24.11.15

De cabeça perdida

Há livros que aparecem assim em momentos chave.
Por cá não há Nãos, mas ainda há demasiados Vou já.
Menos mau.

Céu disse tantas vezes não que lhe saltou a cabeça.

Fica de cabeça perdida e parte em busca da sua, lá para os lados da montanha.

Passámos a semana a dizer não a esta violência absurda. A abanar a cabeça de perplexidade, a ficar sem palavras perante todo o absurdo.

Agora, quando passo pelo livro da menina chamada Céu (tudo me parece uma metáfora) e destas palavras pequenas e tão poderosas — não e sim —, já não consigo ver só a história da menina malcriada que aprendeu a lição. Foco-me na sequência do não para o sim, na esperança que passemos rapidamente para um Sim global, e não só desta menina Céu.
Durante uma semana até as três cores do livro me pareciam a bandeira desbotada e enlutada. O cérebro — Mãe, esta árvore parece um cérebro! — tem destas coisas.

Das várias cabeças que foi encontrando, nenhuma lhe agradou. Queria a sua.

Passamos a vida a enfiar carapuças, a pormos-nos na pele de outras pessoas, mas há coisas que são tão inconcebíveis que mesmo com uma imaginação fértil, não encaixam. Como a cabeça nuvem, ou pedra ou flor. São ótimas, mas não são a dela.

O livro acaba com Céu a emendar o Não por um Vou já. Talvez esteja a ser demasiado ambiciosa a querer o patamar seguinte, o de passar para o Estou a ir, até chegar ao último degrau, utópico, porventura, de simplesmente virem.

Cá em casa também não há Não consigo; o máximo permitido é um Não estou a conseguir. São só palavras, talvez. Mas parece-me que o espírito que passa é bem mais positivo e autónomo em que primeiro se tenta e só depois, se necessário, se admite que não se é capaz e se pede ajuda. Evita muita preguiça, acreditem, e traz grandes alegrias de pequenas conquistas.

Nesta conjuntura europeia, mundial, lutemos todos para que seja possível partir dum Não estou a conseguir em vez dum Não consigo para se chegar a pôr em prática a famosa e tão certeira frase de Benjamin Franklin: “They who can give up essential Liberty to obtain a little temporary safety, deserve neither Liberty nor safety.”

Cá em casa já a aprenderam.
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Eu quero a minha cabeça!
António Jorge Gonçalves
Patológico, 2015
isbn 9789899944633
booktrailer
Lançamento dia 28, 16h, na Fnac Chiado.

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