27.1.17

Mandei-te uma carta

Sinto-me hoje um pouco como o Sr. Costas, o carteiro da ilha: de saco à costas e carrinho pela mão, lá vou eu pelas rua da cidade até aos correios, para enviar PACOTEs.

Ainda faltam alguns; as transportadoras atrasaram-se, a morada ficou ilegível, nem sei, coisas que acontecem. O certo é que tenho uma série de pacotes de boca aberta, ali à espera de mais um livro, para depois os selar, passar o cordel em volta e enviar.

É engraçado este ritual de enviar livros. Com um estatuto especial de envio, os livros têm de ser acomodados segundo determinadas regras, como coisa preciosa.
1. Devem ir protegidos — haverá por aí carteiros menos cuidadosos que o Sr. Costas — e há viagens longas, para o outro lado do mundo, mesmo!

2. Devem ir identificados como LIVROS, para que não haja dúvidas de que ali viaja coisa importante.

3. A embalagem tem de poder ser espreitada pelos serviços. Imagino um funcionário dos CTT, mais dado à literatura, ou só mais curioso, a abrir um PACOTE para o inspecionar e a deixar pilhas de avisos das Finanças ou outro correio assim bem chato por tratar, porque se distraiu a ler um belíssimo livro. Imagino-o depois a chegar a casa ao fim do dia e a contar uma história ao filho, enquanto lhe descasca uma tangerina, uma história que ouviu hoje lá no trabalho. E imagino o miúdo a olhá-lo de olhos esbugalhados com as mãos cheias daquele cheiro bom.

4. Têm de levar um cordel à volta. Ora, toda a gente sabe que os livros têm asas. Até o Gabinete para a Definição dos Procedimentos de Embalagem dos CTT. Há que amarrá-los para que cheguem ao destino e possam depois levar a voar o senhor Destinatário. Ou então é só para o pacote se poder fechar outra vez se for aberto, mas inclino-me mais pela teoria das asas.

É o último dia de trabalho do Sr Costas, ele que leva as boas e as más notícias, as imagens e as palavras a todos os lugares da ilha. Mas, nesse último dia, ninguém espera por ele à porta e as cartas lá deslizam por baixo das portas.
O Sr. Costas está nostálgico, dececionado até. Mas uma última carta ficou por entregar e não há como escapar a mais uma ida ao outro lado da ilha. Não pode falhar, as cartas são importantes.

Também aqui me sinto como o Sr. Costas: o PACOTE é importante e faço tudo para não falhar. Ainda não comecei com pesadelos, mas sei que virão aí: livros perdidos, moradas erradas, nomes trocados, enfim. Errar é humano, eu sei, mas gosto é de imaginar muitos meninos por aí de olhos esbugalhados, cujas mãos cheirem a tangerinas, mirtilos, lichies ou a manga.

Os PACOTES vão, como as cartas do Sr. Costas, para lugares muito próximos (Lisboa e Barreiro), outros já mais afastados (Caldas da Rainha e Pousos), outros lá em cima ou lá em baixo (Porto e Arcozelo, Portimão e Fundão); uns vão para outras ilhas (Açores e Madeira) e outros ainda fazem viagens loucas além fronteiras: Espanha, França, Holanda, Suíça, Suécia, Alemanha, EUA, Brasil, Singapura, Macau e Índia.
gracias e meninos de olhos esbugalhados escrevem cartazes de Obrigado.
No final da ilha, o Sr. Costas encontra as suas gentes em festa para lhe agradecer. Os cabelos enrolam-se e desenrolam-se em gracias e meninos de olhos esbugalhados escrevem cartazes a dizer Obrigado.

Quanto a mim, eu é que vos agradeço por poder ser um bocadinho como o Sr. Costas: o PACOTE é mesmo uma grande festa!
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Uma última carta
Kalandraka, 2016
Antonis Papatheodoulou texto, Iris Samartzi ilustração
isbn 9788484642718 
 


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