6.3.15

O gerúndio do verbo esperar

Como as meias, também os livros desaparecem. E sempre os que mais gostamos.
Depois é um cabo dos trabalhos para os reencontrar. São poucas as livrarias que nos salvam, onde se mostra o que de melhor se faz e se fez e não apenas o que se faz.
 
Na Gigões e Anantes, ali mesmo depois da confeitaria Peixinho, em Aveiro, fomos reencontrar o desaparecido Sr. Luís de Christian Voltz (e outras coisas maravilhosas que havemos de aqui trazer), numa esquina de sonho, guardada por quem sabe, por quem gosta, por quem mostra.
 
O Sr. Luís não sabe esperar. É difícil esperar, principalmente pela primavera, principalmente quando o inverno teima em se instalar por tanto tempo. (Agora já aí anda a anunciar-se no primeiro dia com calor e nas ameixoeiras, amendoeiras e todas essas eiras que nos surpreendem a cada esquina com a sua beleza excessiva.)
O Sr. Luís planta e espera resultados. E há resultados, quase quase logo, mas só nós é que os vemos. Debaixo da terra a coisa está acontecer, mas o pobre Sr. Luís não tem a nossa visão raio-x e não vê as transformações incríveis que se estão a dar.
 
Hoje isto soou-me a uma fábula sobre a educação: sobre todas as vezes que voltamos esperando ver frutos e tudo está igual. Tudo o que já apregoámos ou explicámos mil vezes de maneiras e tons diferentes; ou então que deixámos de apregoar ou de explicar para ver se assim funciona e continua na mesma. Até que desistimos?
 
Claro que não. Não somos o Sr. Luís: acreditamos com todas as forças que as sementes estão lá e que mais tarde ou mais cedo hão-de dar fruto.

E não é que dão? E o melhor é andar por ali, esperando num gerúndio prolongado, se não queremos que venha o pássaro para os colher e levar.

Os miúdos ensinam-nos isso todos os dias, nas coisas mais pequenas que de repente fazem, dizem, perguntam, ou que já não fazem, não dizem, não perguntam. Nas coisas insignificantes que na verdade são as mais importantes de todas, porque dão o sinal de que afinal estão a crescer não só em tamanho, mas também em graça e em sabedoria.
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Ainda nada?
Christian Voltz
Kalandraka, 2010 (1º ed portuguesa, 2004)
isbn 9789728781231

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