5.4.16

mover montanhas

Estivemos na montanha. Estivemos em várias montanhas, na verdade, e nos caminhos que por elas sobem e descem às curvas, para desespero do T. Lembrei-me dos filmes de Francis Alys que vimos em S. Cristóvão e do outro que aconteceu lá longe, noutras montanhas.


Numa das viagens atravessámos Portugal pela coluna vertebral, bem pelo centro, sempre a subir, do Alentejo ao Minho. Vimos a paisagem mudar e apercebemo-nos da sorte que temos de estar neste mini-país que tem em si tantas coisas tão diferentes, mesmo ali ao virar da esquina.


As viagens são lugares de saber. Estar assim umas horas tão perto uns dos outros cercados pelo cinema das janelas dá para muita coisa. Os miúdos propuseram como banda sonora toda a discografia dos Beatles. Não chegou a viagem. Mas aprenderam inglês, vocabulário e pronúncia.


Viram mapas de estradas e autoestradas, opinaram sobre o caminho a seguir, tentámos adivinhar o nome das aves — algumas já sabemos mesmo — e voltei a falar-lhes dos nomes das plantas que despontam por esta altura. Calcularam a hora de chegada


e dividiram o mundo em lã, barro, minério, madeira, cereais, fazendo um jogo à escala real.
Depois subimos mais ainda e o cenário tornou a mudar.


Um dos maiores desejos ligados à neve (além das batalhas de bolas) era fazer um boneco: fizemos um clássico, com a cenoura e as azeitonas que o R quis trazer atrás, e depois outro, muito alto, como se fosse mais um irmão, ali no meio deles.


Quando descemos as cadeiras de nariz ao vento, cantaram a música do Snowman, baixinho, e percebi na hora que era daqueles momentos que vão voltar muitas vezes às nossas cabeças.
Nevou a sério e tudo em volta mudou novamente.


O cenário dos bosques de pinheiros-árvores-de-natal, de castanheiros cobertos de líquens e de bétulas com ramos lilases transformou-se num postal a preto e branco e a montanha cobriu-se com um wataboshi, como que para se casar.


Ao fim de uma hora em cima dos esquis, queriam descer a montanha. Ao fim de duas, desceram mesmo. Eu também, com umas "paragens" pelo meio.


Estas Montanhas costumam ir connosco de férias. O livro é grande mas leve e cabe em qualquer mala. Já vamos bastante adiantados mas a verdade é que há várias páginas em que não apetece mexer, de tão bonitas que já estão.


O mais entusiasta é o R, que gosta de inventar nomes artísticos e escrever uma sucessão de letras aleatórias na etiqueta da técnica.


No Carnaval fizemos um a cinco mãos e o R quis desenhar um esquiador, em jeito premonitório, talvez. Mal sabíamos que daí a pouco mais dum mês seríamos nós ali, na montanha, a despentear-lhe a neve.


Hoje estamos em casa, na cidade ventosa, com o cheiro das laranjas da quinta.


Ao fim do dia, vamos desenhar a folha dos esquiadores, percebendo finalmente um pouco melhor o que significa deslizar sobre duas tábuas


pelas costas da montanha abaixo.
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Montanhas
Planeta Tangerina, 2014
Madalena Matoso
isbn 9789898145673






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