30.10.17

Sem árvores

Há miúdos que trazem coisas para casa. O R traz coisas para casa. Nos bolsos, nas mãos, na mochila. Eu já não sou uma miúda, mas continuo a trazer coisas para casa.

E foi por isso que, neste outono, os tesouros que normalmente ficam pelo móvel da entrada a marcar as estações que vão passando (ali mesmo junto às fotografias que todos os anos tiramos os 5 enfiados na photomaton) vieram ocupar a parede da sala. 

As primeiras a chegar foram as sementes e, quando há umas noites atrás, convidei o Roque a interromper a leitura do seu grande livro em capítulos — Pipi das Meias Altas — para ler as Cem sementes, ele saiu da cama, entusiasmado, para me vir mostrar a semelhança entre os desenhos do livro e os tesouros que tinha trazido há dias para casa.

No fim-de-semana fomos à quinta e voltámos a comer da terra: medronhos, araçás, romás, castanhas. E não mostro aqui tudo o que apanhámos do chão e das árvores, as malaguetas e o mangericão, as nabiças e as couves galegas, os crisântemos e o alecrim, as alfazemas e a vinha virgem, nem falo do gafanhoto coxo que alimentámos e salvámos e do ouriço que encontrámos afogado no tanque e não conseguimos salvar.

O fogo não chegou a este verde Minho e os castanhos, laranjas, amarelos, vermelhos e dourados que nos rodearam só eram assustadoramente bonitos — os tons que costumam por esta altura pintar o verde.

Há livros com timing perfeito; este é um deles.
No caminho para o norte passámos por paisagens desoladoras, negras, onde mesmo assim a natureza começa já a renascer em força.

As feridas das árvores são diferentes das dos Homens e por trás de tanto negro é difícil não nos lembrarmos de pessoas e lugares que não conhecemos e que agora estão mais presentes nas nossas vidas.

Recebemos um requeijão divino feito com o último soro de leite que ainda estava guardado de antes dos incêndios: as ovelhas e os pastos que lhe deram origem já não estão cá para continuar a história. Saboreámos com a solenidade que conseguimos este requeijão com uma história tão triste e tão bonita ao mesmo tempo. Tentámos estar à altura, mas foi difícil.

Estas Cem árvores contam-nos uma história que parece triste, mas que no final tem a sua redenção, na aventura das cem sementes que depois de aparentemente se terem perdido todas, deram afinal dez árvores à floresta.

Que possamos cada um, naquilo que o seu papel lhe permite — políticos, pais, professores, editores, ilustradores, ...— lutar por estas sementes que morreram de facto: pela floresta, pelas árvores, pelo pasto, pelos animais e pelo futuro.

Este fim-de-semana há o Organii Eco Market, na Lx Factory e a Nheko desafiou-me a montar a biblioteca — uma prateleira-de-baixo! — na Casa Nheko. Para além disso, desenhei 7 eco-pacotes™, pensados para miúdos entre os 0 e os 14 anos, que imaginei com diferentes personalidades: o eco-sonhador, o eco-poeta, o eco-consciente, o eco-inquieto, o eco-aventureiro e o eco-marítimo. Estes pacotes™ vão estar disponíveis e recheados com dois livros cada um. Livros onde, de uma maneira ou de outra, se fala deste ecossistema em que vivemos: da natureza e do Homem, da natureza do Homem, da sua relação com o ambiente para podermos chegar a perceber o que é realmente melhor para as pessoas, animais, planeta — para todos!
Este vai lá estar, claro.
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Cem sementes que voaram
Planeta Tangerina, 2017
Isabel Minhós Martins texto, Yara Kono ilustrações
isbn 9789898145802

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