30.3.10

postal aberto à Primavera

Cara Primavera,
escrevo para lhe dizer que esta sua atitude me parece intolerável.

Vêm os senhores paisagistas ameaçar este ano com uma das mais fulgurantes primaveras de sempre

- por contraponto ao descalabro do inverno -, e é isto que tem para nos apresentar?
Desculpe, mas não lhe fica bem andar a adiar festas
e a ameaçar com um dia de sol esplendoroso para depois nos trazer
esta miséria de dias de guarda-chuvas virados e cabelos para-lá-de despenteados.
Eu sei que sabe fazer melhor que isto e até os mais desatentos citadinos não andam distraídos das folhas de jacarandá que,

mesmo assim, já nasceram há semanas

e das flores das ameixoeiras, que só quando o sol apareceu puderam brilhar. Não.
Por isso lhe digo que considero inqualificável que se decida agora a destruir as flores das magnólias.

Isso eu não posso tolerar: se as catalogo em Lisboa (há tão poucas), subo agora ao norte com a firme intenção de pasmar bastante tempo em frente delas. E, se possível, brancas.
Sei que afirmarmo-nos é difícil,

claro, mas é também absolutamente imperativo. Há que dar tempo ao tempo, eu sei, mas há limites.
Necessitamos urgentemente das alergias dos pólens, agora que já nos passaram as da humidade. Por favor, ajude-me a desdizer as más-línguas que afirmam que fomos enganados com as quatro estações,

alegando que temos agora apenas duas.Deixo-lhe hoje este postal ilustrado, que tinha guardado para dia 21 (inclinei-me entretanto para este outro sobre a sua colaboradora árvore, desculpe) para, humilde mas veementemente, lhe relembrar do seu papel. Sem demora.

Eperando vê-la em breve, despeço-me com consideração,
..................................................................................

A árvore
Sá da Costa, 1982

Iela Mari

s/ isbn

encontrado aqui

aqui (?)

a reedição como As estações, pela Kalandraka

3 comentários :

  1. Maravilhoso o livro da Árvore! E concordo plenamente: Vem Primavera vem encher os nossos dias de sol e bichinhos e tudo a que temos direito! ;-)

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  2. Olá!
    Lá em Bolonha estava uma exposição mravilhosa da Iela Mari.
    Tudo feito AC (antes do computador). Com esboços que davam um livro, papéis fotosensíveis e coisas que nem percebi bem como eram feitas... acho que foi o que mais gostei de ver na viagem.

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  3. pois, tenho andado a controlar a minha imensa inveja por essa viagem que tenho seguido no vosso blogue e nos blogtailors. e percebi que havia a exposição, o que me fez ainda mais invejosa. em jeito de redenção e de homenagem, traremos aqui por estes dias os outros que temos dela (e dele).
    parabéns pelo stand-fixo, pelos cartazes, pela presença nos catálogos, pelo desenho tão bom de tudo.

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