez, a precisão, o brilho e firmeza solar do lápis de Harold ou as subtis e férteis nuances noturnas da madeira ardida.
Para renascermos das cinzas com a realeza, a força e o poder púrpura.
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Relógio d´água, 2024 (1955)
Crockett Johnson
isbn 9789897834790
À noite, na floresta
Orfeu Negro, 2025
Sarah Cheveau
isbn 9789899225169













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