7.9.18

Começar pelo final infeliz e viver feliz para sempre

Este vai ser o sexto trimestre em que envio o pacote™ e a maior parte das subscrições que tenho até agora são reincidentes nesta aventura. Não tenho a mínima veia comercial, sinto-me sempre muito estranha a publicitar o pacote™, mas a verdade é que é uma curadoria que adoro fazer.
Muito diferente da que ando a fazer no LUCA — e que também adoro! — que me põe a pensar na relação dos livros entre si, nas suas possíveis leituras, naquilo que podem oferecer ao espectáculo em cena e às pessoa que o vão ver, escolher os dois livros que envio por mês em cada pacote™ para cada uma das crianças inscritas, tem feito com que entre na minha vida a vidas de outras pessoas. Isso eu não esperava nem procurava, mas tem sido uma surpresa muitíssimo mágica que não consigo explicar muito bem. São os livros que envio que entram em casa das pessoas, pois, mas as descrições que fazem das crianças (em que também se revelam), as histórias que partilham sobre a chegada dos livros ou as reações dos miúdos às histórias, valem todo o trabalho a solo que por aqui faço.

A propósito de boas surpresas, ponho hoje na prateleira um livro que fala de como por vezes as coisas não correm como esperamos e de como isso nos parece mau à primeira vista. Que o diga o rato, que acabou de ser engolido pelo lobo mau.

A história parece começar pelo final infeliz, mas o rato depara-se com um outro habitante na barriga escura. O pato decidiu receber a sua situação de "engolido" de braços abertos e vive uma boa vida naquela caverna escura. De "engolido", disse, não de "comido", como ele próprio vem a frisar perante a possibilidade do caçador vir a ter sucesso na caçada ao lobo e, com isso, acabar com a sua vida.

Sou uma pessoa que luto pelas coisas, o que me parece bem em abstrato. Tento passar isso aos miúdos, filhos e alunos, e o "não consigo" é obrigatoriamente substituído pelo " não estou a conseguir" em minha casa e na minha sala de aula. Parece a mesma coisa, mas vejam bem como é tão diferente pois se o segundo tem implícita uma ação, uma tentativa,  o primeiro cheira logo a desistência.

Mas há um reverso nisto: também é preciso saber aceitar situações e fazer delas do-melhor-que-há. Muitas vezes uma música ou uma história ajudam-me a ver isso com mais clareza. É porque a música e os livros me ajudam a saber viver melhor que luto por uma presença forte de ambos na vida dos meus miúdos. E tenho a sorte de ter muita gente à minha volta que sabe fazer isso muito bem. Aproveito para ir aprendendo e fazer com que os miúdos o aprendam também.

A insatisfação é feia. O inconformismo é beleza. O pato ensinou isso ao rato e, depois do tal início pelo final infeliz, os dois viveram felizes para sempre.
Tinha este livro escolhido para um menino que está doente. Depois acabei por selecionar outro conjunto, mas gosto mesmo destes livros que ensinam a vida sem o dedo em riste.

E sou totalmente fã desta dupla de escritor/ilustrador: desafiam o esperado na temática e na paleta de cores supostamente infantis e acertam sempre na muche. Não me parecem nada insatisfeitos, mas o inconformismo é com eles. Ainda bem para nós.
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O lobo, o pato&o rato
Orfeu mini, 2018
Mac Barnett texto, Jon Klassen ilustrações
isbn 9789898868138

*as imagens retiradas deste postal foram retiradas aos Hipopótamos na lua porque, com a cabeça na lua, deixei o livro na quinta, junto às framboesas e aos figos. Obrigada.

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