14.3.18

Dança entre poeira cósmica

Miúda, estranhei ver sempre o mesmo livro, durante largos meses, na mesa de cabeceira do meu pai. O meu pai lê à velocidade da luz e não percebia como era possível que demorasse tanto tempo com aquele livro. Era o Em busca do tempo perdido, de Proust, e portanto não um livro mas sete, nove milhões de caracteres, cerca de milhão e meio de palavras, segundo o Guiness. O maior livro alguma vez escrito. Só muito mais velha decifrei o enigma.

Outro livro que me lembro muito bem de estar ali por cima da mesa nos famosos anos 80, é o Uma breve história do tempo de Stephen Hawking. Lembro-me de perguntar ao meu pai quem era aquele homem na fotografia do livro de capa escura e lembro-me que a explicação me deixou inquieta. Não era para menos.

E hoje não podia deixar de fazer a minha homenagem a Stephen Hawking, à lição de vida que nos deixa, talvez até maior que a lição de ciências. E faço-o com um livro, claro.

Por aqui vão entrando livros para a prateleira-um-bocadinho-menos-de-baixo de que não falo tanto. Este já foi várias vezes relido pelo mais velho e é perfeito para tirar hoje da prateleira.

A história é fascinante e real: tudo começa pela inquietação de dois homens sobre um ruído na antena que tinham construído e de que não conseguiam explicar a origem.

Bem, na verdade não é aqui que começa: começa com o Génesis e passa rapidamente para 1939, quando um desses homens, então menino de 6 anos, judeu, é posto num comboio na Alemanha, sozinho com o irmão, a caminho de Inglaterra.

Um ano depois a família reuniu-se em Nova Iorque. E então, sim, há novamente possibilidade da história poder continuar. O livro conta como a resposta à grande pergunta da humanidade foi sendo dada ao longo de tantos anos por tantos homens que foram encontrando pequenas partes dela. Uma pequena história do mundo.

Cosmicomix é uma novela gráfica onde a propósito desta inquietação dos dois radioastrónomos, Arno Penzias (o tal menino de 6 anos) e Robert Wilson, se conta a história de como se chegou a uma primeira resposta à grande questão humana

— como e quando nasceu o Universo? — na teoria do Big Bang. Mas a grande questão humana também é porquê — porque é que nasceu o Universo?



Bem, Hawking era ateu e não acreditava nem em Deus, nem na possibilidade de vida depois da morte.

Mas acima desta chuva toda, tenho a certeza de que anda por ali a viajar no espaço-tempo, entre poeira cósmica, com o corpo finalmente livre para dançar à velocidade da sua cabeça.
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Cosmicomix — A descoberta do Big Bang
Gradiva, 2015
Amadeo Balbi texto, Rossano Piccioni ilustrações
isbn 9789896166595

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