26.1.16

Preencha o espaço em branco

No fim-de-semana fomos ver "A caminhada dos elefantes" de Miguel Fragata e Inês Barahona.

Foi muito bonito. Não é sobre a Morte, avisa o ator no início. E ficou combinado, que se distraísse e dissesse alguma destas palavras — morte, morrer, morrido, matado, morto —, o público deveria avisar: o R passou a hora inteira a pôr o braço no ar. Porque é sobre a morte.

— O que é a morte R?
— É morrer. 
— E o que é morrer?
(Longo silêncio)
— É roubarem os brinquedos.
— Porquê?
— Porque é mau.

Às vezes é bom conversar, outras vezes um livro, um espetáculo, é o que nos ajuda a comunicar com os miúdos. Ou até connosco próprios. É que do nada não se pergunta a ninguém como se sente hoje. Como do nada não se fala sobre a morte, mas um livro salva — perdão —, serve para tanta coisa. 

Mais um abecedário como tantos, mas um objeto tão único: Madalena Moniz põe o miúdo a dizer como se sente; mas ele não fala, nós é que criamos frases na cabeça e sentimentos noutro sítio qualquer quando o vemos aqui e ali, desamparado ou destemido nestes belíssimos quadros, graficamente tão universais e tão portugueses.
Algumas situações são cómicas,

outras poéticas,
 
muitas duras, como a vida.

Não é só sobre a morte que é difícil falar. É difícil falar sobre o que sentimos e é difícil saber o que os outros sentem ou porque se sentem assim. E é verdade que não temos sempre de saber tudo, mas porque nem sempre estamos fortes,

é bom que haja maneiras de termos algumas certezas importantes.

O nosso livro ainda não tem nada escrito nas páginas do fim, mas estou cheia de vontade de ir preenchendo os espaços em branco.
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Hoje sinto-me
Orfeu Mini, 2014
Madalena Moniz
isbn 9789898327291

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