10.11.15

Vidas que voam

Li A casa que voou mesmo antes de voar sobre o atlântico. A nossa casa voou também, ficou vazia como um buraco na cidade. Não foi assim uma coisa tão espetacular como este voo que Catarina fez a casa de Cali fazer, foi um salto mais cá dentro, entre a excitação da viagem e o coração apertado pelo que ficou. Pronto, sou mãe-galinha. E Lisboa é mesmo tão bonita também vista de cima.
Do outro lado encontrámos pessoas que voaram há pouco tempo, outras que foram há 40 anos, outras que descendem da grande vaga que saiu dos Açores e daqui nos anos 50. Para não mais voltar.
Estas personagens parecem saídas desses tempos idos ao mesmo que guardam uma qualquer qualidade de futuro já vintage.
 Tenho imensa vontade de viver fora daqui um ano, num lugar qualquer ou a viajar com a família toda. Parece-me uma tremenda e lindíssima lição de vida, esta de viajar, de estar noutros lugares, de deixar para trás. Mas não tenho qualquer vontade de deixar esta cidade para sempre, seja lá o que isso for. Sou muitíssimo agradecida pelos meses que passamos em férias fora da cidade, são um luxo absoluto, o tempo que isso é — e representa de facto —, mas é aqui que quero regressar. Isso torna-se mais claro ainda quando nos confrontamos com histórias de vida duríssimas de viagens sem retorno.
Ontem o B contabilizava o número de aulas que tinha de Português e o T arrepiava-se com a quantidade, enfadados ambos, passando o enfado ao R. Zanguei-me mais do que o costume incomodada com as notícias do dia, de outras viagens, essas mais do que sem regresso, sem certeza de chegada, sem escola, sem futuro. Acabaram por confessar que gostam muito de ter aulas, mas acho que o discurso inflamado da mãe à mesa de jantar sobre o privilégio em que viviam, se por mais nada, por poderem ir à escola, funcionou bem.
É um privilégio poder pensar em sair, sem absoluta necessidade de sair, só acarinhar esse sonho como uma possibilidade, ainda que não se realize. Às vezes são puxões de fora que nos fazem ver que estamos fora do lugar, como esta casa que fez ver ao seu dono, que o seu — o deles — lugar era outro.
Ter só uma estrada em frente sem medo do que aí vem é hoje um enquadramento precioso. A crise ganhou outro nome nas notícias, mudou de personagens, mas é ainda aqui, na nossa casa-Europa.
Enquanto fazemos o pouco que podemos, que haja a certeza da bênção que é não ter de fazer a casa voar, fugindo duma crise ou de outra. De ir sem saber se se chega, de ir sem saber se se volta.
Este mundo florido por onde, para onde, este senhor anda, tem de estar mesmo ali ao virar da esquina, para todos. Mesmo.
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A casa que voou
Bruaá Editora, 2015
David Cali texto, Catarina Sobral ilustrações
isbn 9789898166272

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