20.7.18

De um só trago

Não sei se todos os miúdos gostam de apanhar coisas e trazê-las para casa. Se todos gostam de fazer coleções de cromos. Não sei se costumam ouvir barulhos estranhos na máquina da roupa e lá vão encontrar pedras e folhas desfeitas saídas de um bolso. Não sei se todas as famílias têm caixas numeradas por anos onde guardam as conchas de cada verão. Não sei se entram em restaurantes para pedir caricas. Não sei se todas as famílias têm uma coleção de pedras. Nós temos, nós fazemos.

Os miúdos partilham um mini quarto e tudo é de todos. Os presentes que recebem para si nos anos no dia seguinte são de todos. Não é bom nem mau, é assim porque são todos rapazes, porque vieram mais ou menos seguidos, porque o espaço assim o proporcionou. Talvez.

Um dia achei que precisavam de ter o seu "espaço" e arranjei uma caixa para cada um. Nessa caixa guardam as suas coleções privadas, os legos mais preciosos, bilhetes, cartas, o brinquedo do momento. Nem sei bem o quê, é o espaço deles, o museu privado deles.

Lembrei-me das caixas deles a propósito do Wonderstruck — O Museu das Maravilhas.
Do mesmo autor d'A invenção de Hugo Cabret, Wonderstruck é uma nova novela (-gráfica?) que apetece ler de um só trago, como fez o B, como se fosse um filme.

Desta vez a construção é feita com duas histórias paralelas, em que uma é contada por palavras, a outra por imagens.

Uma passa-se em 1977, a outra em 1927.

Numa o protagonista é um rapaz, na outra uma menina.
E pouco mais aqui direi porque não costumo revelar desenlaces nestes postais. No spoilers here!

Só dizer que de alguma maneira as personagens estão ligadas pelo silêncio,

que há um medalhão daqueles com uma fotografia dentro

(exatamente como tinha a minha tia com uma fotografia do meu tio lá dentro, que magia!...), que no início da história gráfica há uma brincadeira tipo zoom out, tal e qual como no livro Zoom.

Mas acreditem que vale mesmo a pena passar os olhos por esta história. Os desenhos não têm todos a mesma qualidade, mas tudo se perdoa neste belíssimo... livro.

Ia dizer filme — e à semelhança de Hugo, também já há um deste — mas não deixem de pegar este pesado livro amarelo (depois de lhe tirarem a sobrecapa descartável) e de o ler.
Acho até que o hei de reler, nestas férias, desta vez em voz alta, a um molho de miúdos de olhos bem arregalados.
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Wonderstruck — O Museu das Maravilhas
Edições Asa, 2018
Brian Selznick
isbn 9789892341484

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