23.6.17

Caderno de desenho

Miúdos quase todos em férias merecidas e tempo de balanço de mais um ano a ensinar (imaginem um risco em cima desta palavra) a desenhar.
A maioria das vezes sinto mesmo um traço em cima desta ação, mas há sempre momentos ou miúdos durante o ano que fazem valer a pena todos os traços por cima de tantas alturas difíceis neste ofício de ensinar.



Costumo tentar explicar-lhes — aos filhos e aos alunos — que toda a gente pode aprender a desenhar, que é como fazer o pino: uns fazem à primeira, outros precisam de alguém a segurar as pernas durante muito tempo, mas todos lá chegam.



Há muitas estratégias para ensinar a desenhar, mas todas acabam como acaba este livro, ou seja, no final o aluno tem que estar independente do professor: no fim têm de ser mesmo eles a continuar, a fazer, a desenhar, a querer.



Cá por casa desenhamos juntos, às vezes os 5, e é uma coisa que faz parte das nossas vidas com naturalidade porque foi sendo construída. Dos 3, só o R tem o prazer inato do desenho, que ultrapassa a característica de determinadas idades; o B e o T tiveram várias fases em que gostavam, mas nunca como o R e sempre com alguma hesitação, deceção, até. Hoje são confiantes e independentes no que fazem; usam a mão e a cabeça, que é tão importante no desenho como a mão. no outro dia nas dunas o T reconheceu um pintassilgo que tinha desenhado, reconhecendo também que só o tinha reconhecido porque o tinha desenhado. Desenhar é mesmo uma forma de aprender o mundo.


Outras lições engraçadas que o livro — e a vida — dá, é que os nossos desenhos muitas vezes ganham vida própria, que muitas vezes não são aquilo que inicialmente pensávamos e que até os métodos mais infalíveis falham.



Convencê-los de que são capazes, de que vale a pena tentar e que aquilo que fazem é bom, nem sempre é fácil: ou porque são perfeccionistas, ou porque são muito exigentes com eles próprios, ou porque nunca se ligam àquilo que constroem, ou porque por e simplesmente não querem tentar. Mais de metade do trabalho de ensinar desenho a adolescentes, é chegar a eles. E chegar a eles todos, que são muitos e muito diferentes e em tão pouco tempo.



Com os alunos temos de fazer um bocadinho como com os filhos e esperar. Ou ter esperança, porque, no caso dos alunos, muitas vezes não chegamos de facto a ver os frutos do nosso trabalho, e temos só de acreditar que eles acabam por nascer, ainda que longe da nossa vista.



E não desesperar porque de facto não é possível chegar a todos. Guardo cartas de antigos alunos e conversas com pais às quais regresso de vez em quando e que funcionam como choques de energia para aguentar a exaustão de muitos dias, de muitas lutas difíceis de travar, num terreno que tem ainda tantas faltas, que está ainda tão mal desenhado, mas onde temos de ir trabalhando o melhor que podemos.



Trabalhar com crianças tem este lado de cansaço físico (e não só) como não encontro em mais nenhum dos ofícios que tenho ou já tive, mas que se junta a esta responsabilidade e beleza de estar a trabalhar com a matéria-prima do futuro.
Este livro é muito branco e até as páginas da esquerda estão em branco, mesmo a pedi-las.



Não sei se lhe chame livro ou caderno de desenho. Não garanto que vá permanecer por aqui assim durante muito mais tempo...
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Como desenhar animais uma galinha
Bizâncio, 2017
Jean-Vincent Sénac
isbn 9789725305935


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