23.6.16

ser ou não ser

Temos a sorte de, desde há uns anos para cá, ter acesso a novidades editoriais já com alguns cabelos brancos. Esta foi publicada pela primeira vez em 1946 e chega agora a Portugal.

O T estranhou o título: como assim?? É preciso ler para perceber, disse eu, e ele leu. Também é para a tua idade, disse ao B, e ele leu também. E como também era para a minha, também li. Falta contar ao R, porque também é para a idade dele! Há grandes livros assim.

Nas livrarias chateia-me bastante a estante da literatura para adolescentes: a maior parte dos livros parece-me bastante bacoca, como se os adolescentes fossem todos um bando de pessoas aparvalhadas. Eu sei que às vezes parecem, mas convivo diariamente com centenas deles e, como dizem os ingleses, there's more to them than meets the eye.

É que no meio de tanto alarido ou silêncio a mais, no meio de tanto querer ser diferente e não querer mais do que ser igual a todos, no meio de tantas portas fechadas, há tantas que se abrem.

Em cada adolescente há um miúdo cheio de vontade e interesse de conhecer, de se conhecer, de crescer, de perguntar, de procurar resposta.

Imagino que muitos se sintam tão desajustados como este urso de quem toda a gente diz ser "um homem tonto que precisa de fazer a barba e usa um casaco de peles".

Este urso, que hiberna no inverno como é suposto um urso fazer, acorda para um mundo estranho e que o estranha.

Enquanto dormia, os homens ergueram uma fábrica sobre a sua gruta e, à força, querem agora convencê-lo de que não é um urso e sim um homem tonto que precisa de fazer a barba e usa um casaco de peles.

E ele luta bastante contra este rótulo, passa do sub-diretor até ao Diretor, visita zoos e circos onde até os seus pares o renegam.

Por fim, enfia mesmo a carapuça e passa a trabalhar na fábrica, que um dia acaba por fechar.
O urso deixou de saber ser urso e, quando chega o inverno, fica sem saber o que fazer.
 
Costumo espreitar outros blogues à procura de pedradas no charco no universo juvenil para intercalar com os clássicos fundamentais que faço chegar aos miúdos.
Há dias, um amigo fez-me chegar um artigo que discorria sobre a qualidade desses clássicos fundamentais e falava do tempo em que não existia literatura para a infância. Sim, até não há muito tempo, os meninos que liam não tinham livros pensados à sua medida. Divertimo-nos a pensar que figuras incríveis, escritores mestres e ilustradores incontornáveis, nunca leram um livro infantil!

Esta é uma pequena história com a história do mundo dentro; lê-se de um só trago, não tem propriamente o fôlego dum livro para um jovem leitor.
Mas as questões do desajuste, de procura de identidade, de desafio à sociedade instituída, são totalmente na mouche para esses que vão adolescendo, não partindo do princípio que se tratam de totós ou bananas e sim de seres pensantes que vão desenhar o amanhã daqui a não muito tempo.

E para mim também, que me sinto tantas vezes na cidade como "um homem tonto que precisa de fazer a barba e usa um casaco de peles". Logo agora que chegou o verão com toda a força!
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O urso que não era
Bruaá, 2016
Frank Tashlin
isbn 9789898166296

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