21.9.18

Introdução à ficção científica

Voltar à cidade é muito difícil. Voltar a pôr sapatos nos pés é do pior e a minha ligeira claustrofobia ganha alguma expressão por estar muito mais tempo dentro de casa. Os miúdos adiaram até ao primeiro dia de escola tirar as havaianas dos pés — e eu também.

Não fui criada no campo, mas talvez por em criança passar o mês de agosto numa praia a norte e os primeiros quinze dias de setembro acampada no Algarve, tenha este sentimento de clausura em relação ao fim do verão dentro de quatro paredes.

Sobre um dos livros que escolhi para o espetáculo agora em cena no LUCA, falava da cidade como "um animal assustador, com muitas coisas estranhas escondidas na sua juba emaranhada. A natureza torna-se tímida ao pé da cidade". Pudera.

A cidade dos animais é uma história em que uma menina visita um grupo de amigos animais, num lugar secreto e lhes conta histórias. A história que os animais mais gostam de ouvir é aquela em que são protagonistas, como os meninos pequeninos.

Ao mesmo tempo que tem uma sinopse simples, esta é uma história intrigante, meio de ficção científica, porque retrata um possível futuro, em que uma cidade foi abandonada à natureza ou, melhor ainda, em que a natureza a engoliu.

As ilustrações são selváticas, com cores vibrantes e sobrepostas como é a natureza. Mas da mesma matéria são as cores dos despojos humanos, ali deixados para Nina e os seus amigos explorarem, como novos brinquedos. Os dois mundos são agora um grande parque de diversões para Nina&cia.

A história não chega a ser assustadora — porque é que a cidade foi engolida pela vegetação?, onde vivem agora os homens? — porque vemos uma representante da espécie humana, Nina, a tal menina contadora de histórias. Que belíssima característica humana, esta, a de contar histórias!
 
Ainda estamos na nossa velha casa, este miradouro da cidade, numa selva de caixotes, onde restam poucos livros de fora para ler. Haveremos de ter parte da casa nova a céu aberto e isso faz-nos aguentar melhor este aperto em que estamos, agora mais que nunca.

No entretanto, delicio-me a olhar lá para fora, para os caixotes de Lisboa, tão bonitos, para as pessoas que passam apressadas ou gritam em São Domingos e divirto-me a imaginá-los engolidos por lianas

e transformados em tigres e flamingos.
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A cidade dos animais
Orfeu Mini, 2017
Joan Negrescolor
isbn 9789898327994
 




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