12.3.15

O primeiro universo

Sou arquiteta. É isso que sou mesmo quando não estou a fazer arquitetura. Gosto de projetar, a toda a hora, seja o que for. E ser arquiteta deu-me essa capacidade, de pegar numa ideia, numa questão, e de a organizar, de a fazer crescer, fazer acontecer. De criar.
É isso que gosto de fazer (ou de ensinar) seja com pedra e cal, ou lápis e borracha, ou farinha e ovos, ou tesoura e tecido, ou luz e volumes, ou agulhas e lã.
Por isso — aqui confesso — este livro fui buscá-lo para mim.
 
Os miúdos já o apanharam, claro, e combinámos logo uma expedição à Póvoa do Varzim para encontrar a Casa Beires "onde parece que caiu uma bomba"!
Ao ler o livro, lembrei-me das várias viagens insólitas que fiz à procura de certos edifícios que tinha mesmo de ver e em que invariavelmente acabei num comboio, a caminho dos subúrbios de Amesterdão, de Osaka ou desta, nos arredores de Paris.
  
E da emoção de ver aquilo ao vivo, de entrar — ou de tentar entrar — para ver melhor, para perceber mais, para percorrer, para estar.
Onze casas magníficas.
 
E a escolha de casas para este manual de arquitetura e não de edifícios em geral é muitíssimo certeira: a casa é o nosso mundo (“um verdadeiro cosmos”, “o nosso primeiro universo”; “a casa é uma das maiores forças de integração para os pensamentos, as lembranças e os sonhos do homem”, já lá dizia Bachelard). E, se formos crianças, isso é ainda mais verdade.
Por aqui somos todos caseiros. Muito caseiros. A ideia de ficar um dia inteiro, de manhã à noite, em casa, de pijama, é eleita por todos. Na verdade só acontece quando alguém está doente e há essa desculpa. Normalmente cumpro o meu papel de enxutar todos de casa para ver outros mundos ou pelo menos ir chutar uma bola. Depois, exaustos, regressamos para onde queremos mesmo estar.
O B fez-me a pergunta fatídica de qual o melhor arquiteto do mundo; obviamente não consegui responder. Provavelmente não conseguiria fazer este livro.
Onze? Escolher onze? Sim, estas estão perfeitas, é uma ótima seleção. E as que ficaram de fora? Definitivamente não conseguiria fazer este livro.
O autor mostra mais do que só a casa e aproveita para dar um cheirinho de outras coisas. Ainda bem. Fui à procura das imagens reais destas escolhas, embora estas ilustrações sejam bem realistas, mas não estão no livro.
Acho que as vou imprimir e deixar entre as páginas: eles gostam sempre de saber que aconteceu mesmo assim, quando aconteceu mesmo assim.
 
Descubro outros dois outros livros, do mesmo autor, a que não sei se resisto.

Por agora, este será perfeito para oferecer a tantos amigos de que me fui lembrando
enquato lia as descrições simples mas cuidadosas do desenho das casas, das novidades construtivas, dos conceitos por trás de cada obra.
 
Fiquei com saudades de arquitetar, confesso. Espero ansiosa a hora. E gostei de perceber, assim neste conjunto, que muitos arquitetos foram outras coisas antes de serem arquitetos. Fizeram coisas, foram fazedores de qualquer coisa.

Vivo na casa que desenhei. O privilégio disso é inominável. Não pela qualidade da coisa (convivo todos os dias com asneiras) mas pela sensação permanente de criação: a consciência do ato simples mas poderoso dos antigos de espetar um pau na terra e de com isso começar. Começar qualquer coisa.
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Mãos à obra: cada casa a seu dono
Didier Cornille  
Orfeu Mini, 2015
isbn 9789898327451

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