10.5.16

Semear livros

Brincava muito em casa dos meus primos. Eles eram seis e moravam mesmo por baixo de nós.
 
Fazíamos grande balbúrdia e a única coisa que nos punha a arrumar o quarto inteiro era a música do início da emissão que prometia desenhos animados ao fim da tarde. Só tínhamos aulas de manhã, por isso, depois do almoço e dos TPC, começava o caos.
 
Cinco dos seis são rapazes e a menina veio em último, de maneira que eu brincava com eles aos carrinhos e, na maioria das vezes, ao faz-de-conta. Éramos mergulhadores (com as meias puxadas para fora do pé para fazerem de barbatanas) rastejando pelo chão do quarto, fazendo bluirc, bluirc, éramos hamsters cada um no seu ninho a comer bolachas, fazíamos missas (eu era o padre) em que a comunhão era em loop para comermos mais bolachas (muitas vezes o objetivo das brincadeiras era mesmo só comer bolachas), éramos garagistas que arranjávamos os carros, deitados por baixo das camas a apertar parafusos imaginários.

Ora isto desarrumava muito. Muitíssimo.
Agora vivemos cinco em 90m2. Sei que somos imensamente privilegiados por ter esta casa desenhada por mim, com esta luz e com esta vista, mas a verdade é que, com três rapazes, a coisa dá bastante trabalho. E tenho pensado em como o facto de nos termos vindo a encaixar aqui ao longo do tempo, nos tem também vindo a moldar e a educar como família. Na verdade há um imenso respeito pelo espaço e silêncio, não de cada um porque não há esse espaço realmente, mas de todos. Só quando se fala de alguns assuntos com outras famílias é que se percebe que há coisas que não são normais.
 
Quando o B tinha 3 anos, a professora veio dizer-me que, com ele, tinha de fazer ao contrário das outras crianças; na escola, como cá em casa, havia caixas diferentes para os carrinhos, para o legos, para os puzzles. Quando o B encontrava alguma peça fora do lugar, ia com um ar atarantado dizer à professora que aquilo estava mal, de modo que ela lhe teve de começar a dizer que sim, estava mal, mas que também não vinha grande mal ao mundo por isso!

No quarto deste menino encontramos todos os nossos brinquedos preferidos e também aquelas coisas que, imagino, haja em todas as casas: coisas que já não fazemos ideia do que são, de onde vieram, para que servem, mas que podem vir a revelar-se um dia totalmente essenciais para a montagem duma brincadeira. As imagens desta Balbúrdia contam-nos não uma mas imensas histórias, numa espécie de mistura entre a complexidade das imagens de Martin Handford e a delicadeza das de Satoshi Kitamura. Como no Trocoscópio, podemos tentar encontrar os brinquedos que vimos numa página na outra a seguir e ainda na outra, como num jogo interminável, ou entrar no faz-de-conta de alguns brinquedos que são assumidamente só belos desenhos ou gatafunhos coloridos.

Cá por casa raramente há balbúrdia. Bem, tenho de fazer aqui a ressalva da visita dos primos vários, claro! Os outros meninos que nos visitam espantam-se com o tamanho da casa e ainda mais com a arrumação do quarto. É porque é mesmo uma espécie de puzzle 3D em 9m2. E é por isso que, em geral, estão habituados a arrumar uma coisa antes de irem buscar outra. As brincadeiras não têm espaço para coexistir sem que, com isso, se criem monstros como o que persegue o menino pela rua fora.

A única verdadeira exceção por aqui é a dos livros que se espalham pela casa. Uso o itálico para amaciar a coisa; os livros não têm pés, eu sei, mas dão-nos asas, e eu própria contribuo para o caos. Mea culpa.
 
Já lhes perguntei se acham que plantar livros faz com que cresçam mais, já ameacei dar os livros que encontro espalhados no chão, mas nada. A balbúrdia continua como um monstro terrível, divertido, eclético, ameaçador, amigo, mágico, surpreendente que nos persegue a imaginação e o desejo pelas ruas da nossa cabeça até que, ao fim do dia, apanhamos os despojos das histórias e os ordenamos novamente nas prateleiras, de baixo e de cima, para no dia seguinte

começar tudo outra vez.
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Balbúrdia
Pato Lógico, 2016
Teresa Cortez
isbn 9789899847071

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