2.12.15

cores, nomes


Já éramos uma família sem ele, há 5 anos.
Depois veio assim antes do tempo, a mandar-me parar, olhar e ver. Era mínimo, quase invisível.

Há 5 anos voltámos a ser ímpar com o belo e criativo desequilíbrio que um número ímpar traz.
A minha sogra tem a teoria de que, nas crianças, os anos pares são os mais terríveis. Tenho comprovado isso, de modo que agora entro num ano em modo cruzeiro, com um molho de rapazes em ano ímpar.

Será sempre o irmão mais novo, mas nunca invisível: o miúdo puxa para ele a atenção, desde o primeiro dia. Se uns nunca ficam sem resposta, este inventa a pergunta.

O mais pintor cá de casa não vê as cores todas, ironicamente. Talvez por isso mesmo seja um pintor, quem sabe? Muitas pessoas me dizem que tenho uns olhos bonitos, mas só ele me diz que tenho olhos roxos: se olhos amarelos são de bruxa, gosto de pensar que os roxos são de fada!
O B ficou preocupadíssmo quando descobrimos que o R é daltónico. Mas é talvez uma benção esta espécie de caixote que ele tem sobre a cabeça: vê o que nós não vemos, vê o invisível.

E consegue ver esta história que levou, felicíssimo, para mostrar aos amigos.  É que pôr uns óculos de lentes coloridas é quase tão fixe quanto pôr as mão nos bolsos nos casacos de capuz, com o zipper fechado. Talvez por isso já tenham desaparecido do envelope...

Lembro-me da primeira vez que pensei na questão das cores sem saber que havia quem já tivesse escrito tratados sobre isso. Como sabemos que o verde a que todos chamamos verde é visto pelos outros da mesma maneira?

Com o R a questão é anterior a essa. Peguei nas suas 50 canetas de feltro e estivemos a dar nomes às cores, uma por uma. Para algumas ele não tinha nome (e as cores podem ter muitos nomes) mas não era porque não sabia, era porque não as via.

Ao tirar uma fotografia às cores que não distingue e passá-la para preto-e-branco, percebe-se que não há diferença entre a luz de algumas cores e isso ajuda a perceber que para ele não haja nome para aquela cor.

Vê menos? Pois, talvez. E sem os seus óculos de Mr. Magoo, com certeza! Mas também vê diferente e isso pode ser — será — uma tremenda riqueza. Olhos roxos são uma raridade, não?
Cada um vê o que quer, com ou sem óculos. É certo que estes de lentes vermelhas ajudam.

(Há aquela fase linda em que os bebés tapam os olhos com as mãos e dizem que não estão cá, ou põem o pano na cabeça e desaparecem.)

O irmão invisível desta irmã, anda com um caixote sobre a cabeça e acha que é invisível. E o que ele vê não é de facto exatamente o que nós vemos.

O irmão invisível cá de casa está grande e começou a juntar letras no último dia dos seus 4 anos; há uns meses começou a ler música e agora, de repente, há outras figuras que deixam de ser só abstratas e ganham um sentido.

Lê RITA, PATO, COPO e depois escreve palavras para eu "adivinhar" — que quer dizer ler — em sequências inventadas de letras que conhece e sabe desenhar. Lá está, inventa a pergunta.

Apanhou um pedaço de acetato cor de rosa e monta cenas à la Lourdes Castro nas escadas. (Acho que já sei o que vai para o sapatinho!)
E a vida vai passando como um gigantesco jogo de conquista em conquista, vendo mais ou menos ou apenas diferente.
E o que verá este miúdo de enormes olhos de água?
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O meu irmão invisível
Orfeu Mini, 2015
Ana Pez
isbn 9789898327604

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