11.6.19

O tipo que veio para o chá

A prateleira-de-baixo é mesmo a prateleira de baixo cá de casa, mas, de repente, passou a ser mais que isso. Tenho por isso desculpa (como se alguma vez tivesse precisado de uma...) para trazer para casa um livro totalmente fora da idade dos miúdos aqui de casa. Será?

A propósito da recente notícia de mais um serviço de subscrição de livros infantis em Portugal (que não é o primeiro e pouco terá a ver com o que preparo, mas, ainda assim, não gostei do modo como foi apresentado como pioneiro) alguém falava sobre a pertinência de agrupar os livros por faixa etária.

Tenho organizado os livros no site por vários tipos de etiqueta e a da faixa etária ajuda pouco, porque acabo por pôr o mesmo livro em várias idades. É que, quando são mesmo bons, funcionam muito bem para diferentes idades — até à adulta! E foi por isto que trouxe O Tigre Que Veio para o Chá para a prateleira.

Por isto,  porque é um ícon da literatura anglófona (e, por isso, universal) e também porque a tradução é da Carla Maia de Almeida. Além de ser uma magnífica tradutora (que nos tem trazido muitos Sendaks pela mão da Kalandraka), é a autora do Irmão Lobo.

A primeira vez que o Tigre veio para o chá foi em 1968 e, em Portugal, apareceu pela primeira vez pela mão da Kalandraka, em 2010.

"Esta é a história de uma menina chamada Sofia,
que estava a lanchar com a mãe na cozinha.
De repente, ouviram tocar a campainha."

As ilustrações de Kerr, uma dama da literatura infantil inglesa, que morreu recentemente, fazem lembrar as da nossa também grande dama, Maria Keil. E a história, em que o Tigre é acolhido em casa e acaba por comer toda a comida que havia, obrigando o pai de família a resolver as coisas indo  todos (menos o Tigre) jantar fora, é absolutamente deliciosa.

Entre o nonsense e o surreal, a história funciona como uma enorme loucura no meio de um quotidiano estável e muito "normal". E é por isso que é tão boa. Pondo-a no contexto, claro.

É que este episódio da vida doméstica em que tudo está no seu sítio e um Tigre esfomeado acaba com as provisões familiares pode ser lido, na sua cadência ritmada, como uma história da vida doméstica dos anos 50/60. Só que não!

E esse clique — bem, e o final, — é que fazem deste livro um objeto obrigatório a ter na nossa prateleira-de-baixo-e-de-cima.
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O Tigre Que Veio para o Chá
Judith Kerr
Booksmile, 2018 (1ª edição 1968)
isbn 9789897074585


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