25.3.19

Clandestino

Ponho aqui hoje este livro colorido, divertido, provocador, politicamente incorreto, vivo, clandestino e um pouco excêntrico, em memória de Manuel Graça Dias.

Por alguma razão que desconheço, foi meu professor não um, mas dois anos, ao contrário do que era costume, na Faculdade de Arquitetura. Por isso tive a sorte de aprender dois anos com ele; e, se tivesse de apontar apenas um professor importante na minha formação, o MGD seria o tal. Sei que, cada vez que entrar no LuCa, me vou lembrar dele.

Não sou grande fã do seu trabalho como arquiteto, mas foi com ele que aprendi a projetar, a repensar, a tirar lições da arquitetura sem arquiteto, a defender ideias, a encontrar a beleza em lugares estranhos. Foi também com ele que aprendi que o humor pode ser uma ótima ferramenta: de projeto e de vida.

Porque me pediram um pequeno estudo, tenho andado às voltas com livros sobre e à volta da arquitetura para miúdos. Mas não é um desses que escolho hoje para este in memoriam.
Porque não é o arquiteto que aqui quero homenagear, mas sim o grande Professor, pulsante, que nos provocava sempre de forma a nos abanar os alicerces. E sei que este Supõe... seria certamente do seu agrado.

As ilustrações com figuras estranhas e não exatamente bonitas ou agradáveis, as cores vivas e vibrantes, o humor e o inusitado, as sobreposições e perspetivas arrojadas — são tudo ingredientes de que gostava e nos ensinava a valorizar.

Ainda antes dos seus programas na RTP e dos seus livros, cativava-nos pelas imagens que escolhia para os slides provocadores e excêntricos que comentava, à média luz, no Convento de São Francisco, ao Chiado — onde tive a sorte de ainda frequentar o meu primeiro ano.

Acabados de chegar à Faculdade, éramos muito tenros para aguentar as suas críticas mordazes, mas tive a sorte do Professor gostar sempre muito do conjunto de desenhos que lhe tínhamos de mostrar à 3ª feira — terror dos meus colegas. Esses elogios deram-me a segurança para avançar no meu caminho. Eu, que tanto aprecio a Maria Montessori, discordo dela nesse campo: passo muitas vezes por trás dos meus alunos e atiro um elogio. É que um elogio, na altura certa, é um combustível para um bom trabalho.

A maior rabecada que recebi numa apresentação, foi por ter gasto todas as ideias no primeiro projeto: Ó menina, disse-me, então foi gastar as ideias todas num projeto! Isto parece um parque de diversões!? Bastava ter pegado numa destas ideias e desenvolvê-la. E depois deu-me uma boa nota, porque havia ali potencialidade e, afinal, era o nosso primeiro projeto.

Sei que sou bastante exigente enquanto mãe e enquanto professora e, neste segundo departamento, julgo que o sou porque aprendi a repensar ideias a partir das críticas dele. Divertido e entusiasta, sem papas na língua, via-se que não gostava de perder tempo. Mas sabia ouvir, embora tenha deixado em lágrimas vários colegas meus, com a dureza das suas críticas, muitas vezes demolidoras.

Ensinar passa por nos pormos na pele do outro e pegar em ideias que provavelmente não teríamos, porque não são as nossas, e fazê-las crescer. Mas também pode passar por demolir para abrir espaço e ser depois possível construir alguma coisa melhor. E isso não é nada fácil de fazer.

Este Supõe... é um conjunto de suposições, de situações, de pensamentos que talvez tenhamos imaginado enquanto crianças — que talvez ainda imaginemos —, mas que não era, não é, suposto verbalizarmos. O MGD verbalizaria.
Uma espécie de livro clandestino no universo dos álbuns ilustrados, como muitas vezes o foi MGD no universo da arquitetura dos arquitetos.

Vou ter saudades de o encontrar por aí com o seu boné e de lhe acenar com um "Professor" e não com um "Arquiteto", como é costume na profissão, porque gostava de lhe lembrar que tinha sido sua aluna. E que tinha muito orgulho nisso.

Este foguetão é para ir ali a lua e voltar, Professor!
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Supõe...
Bruaá, 2018
texto Alastair Reid, ilustrações JooHee Yoon
isbn 9789898166401

2 comentários :

  1. Que bonito, Sara! Bela homenagem.

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    1. Obrigada, querida Isabel! As homenagens são o pouco que podemos fazer para minimizar a perda e aumentar a vida, não? Beijo

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