11.10.16

Uma caixa de bombons

Muitas vezes escolho um livro de contos porque sei que o meu tempo de leitura possível é esse.

Há alturas da vida em que não aguento um romance: a ler duas páginas por dia a coisa não avança, esqueço-me da história (porque normalmente as últimas linhas já as leio de olhos fechados) e vou-me desinteressando. Também há alturas em que não posso ler em inglês, muito menos em francês. O tamanho da letra e o espaçamento das linhas também têm influência na seleção...

Mas a verdade, é que gosto muito de contos. Mesmo quando consigo ler um romance.
As minhas viagens de carro pela cidade, no trânsito, passaram de desespero a prazer: quando vou com os miúdos temos sempre banda sonora, mas agora aproveito as passagens a solo para ouvir o podcast da New Yorker — fictions: escritores convidados pela editora, leem um conto de outro escritor, escolhido dos arquivos da revista.
E aí estou eu, a meio do dia, a ler um conto: que luxo!

Com o bónus da conversa que antecede e continua depois da leitura e que vale muito a pena ouvir, quer pela qualidade do som, quer do conteúdo.

O prazer de ler um livro de contos tem alguma coisa a ver com o prazer de ter — e comer — uma caixa de bombons.  E também tem a ver com o fazer uma coleção: a espera do próximo cromo que vai compondo a página e dando a conhecer a equipa (pois, por aqui é futebol, mesmo...).
O prazer de ler um livro de contos a alguém também tem a ver com esses dois prazeres: o dos bombons e o dos cromos!

Nesta leitura partilhada, a grande diferença está no tempo: uma coisa é começar e acabar um livro, uma história; outra, é ir ler mais um conto daquele livro que estamos a ler, fazendo aquele caminho juntos, esperando pela partilha de mais uma história, de mais um bombom.
E foi por isso que hoje não gostei muito de fazer batota ao ir espreitar as últimas páginas deste 1º volume dos Contos Completos da Beatrix Potter. É que o R e eu estamos a lê-lo, um por noite, e eu também nunca os li. É uma edição nova destes clássicos dos clássicos, feita à imagem e semelhança da primeira, lá nos idos anos zero do século passado.

Como no Babar, temos neste livro um prefácio muito bem feito, com fotografias e ilustrações, que nos fazem apreciar ainda mais esta relíquia e conhecer a personagem que a desenhou, escreveu e lutou pela sua edição.
 
Nestes contos, gosto especialmente da maneira como os animais são mesmo animais e pessoas ao mesmo tempo. Não se trata apenas da humanização dos animais, parece-me algo ligeiramente diferente. Potter consegue que as suas personagens sejam e ajam como animais e depois usa o (agora) clássico truque do guarda-roupa e do tipo de relação que estabelecem entre eles, o que nos permite identificarmo-nos com as suas asneiras, os seus anseios, as suas ambições. Mas é que, além disto, há aqui uma alternância abrupta e desconcertante entre o modo animal e o modo humano que nos leva para um reino de fantasia muito bonito e muito raro.

E eu sei que não devia ter espreitado, mas é que a última página mostra isso mesmo. A possível explicação dos estranhos acontecimentos da narrativa, é dada pelo texto e pela ilustração,

mas também por uma nota explicativa da autora que, deixando o narrador acabar a historia, nos vem brindar com um segredo bem junto ao ouvido.

Como o conto que vou ouvir hoje nas minhas voltas pela cidade e aquele que depois vou contar antes de apagar a luz e de lhes puxar a manta até às orelhas para ficarem com o sonhos bem presos entre a cabeça e a almofada.
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Contos Completos 1
Pim! Edições, 2016
Beatrix Potter
isbn 9789899962132

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