3.5.16

sempre novos

Tem sempre um sabor especial receber presentes fora do Natal e dos anos. Este recebi-o na semana em que o espólio dos cadernos de Bob Dylan foi vendido aos arquivos duma universidade dos EUA por um valor estrondoso.

Depois morreu Bowie, a seguir morreu Prince e esta semana faço anos, de modo que é uma altura em que inevitavelmente tenho pensado na vida e na morte, na música e no papel que ela tem nas nossas vidas, na marca que cada um deixa no mundo.

No domingo ouvi Tomás Halík falar de como a ressurreição não é um momento na história, mas uma história contínua e de como os outros podem ser o Céu na Terra: não consigo agora dissociar essa tese da forma como funciona a música nas nossas vidas.

Quando morreu Bowie e depois Prince, arrebanhámos os cds da prateleira e andámos com eles em repeat no carro, que é a nossa melhor sala de música.

É bonito dar a conhecer estas figuras aos miúdos, figuras que estão nas nossas vidas desde sempre, mas que já lá estavam antes de eles nascerem e que por isso às vezes desconhecem. Pessoas que fizeram a história da música e por isso a história do Mundo.
Bowie já conheciam até porque sabem que é o menino do Snowman;
Prince entrou para o top do T, junto com Stevie Wonder e, claro, os Beatles: canta-o e dança-o a toda a hora; o B ficou impressionado com a reação de Stevie Wonder à morte de Prince e os três ouviram calados a emocionante abertura do concerto de Springsteen em Brooklyn. Sentem um misto de fascínio e estranheza com as figuras mais ou menos exóticas dos cantores, exatamente como eu me lembro de sentir, e impressionam-se com o impacto que estas mortes têm na vida de pessoas que não os conhecem. A música tem esta força.

À semelhança d'O primeiro gomo da tangerina, o texto deste Forever Young é a letra duma música, não do nosso Godinho, mas do também nosso Dylan, da voz de cana rachada. Paul Rogers ilustrou a canção e a vida de Bob Dylan, com inúmeras referências visuais a álbuns e a figuras importantes na carreira e na vida de Dylan.
Por minha parte, gostei especialmente da ilustração do quarto do miúdo, com uma prateleira de cima com excelentes referências literárias e também porque, naquele quarto, está tudo o que os meus miúdos gostam,

do básquete aos aviões, das estrelas ao mapa mundi, dos Beatles às bolachas.
Hoje foi o English day na escola do T e oiço os relatos do dia, em que o highlight foi o momento em que começou a dar o Yellow submarine e em que todos os miúdos cantaram conhecendo-a como se fosse a música dos desenhos animados do momento. Que beleza.

No final do livro, Rogers desvenda a riqueza de cada ilustração onde aparecem Joan Baez, Einstein, Paul McCartney, James Dean e nos convida a ouvir determinada música ou a ver certo vídeo no YouTube, tal com eu enchi este post de vídeos e referências para que pudessem perceber melhor o que estou a dizer, para poderem ver ou mostrar, como eu gostei de ver e mostrar.

No domingo foi dia da Mãe e acabámos a coleção dos Retratos aos 5 anos, significando isto que o R está quase a acabar a pré-primária.
É o final duma fase, é certo; não ficam, não ficamos para sempre novos. Mas também é o ano em que assisto aos dois mais pequenos em palco a lerem e a tocarem música e em que o meu filho mais velho me oferece um concerto de viola de presente do dia da Mãe.

Presentes com sabor especial (também) são estes e, lamechices à parte, nesta semana de introspeção, se há marca que sei que deixo no mundo são estes três miúdos, que me esgotam ao fim do dia mas que me enchem tanto tanto as medidas.
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Forever Young
Bob Dylan texto, Paul Rogers ilustração
Simon and Schuster, 2008
isbn 978847384294


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