29.9.17

Então, de que vamos falar hoje?

Há tantos livros que me apetece aqui mostrar, entre os que chegam, os que encontro nas livrarias e os que vamos tirando das prateleiras, que nem sei qual escolher.
 
Mas esta semana, ao ler uma publicação no Bicho dos livros, percebi que o postal de hoje tinha de ser sobre estes que saíram entretanto, depois de dois primeiros duma mesma coleção (cuja primeira edição é dos anos 70). E como os fui buscar à prateleira para os miúdos os lerem, mesmo não sendo mediadora, achei que também tinha a responsabilidade, que era o dia, a semana, o tempo para os trazer aqui.

O T pediu para os ler, o B já o fez há muito, mas voltou a lê-los. Ainda não passei o sobre a ditadura ao R, mas é claro que já perguntou o que era.

Falo por vezes dos jantares em família, porque é muitas vezes à volta da mesa, que os dias se desmontam, ou montam, e alguma coisa acontece connosco. A mesa é a nossa ágora.

Há uns tempos, R — 6 anos—, perguntou com os olhos a brilhar enquanto se ajeitava na cadeira  para comer a sopa: "Então, de que vamos falar hoje?".

A conversa à mesa desde tenra idade — sempre interrompida pelos repetidíssimos, tire os cotovelos da mesa, segure o garfo mais para cima, serve-se os outros primeiro — é uma animação e um momento do dia muito apreciado por todos; a política, com tudo onde ela toca, vem muitas vezes à nossa praça pública. Discutem com entusiasmo, ouvem com atenção ou desligam, se o assunto é confuso demais. Temos 13, 10 e 6 anos na mesma mesa.

O R está na terceira idade dos porquês, a sério, e passa o dia a fazer perguntas. Quando passamos na cidade pelos cartazes e bandeiras da campanha eleitoral, faz perguntas e perguntas e perguntas.

Entretanto houve as eleições para a Associação de estudantes na escola dele, associação inventada no ano do T por meninos entre os 6 e os 10 anos (!) que começaram por conseguir uma mesa de matraquilhos, onde meninos e meninas se juntam em campeonatos fervilhantes. Entusiasmado que estava com o ato eleitoral, foi mais fácil explicar-lhe afinal O que pode ser a democracia.

Também curiosos são desde logo os títulos dos dois livros: É assim a ditadura e Como pode ser a democracia — porque denunciam à partida o caráter definitivo, fechado e autoritário do primeiro sistema, por oposição a um outro que funciona em forma de pergunta, em aberto, em construção.



Os textos são simples mas completos; as ilustrações são lindas. E depois ainda há as perguntas no final dos livros. As do O que pode ser a democracia são muito mais difíceis de responder do que as do Há homens e há mulheres, porque não são tão "pão-pão, queijo-queijo". São subtis, hesito eu e hesitam eles, porque há de facto a constatação de que o sistema não é perfeito, que continua a haver injustiças, de que continuamos a falhar.
Mas ainda e sempre esperando, como dizia Beckett, falhar melhor.
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É assim a ditadura
Orfeu mini, 2017
Equipo Plantel texto, Mikel Casal ilustrações
isbn 9789898327932

 





Como pode ser a democracia
Orfeu mini, 2017
Equipo Plantel texto, Marta Pina, ilustrações
isbn 9789898327949

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