28.2.17

O que faz um clássico?

Aqui na quinta o tempo corre devagar.

Com sobrinhos bebés pela casa, assistimos a inversões de papéis e revivemos fases. O E também é viciado em livros e arrasta-os pela casa enquanto diz A mãe conta, o pai conta, o tio conta, o R conta. E o R conta. É a imagem do dia: estranharmos o silêncio dos mais pequenos e irmos encontrar o R a ler e o E a ouvir.

Mais tarde aparece-me de livro em punho, com um ar entre o orgulhoso e o cansado, a queixar-se que o E lhe pede a história toda outra vez mal a acaba de ler. É, não é?... Bem-vindo ao clube!
Ensinei-o a dizer que "amanhã continua" e ele diz-lhe que "acabou o capítulo". E o E arrasta o livro até outro potencial leitor.


Um dos livros que por aqui anda é um americano que o tio trouxe de NY: enquanto vagueava meio perdido pela livraria hesitando no que trazer ao seu recém-primogénito, uma nice lady pediu desculpa pela intromissão e sugeriu-lhe um clássico americano. Um livro dos anos 40 que encantou gerações. 


Temos cada vez mais acesso a livros que fizeram a infância de várias gerações anglófonas, muito graças a casas como a Bruaá, a Orfeu e a Kalandraka. O hashtag editem em português vai sendo escasso nesta prateleira, o que é mesmo muito bom sinal. Mas este ainda não há cá em português e, pelo grau de satisfação que vejo no meu sobrinho, a lady in new york tinha mesmo razão: it's a classic!

A receita é simples: dizer boa noite a todas as coisas do quarto, antes de ir dormir.
Graficamente o livro é muito arrojado. As páginas coloridas do quarto vão intercalando com páginas a preto e branco com zooms dos vários objetos do quarto. As rimas e as repetições puxam o sono e as cores do quarto vão ficando cada vez menos brilhantes, cada vez mais escuras.


A lua vai passando nas janelas enquanto o coelhinho ouve o chhhh — que aqui é hush — da avó que tricota, e vai dizendo boa noite ao relógio e ao rato, às cadeiras e à escova, a ninguém e ao ar, às estrelas e à lua.
O coelho — que para o E é a encarnação do seu próprio boneco de peluche — demora nem mais nem menos do que 50 minutos a adormecer!?... Uma enormidade comparados com o 5 do E. 

Aqui na quinta o tempo corre devagar. 


Com os 2 sobrinhos bebés já a dormir e os 3 filhos a ler na cama, também nós lemos na sala cada vez mais escura, cada vez menos brilhante, enquanto a avó tricota e a lua passa lá fora, duma janela para a outra.
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Goodnight Moon
Harper Collins, 2005 (1ª edição 1947)
Margaret Wise Brown texto, Clement Hurd ilustrações
isbn 9780060775858

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