12.1.16

A odisseia dum ano

Gosto de ler livros grandes, diz o B. Nas horas vagas vai devorando a coleção da Agatha Christie dos meus pais (o que me vai salvando) misturando alegremente quadradinhos nos intervalos, num espelho daquilo que é uma belíssima adolescência onde vem entrando de mansinho.
Hoje ia a uma representação da Aventura de Ulisses de modo que lhe resolvi ir buscar a Odisseia e a Ilíada adaptadas de Frederico Lourenço. Na escola pediram a versão da Maria Alberta Menéres que ele já tinha lido e que eu tinha contado em voz alta aos mais novos para que o T lhe pegasse (como pegou e adorou!). E também já tive na mão muitas vezes as versões do João de Barros porque adorei (e eles também) ler a dos Lusíadas, mas acabei sempre por não as trazer.

Este domingo leu a Odisseia e hoje acabou a Ilíada. Ficou desapontado porque o episódio do cavalo de Tróia não aparece pormenorizado em nenhum dos dois...

Já me cansei de lhe perguntar (quando acaba um livro a esta velocidade) se leu a bem história; como também só pergunto se o estudo já chega apenas para fazer o meu papel de mãe. Cada pessoa tem o seu ritmo, aprendo eu, e o deste é ao da velocidade da luz.
Muitas vezes vejo-o a reler livros e percebo que não faz mal. À velocidade a que lê tenho a certeza de que à segunda lê um outro livro.

No natal quis dar-lhe o Moby Dick (um livro grande...) mas o orçamento já estava curto de modo que optei por outros. Este foi um deles.

Para um menino rápido a poesia não vem fácil. Mas é tão bom que de vez em quando não resisto a apresentar-lha de diferentes maneiras. Nada melhor que uns aforismos e umas pequenas anedotas ou achados para ajudar a ler de outra maneira, com mais vagar, como dizem os alentejanos.

Ter vagar é ter tempo devagar, que não é o mesmo que apenas ter tempo. Há coisas para as quais é preciso vagar. Para ler poesia, aforismos, anedotas ou achados que sejam, é preciso vagar na cabeça, vagar a cabeça, demorar-se, estar especialmente disponível.

Há alturas em que não posso ler em inglês, há outras em que a poesia não funciona, há dias em que só um conto me salva. É bom que aprenda o gosto de ler um livro grande mas que também se entusiasme com duas ou três palavras numa página. A seu tempo, pois é.

Conheci O livro do ano numa oficina com a Catarina Sobral em que ela falou sobre os diferentes tipos de relação entre texto e imagem. Já aqui escrevi sobre a desatenção a que votam, votamos, as ilustrações quando aprendemos a ler e O livro do ano não é para crianças, é para o ano, é para todos. Tem texto e tem imagem em contraponto, se bem aprendi a lição: há ironia, há uma interpretação alternativa para quem a quiser ler, ver, encontrar com vagar. Não é a adolescência o lugar perfeito para tudo isto?

Organizado nas quatro estações, O livro do ano que é afinal o diário duma menina. Um diário de alguns dias que faz olhar para as coisas dum modo poético, cómico, enviesado, surpreendente. Começa na primavera para nos lembrar que depois desta chuva insana há de brotar muita coisa por esses campos fora e que beldroegas continuarão a nascer entre as pedras da calçada nos passeios de Lisboa.
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O livro do ano
Alfaguara, 2013
Afonso Cruz
isbn 9789898775443

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