Na semana passada estive novamente em Berlim. Tinha lá estado há 4 anos, quando começou a invasão à Ucrânia.
O texto descritivo do contexto politico-social em 1939 que voltei a ler junto ao Muro, é hoje ainda mais assustadoramente contemporâneo. Talvez por isso este Do outro lado me tenha captado a atenção no regresso a casa.
À chegada tinha também à espera a 10º edição dO nabo gigante.
Quando há uns meses me pediram uma frase para a contracapa desta 10º edição dO Nabo, estava em Riga, Letónia, e as ilustrações que me vieram à memória, de estética russa (embora desenhadas por uma irlandesa), rimaram bem com aquele cenário, num país de fronteiras frágeis. Não foi difícil escolher o que dizer.

O par desta semana junta-se na coincidência destas viagens, mas também porque encontrei em ambos o valor da persistência e a força que muitas vezes está naquilo que é mais pequeno.

O Nabo Gigante é um conto tradicional russo (de um outro Tolstoi). Narra a história de uma plantação bem sucedida, onde sobra um nabo gigante, que nem velhinho nem velhinha conseguem colher. Em lengalenga clássica, numa sequência mal sucedida, todos os animais são convocados a ajudar na tarefa hercúlea. Sem sucesso.

Em Do outro lado, uma sucessão de personagens com o ar determinado, independente e desconfiado que os mais velhos têm, muitas vezes, em relação aos mais pequenos, chega junto a um muro alto. Há também uma sequência mal sucedida de tentativas de o ultrapassar. Atento a isto, a pequena personagem oferece simpaticamente ajuda. Recusada, desdenhada, ridicularizada pelo "clube dos grandes".

Em O Nabo, é o ratinho, que não faz parte do "clube dos animais da quinta", que salva o dia — e ganha a sopa. Ao jeito do (também talvez demasiado clássico para ter vindo algum dia parar a esta prateleira) A que sabe a lua?, onde é também um minúsculo ratinho que tem a altura que falta para todos os animais conseguirem finalmente chegar à lua, o fracativo rato é quem aqui acrescenta a força que faltava para o sucesso da empreitada.
Na história do muro, por três vezes oferecida e por três vezes recusada, a ajuda do mais pequeno é finalmente aceite. Sem ser afoito fisicamente, a audácia do pequeno vem da força da sua imaginação e da crença inabalável no poder do seu desenho.
Mas, ao contrário da comunidade da quinta que, depois da ação solidária, beneficia toda de uma bela sopa, o "clube dos grandes" não está lá, na página certa, no momento certo, para ver o incrível mundo novo que espreita por trás da porta imaginada, desenhada, construída pelo mais pequeno. Ao contrário da velhinha que viu de forma clara no insignificante ratinho a força exata de que precisavam, o grupo do muro passou, por assim dizer, ao lado da sopa.

Para a contracapa escolhi dizer na altura: "Mais do que uma sopa, esta bagunça à volta de um nabo parece uma salada russa! É um conto vintage que nos lembra o valor da persistência e de todos sermos personagens principais na história do bem comum."
E, nesta altura, em que a possibilidade de novos muros não é apenas imaginável, mas provável, resta-nos aprender a ser pequenos outra vez. Só assim poderemos tornar-nos personagens grandes de uma bela história.
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Orfeu Negro, 2025
Andrew J. Ross
isbn 9789899225084
Livros Horizonte, 2025 (conto do séc. XIX)
Alexis Tolstoi texto, Niamh Sharkey ilustrações
isbn 9789722412056







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